A história do Chelsea em seis jogos: O primeiro da Era Abramovich

Recentemente o The New York Times publicou em coluna do jornalista Rory Smith uma lista dos seis jogos que moldaram a história do futebol. Não os melhores ou mais memoráveis jogos, mas sim os que ajudam a explicar o futebol como conhecemos hoje.

O Chelsea Brasil resolveu pegar um gancho na temática e produzir uma série, dividida em seis partes, sobre os seis jogos que definem a história do clube. Assim, cada parte será dividida em três atos: Contexto Histórico, O Jogo e Repercussão. Logo, o jogo escolhido será justificado, detalhado e colocado em perspectiva. O primeiro jogo já foi publicado e você pode ler aqui. A segunda parte da série começa agora: Liverpool 1-2 Chelsea, em 2003.

Contexto histórico: A ascensão depois da queda

A Premier League foi fundada em 1992 com o objetivo de trazer acordos de direitos televisivos mas lucrativos para os clubes. Em resumo, o acordo trazia independência comercial da Football Association e dava autonomia para a FA Premier League negociar seus próprios direitos de imagem. Com isso, a instituição de 104 anos de idade ficaria operando as três divisões profissionais inferiores da Inglaterra. Enquanto isso, a nova entidade ficaria responsável pelos times da elite do país.

A permanência na elite inglesa foi imprescindível para o futuro financeiro e administrativo do clube. Isso se deu por conta da formação da FA Premier League. O Chelsea foi uma das 22 agremiações a deixar a Football League e receber a verba adicional. Entretanto, a má fase dos anos anteriores não havia terminado.

Os 22 times que participaram da primeira edição da Premier League (Foto: Sky Sports)

Apesar disso, o clube não demonstrou mudanças significativas dentro campo. Na primeira temporada o treinador Ian Porterfield foi demitido após dois meses sem vitória. Na temporada seguinte, porém, a sorte parecia melhorar. Foi anunciado Glenn Hoddle como o novo técnico.

Apesar do Chelsea conviver constantemente com a ameaça do rebaixamento, na primeira temporada de Hoddle o time chegou à final da FA Cup e, na segunda, chegou às semifinais da Winners Cup. Nesta última sendo eliminado pelo Real Zaragoza, por 3-2 no agregado, os eventuais campeões.

É seguro dizer que, nesta época, o Chelsea estava recebendo mais verba do que nos tempos recentes. Assim, chegaram ao clube, em 1995, a lenda holandesa Ruud Gullit e o atacante Mark Hughes, diretamente dos rivais Manchester United. Apesar disso, a passagem de Hoddle terminou com um 11º lugar na temporada 1995/96 e outra chegada às semifinais da FA Cup. O inglês pediu demissão em favor de cargo na Seleção Inglesa.

A filosofia holandesa

A promoção de Gullit ao cargo de jogador-treinador em 1996/97 foi o empurrão que o time precisava para se firmar de vez na Premier League. Assim, o holandês conquistou um impressionante sexto lugar em sua primeira temporada. Esta foi a melhor colocação do Chelsea desde 1990. Além disso, o treinador também trouxe um título da FA Cup após 26 anos de seca.

Ruud Gullit e Gianluca Vialli em 1996
(Foto: Fiona Hanson/PA)

Ao mesmo tempo, a figura de Gullit funcionou como um farol para a chegada de grandes jogadores como Gianluca Vialli, Frank Leboeuf, Roberto Di Matteo e Gianfranco Zola. Este último viria a se tornar um dos favoritos da torcida e eventualmente teria o número 25 aposentado em sua homenagem. Outros atletas que integraram o time vencedor de Gullit foram o uruguaio Gus Poyet e o norueguês Tore André Flo. Assim, o Chelsea finalmente ficou conhecido como um lado que jogava atraente e técnico, com muitas trocas de passe. Apesar disso, a inconsistência frente a times mais fracos continuava.

Renascença italiana

Com resultados empolgantes nos anos seguintes sob a batuta de Gullit e de seu sucessor no cargo, Vialli, os Blues agora adicionavam títulos à sua galeria. Por exemplo, a Copa da Liga, Winners Cup e uma vitória empolgante na Supercopa Europeia contra o Real Madrid. Além disso, também foi na temporada 1998/99 que o clube fez a sua primeira aparição na Champions League.

