A história do Chelsea em seis jogos: O primeiro título nacional

Recentemente o The New York Times publicou em coluna do jornalista Rory Smith uma lista dos seis jogos que moldaram a história do futebol. Não os melhores ou mais memoráveis jogos, mas sim os que ajudam a explicar o futebol como conhecemos hoje. O mesmo raciocínio podemos ter para a NBA, mas que ainda não há um novo cenário para este ano e que deixa os fãs sem prognósticos para fazer as suas Apostas NBA 2020. Ainda que a expectativa seja muito alta entre os fãs.

O Chelsea Brasil resolveu pegar um gancho na temática e produzir uma série, dividida em seis partes, sobre os seis jogos que definem a história do clube. Assim, cada parte será dividida em três atos: Contexto Histórico, O Jogo e Repercussão. Logo, o jogo escolhido será justificado, detalhado e colocado em perspectiva. Confira o primeiro escolhido abaixo: Chelsea 3-0 Sheffield United, 1955.

Contexto Histórico: grandes mudanças

Primeiramente, quando o futebol profissional foi interrompido no Reino Unido pelo avanço da Segunda Guerra Mundial, todos os jogos do período foram considerados não oficiais. Com o Chelsea não foi diferente. Por conta disso, o clube competiu em uma série de competições regionais e os torcedores viram um time cheio de jogadores “convidados” ganhar a Football League War Cup.

Programa oficial da final da Football League War Cup entre Chelsea e Charlton, em 1944 (Foto; Reprodução Collect Soccer)

Com o fim do combate, os fãs de futebol tinham grande expectativa para o retorno das competições oficiais. Billy Birrell, treinador do clube desde antes da guerra, conseguiu formar alguns bons times com o grande investimento feito pela agremiação ao trazer jogadores renomados da época. Entretanto, o Chelsea nunca terminou uma temporada acima da 13ª posição na tabela, por exemplo.

Os últimos dois anos de Birrell no comando foram marcados por fracassos na FA Cup e luta contra o rebaixamento em sua última temporada, a qual terminou com o seu pedido de demissão. A maior contribuição do manager para o clube talvez tenha sido o começo da mudança na política de contratações. Ainda mais, ele supervisionou um programa completamente novo de observação de jovens talentos para que o Chelsea pudesse formar seus próprios atletas. Essa nova política proporcionou o surgimento de vários jogadores importantes para o time nas décadas seguintes como Jimmy Greaves, Bobby Smith, Peter Osgood, Peter Bonetti, Ray Wilkins e Bobby Tambling.

Era Ted Drake

Em 1952 o Chelsea assinou com Ted Drake, um dos treinadores que mais ajudou a moldar o clube que o Chelsea é atualmente. Em sua passagem, ele ficou conhecido como um grande “paizão” para os jogadores e um dos primeiros da história a demonstrar essa personalidade.

Ted Drake, técnico do Chelsea (esq.) em conversa com o jornalista Denzil Batchelor em 1952 (Foto: Getty)

A sua principal contribuição para a instituição foi a modernização do clube, dentro e fora do campo. Suas ações para desassociar a imagem do Chelsea dos Pensioneiros de Chelsea, que é uma denominação referente a um residente do Royal Hospital Chelsea, uma casa de repouso para militares britânicos aposentados. A associação era tanta que o primeiro apelido do clube foi “The Pensioners”, ou os Pensioneiros, e até a chegada de Drake, o escudo do clube possuía uma figura de um pensioneiro.

Apesar da identificação da torcida, a imagem de um cidadão aposentado não coincidia com a modernização que Drake desejava para o clube. O ex-atacante do Arsenal e da Seleção Inglesa introduziu o leão ao escudo e o time ficou conhecido, desde então, como The Blues, ou Os Azuis.

O Jogo: arrancada para levantar o troféu

Como toda mudança, a revolução de Ted Drake não surtiu efeito imediato. Apesar da mudança no regime de treinos, que introduziu trabalho com bola, prática rara na Inglaterra da época, as duas primeiras temporadas foram fracas e não mudaram o patamar do Chelsea no país.

Mas, em 54/55, a aposta em jogadores menos midiáticos mas eficientes e os constantes pedidos de apoio para a torcida deram resultado. Os fãs viram uma recuperação extraordinária da equipe na segunda metade da temporada, saindo da 12ª colocação para a conquista do título inédito na história dos Blues.

A surpresa foi geral. Até novembro, os Blues amargavam o meio da tabela, mas conseguiram forças muito graças aos gols de Roy Bentley, capitão do time, e John McNichol. Além deles, o winger Frank Blunstone trouxe criatividade para a construção ofensiva dos azuis de Londres e Stan Wicks, velho conhecido de Drake dos tempos de Reading, dava segurança à defesa.

Roy Bentley, capitão e artilheiro dos Blues nos anos 1950 (Foto: Reprodução twitter Chelsea FC)

A arrancada na metade final incluiu apresentações memoráveis na maratona de jogos de dezembro como os doze gols em três jogos logo antes do Natal, contra Portsmouth, Aston Villa e Wolverhampton. Assim, os Wolves lutaram pela taça até o final terminando quatro pontos atrás do Chelsea, na segunda colocação.