Zola e Di Matteo fizeram parte da “Renascença Italiana” nos Blues (Foto: Reprodução Calciopedia)

Com um elenco internacional, os Blues contavam com Zola, Di Matteo, Poyet, Ed de Goey e o trio campeão mundial Frank Leboeuf, Marcel Desailly e Didier Deschamps. No comando de Vialli, o Chelsea viria a se tornar o primeiro time inglês a começar um jogo com 11 jogadores estrangeiros. Devido à maratona de jogos, a falta de profundidade do elenco começou a pesar. Apesar disso o italiano terminou sua passagem pelo clube com mais uma FA Cup, a segunda em quatro anos.

 A epítome da renascença italiana no Chelsea foi a passagem do treinador Claudio Ranieri. Sua estadia durou de 2000 a 2004 e marcou uma transição do clube dos anos 1990 para o do novo século. Ranieri substituiu o compatriota Vialli na batuta do time e, durante seus primeiros três anos, Ranieri renovou o elenco azul.

Ranieri com alguns de seus comandados (Foto: Scoopnest)

Esse processo de renovação trouxe jogadores como John Terry, William Gallas, Frank Lampar e Jesper Gronkjaer. Apesar disso, as duas primeiras temporadas terminaram somente com sextos lugares. Em 2002/03, com menos pressão e mais entrosamento, os Blues conseguiram incomodar na parte de cima e conquistar a vaga para a Champions League com o quarto lugar nacional.

Era Abramovich

Em junho de 2003 o time estava vivendo uma crise financeira e o proprietário Ken Bates inesperadamente vendeu o clube para o bilionário russo Roman Abramovich. As cifras foram de 60 milhões de libras. Além disso, Abramovich ainda tomou responsabilidade pelos 80 milhões de libras de dívidas do clube. Logo após começou a despejar cerca de 100 milhões de libras em contratações antes mesmo do início da época. Jogadores como Claude Makelele, Geremi, Hernán Crespo, Glen Johnson, Joe Cole e Damien Duff foram alguns dos escolhidos.

Roman Abramovich (esq.) e Ken Bates (Foto: AP)

O Jogo: novo patamar

A temporada de 2003/04 começou com o primeiro jogo da Era Abramovich, uma pedreira contra o Liverpool, um dos melhores lados da época. O lado vermelho vinha com um elenco cheio de estrelas e ídolos como Michael Owen, Emile Heskey, Harry Kewell, Sami Hyypia e Jerzy Dudek. Uma grande ausência para os Reds foi Steven Gerrard.

O lado azul entrou em campo com Carlo Cudicini; Johnson, Terry, Desailly e Wayne Bridge; Geremi, Verón e Lampard; Gronkjaer, Duff e Gudjohnsen.

Luta pela vitória

A escalação mostrava um time reativo, rápido e com um meio-campo forte. Geremi e Verón proporcionavam o primeiro passe para Lampard cadenciar e lançar ou para um dos wingers acelerar o jogo.

Juan Sebastian Verón comemora o primeiro gol do Chelsea na Premier League 03/04 (Foto: DreamteamFC)

Foi exatamente em uma esticada de bola para Gronkjaer pela direita que nasceu o primeiro gol. O groelandês-dinamarquês enxergou Verón na entrada da área e cruzou rasteiro para o argentino completar. O Chelsea se defendeu como pôde ao longo do jogo das investidas do Liverpool. O ataque poderoso dos Reds parava na defesa entrosada de Desailly e Terry ou na boa fase do arqueiro Cudicini.

Logo após, aos 79’, Bridge comete pênalti em El Hadj Diouf. Owen precisa de duas cobranças para assinalar o gol de empate devido à invasão da área por parte dos defensores do Chelsea. Logo, o placar agora estava 1-1. Assim, com mais posse de bola, o Liverpool avançava e tentava a virada no sufoco. Entretanto, a tática de jogo dos Blues era chamar o adversário para o contra ataque.

Hasselbaink saiu do banco para selar a vitória para os Blues (Foto: BBC)

Em  jogada veloz pelo meio, Verón encontra Lampard que lança por cima para o substituto Jimmy Floyd Hasselbaink. O inglês domina e marca um belo gol. A vitória por 2-1 foi um indicativo da temporada vindoura.