Resultado tranquilo

O título foi uma surpresa para todos. Apesar disso, o resultado do penúltimo jogo da temporada não foi inesperado. Os Blues enfrentaram o Sheffield Wednesday e garantiram a conquista, Isso se deveu em grande parte à campanha memorável nos jogos anteriores.

O jogo foi dominado completamente pelo time da casa. Os jogadores agraciaram seus 51.421 torcedores com três gols. Dois deles foram marcados pelo ponta direita Eric Parsons, aos 23’ e aos 75’. Além dele, o defensor Peter Sillett, aos 70’, de pênalti, também marcou.

Gol de Eric Parsons no jogo que garantiu o título inédito ao Chelsea (Foto: Reprodução Wikipedia)

Os Drake’s Ducklings ou Os Meninos do Drake, em tradução livre, como eram conhecidos os jogadores do Chelsea, entraram em campo com um 3-2-5 formado por Chick Thomson; Peter Sillett, Stan Willemse e Stan Wicks; Ken Armstrong e Derek Saunders; Frank Blunstone, Eric Parsons, Roy Bentley, Johnny McNichol e Seamus O’Connell.

Como resultado, no último jogo da temporada, o elenco recebeu a guarda de honra dos “Busby Babes”, time histórico do Manchester United treinado por Matt Busby. Assim, o capitão e artilheiro do clube na época com 21 gols, Roy Bentley, levantou a taça.

O capitão Roy Bentley se dirigindo ao público após a conquista do primeiro campeonato nacional (Foto: Reprodução Wikipedia)

Repercussão: Escrita da identidade

Antes de tudo, o título inglês de 55 foi um grande momento para o clube. Não só pela conquista em si, mas pelo que proporcionou. Isso aconteceu devido ao sucesso do time charmoso formado por Ted Drake durante sua passagem.

Apesar da glória, os Blues não conseguiram repetir o feito, nem a campanha, nas épocas seguintes. Assim, um dos poucos consolos para o torcedor foi o prolífico artilheiro Jimmy Greaves. O atacante surgiu devido à política de investimento em jovens valores estabelecida por Drake. Greaves marcou 122 gols na liga nacional em quatro temporadas. Logo depois foi negociado com o Milan em junho de 1961. Logo, sem o atacante, o time de Drake decaiu muito. Por conta disso o treinador acabou sacado em favor de Tommy Docherty, treinador-jogador de 33 anos.

Jimmy Greaves é um dos maiores artilheiros da história do clube (Foto: Reprodução site oficial Chelsea)

Fim melancólico de Drake

Apesar do fim relativamente triste, Drake deu certo em sua passagem pelo clube. Seus feitos deram fôlego para um time que estava mal nas últimas temporadas e, até então, não tinha muito destaque nacional.

O campeonato de 54/55 ganho pelos ex-pensioneiros fechou com chave de ouro uma geração de luta. Uma geração de diversos términos e recomeços. Similarmente a capítulos mais recentes da história do Chelsea. Portanto, Drake deixou um legado vencedor, mas também de dificuldades. Dificuldades pelas quais o clube teve que passar para manter-se relevante no cenário inglês. Por mais difícil e memorável que tenha sido, o primeiro título nacional dos Blues conseguiu abrir caminho para outras conquistas. Por exemplo, as conquistas da Copa da Liga em 1965 e a FA Cup de 1970.

Mesmo rebaixados na temporada 61/62, os azuis de Londres tiveram uma equipe recheada de talentos na volta à elite nacional. Dessa forma, o time que retornou da divisão de acesso tinha figuras como Ron Harris e Peter Bonetti. O primeiro detém o recorde de partidas com a camisa azul com 795 aparições. Já o segundo, foi grande ídolo do clube por quase vinte anos. Além deles, Bobby Tambling e Terry Venables também fizeram parte do time. Destes, o primeiro marcou 202 gols com a camisa do clube. O feito permaneceu um recorde até 2013. Em contrapartida o último era o capitão deste elenco. Do mesmo modo, John Hollins, Ken Shellito, Barry Bridges e Bert Murray completaram o esquadrão. Todos os nomes eram frutos das categorias de base.

Peter Bonetti (dir.) e Ron Harris após o título da FA Cup de 1970 (Foto: Getty)

Dias atuais

Atualmente o Chelsea é conhecido, por exemplo, pelo grande trabalho nas categorias de base. Assim, o clube conquistou diversos títulos nacionais e internacionais nas categorias inferiores. Ou seja, pode-se dizer que o movimento iniciado nos anos 1950 tornou-se um dos alicerces do clube. Posteriormente, esse alicerce foi resgatado quando Roman Abramovich comprou o clube em 2003. Assim, o Chelsea se tornou uma das mais efetivas aquisições milionárias de clubes de futebol de todos os tempos.

Os jovens do Chelsea em conquista da FA Cup pela quarta vez consecutiva (Foto: Telegraph)

Portanto, a conquista do campeonato em 1955 foi imprescindível. Assim o clube pôde consolidar a proposta de modernização de Drake. Além disso, sem o investimento nos jovens, por exemplo, provavelmente o time hoje não seria o mesmo.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.