Retorno imediato

O investimento de Abramovich deu retorno e garantiu ao Chelsea o segundo lugar na última temporada de Ranieri. O desempenho impressionante do clube foi o melhor em 49 anos. Assim, o futebol jogado só foi batido pelo título invicto concedido ao Arsenal, campeão da liga. Os Gunners haviam mantido algumas peças do time campeão em 2001/02 e o título invicto é até hoje um dos maiores feitos do futebol inglês. Assim, o lado azul de Londres terminou a Premier League com 79 pontos, 11 atrás dos líderes e com 4 pontos de diferença para o terceiro colocado, Manchester United.

Ao mesmo tempo, os Blues ainda alcançaram às semifinais da Champions League, perdendo para o futuro segundo colocado Mônaco. O lado francês tinha ótimas peças como o ponta Ludovic Giuly e só foi derrotado na final pelo muito bem treinado Porto de José Mourinho.

Piet de Visser (centro) com Kevin De Bruyne (esq.) e Romelu Lukaku (dir.), dois dos jovens talentos observados pelo olheiro (Foto: Chelsea FC)

Logo após, Abramovich recrutou o treinador português José Mourinho, então vencedor da Champions League e o olheiro Piet de Visser, duas das maiores personalidades da história do clube.

Repercussão: O pontapé inicial dos melhores anos

Primeiramente, o início da Era Abramovich foi crucial para colocar o Chelsea em igualdade financeira com lados mais vencedores na época. Manchester United, Arsenal e Liverpool formaram junto com os Blues o “Big Four” da década de 2000. Nenhum desses lados ficou de fora das quatro primeiras posições mais do que três vezes em 10 anos. Por exemplo, a dominância foi ainda maior entre as épocas 2003/04 a 2008/09. Os quatro ocuparam os quatro primeiros lugares em cinco das seis temporadas no período.

Com a ascensão do Chelsea ao Big Four, já não existia mais um virtual quarto lugar vago, visto que os times mais fortes anteriormente eram os outros três. Tanto foi assim que vários técnicos e jornalistas indicaram que isto poderia ser uma ameaça para a competitividade da liga.

O Chelsea de 2004 a 2006 é um dos esquadrões imortais do futebol (Foto: Getty)

O fato é que a candidatura dos Blues a melhor time nacional monopolizou a década em favor do Big Four. Tanto é verdade que, até hoje, na tabela de todos os tempos da Premier League, os quatro ocupam as primeiras colocações com vantagem. Assim, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Liverpool, respectivamente, têm uma vantagem de pelo menos 300 pontos para o quinto colocado, Tottenham Hotspur.

Catalisador russo

Assim, o bilionário russo conseguiu o que centenas de jogadores e treinadores não conseguiram desde a fundação do clube. Ou seja, a colocação do Chelsea na elite do futebol mundial. Todavia, para entender a dimensão disso, é necessário que se analise os resultados do Chelsea ao longo da história.

Desde meados dos anos 1980 o clube vinha em uma crescente. Então, depois de décadas de relativo sucesso veio a época das vacas magras. Porém, mesmo nas eras mais vitoriosas, o clube nunca foi considerado elite do país e os títulos eram escassos. A evolução dos Blues aconteceu de década em década, vagarosamente. Primeiramente esteve lutando contra o rebaixamento nos anos 1980. Em segundo lugar se consolidou na Premier League. Assim, jogadores com mais renome foram atraídos. Em terceiro lugar, três bons técnicos fizeram a transição da década para a Era Abramovich. Em quarto lugar, o dinheiro russo veio para ser o catalisador do desenvolvimento do Chelsea como instituição.

Abramovich foi o “catalisador russo” para o desenvolvimento do futebol do Chelsea (Foto: Reprodução Twitter Chelsea)

Para um clube se consolidar como potência internacional, é necessário analisar diversas variáveis. Todas essas incógnitas foram removidas quando Abramovich chegou e bancou o clube num momento decisivo. Na época, as possibilidades eram poucas. Por exemplo, poderia cair de produção com o envelhecimento do time ou manter-se no mesmo patamar com jovens inexperientes e jogadores de segunda linha mundial.

O fato é que a história do Chelsea não seria escrita sem a compra de 2003. Assim como não seria escrita sem alguns outros episódios marcantes que diferenciam o clube de outros “ricos instantâneos” do futebol.

Lucas Jensen