A história do Chelsea em seis jogos: A semifinal da Champions de 08/09

Recentemente o The New York Times publicou em coluna do jornalista Rory Smith uma lista dos seis jogos que moldaram a história do futebol. Não os melhores ou mais memoráveis jogos, mas sim os que ajudam a explicar o futebol como conhecemos hoje.

O Chelsea Brasil resolveu pegar um gancho na temática e produzir uma série, dividida em seis partes, sobre os seis jogos que definem a história do clube. Assim, cada parte será dividida em três atos: Contexto Histórico, O Jogo e Repercussão. Logo, o jogo escolhido será justificado, detalhado e colocado em perspectiva. O primeiro, segundo e terceiro jogos já foram publicados. A terceira parte da série começa agora: A semifinal da Champions de 08/09.

Contexto Histórico: ambiente instável

Após a saída de Mourinho, o Chelsea viveu um período de relativo sucesso com o israelense Avram Grant. A derrota para o Manchester United na primeira final da história do clube azul na Champions League não caiu bem aos olhos da diretoria e dos torcedores. Assim, a falta de troféus resultou na demissão do treinador apenas três dias após a partida.

O israelense conseguiu levar os Blues até a primeira final de Champions da história (Foto: Getty)

Apesar disso, os Blues se tornaram o clube melhor ranqueado na UEFA ao final da temporada. O sistema da instituição levava em conta os resultados dos cinco anos anteriores. Logo, isto era um sinal da consistência do desempenho nos primeiros anos da Era Abramovich.

Dois em um

O escolhido como substituto de Grant no comando foi o brasileiro Luiz Felipe Scolari ou Felipão. Ele havia ganhado a Copa do Mundo com o Brasil em 2002 e terminado a Eurocopa de 2004 com o vice-campeonato. Entretanto, apesar de um bom início, Scolari foi demitido em fevereiro de 2009. Pouco mais da metade da temporada foi necessária para que os dirigentes, torcedores e jogadores questionassem seus métodos e resultados. O olheiro Piet de Visser inclusive criticou publicamente a falta de intensidade nos treinamentos do brasileiro.

A passagem de Felipão pelo Chelsea foi repleta de controvérsias (Foto: givemesport)

Foi o olheiro holandês, por exemplo, que indicou o sucessor de Scolari nos Blues. O técnico da seleção da Rússia, Guus Hiddink, foi contratado como interino pelo restante da temporada. Sob a batuta do holandês, o desempenho do clube melhorou e o time só perdeu mais um jogo até o final da temporada e eventualmente terminou a liga em terceiro lugar.

Para a temporada seguinte foi anunciado Carlo Ancelotti, antigo jogador e treinador do Milan. O italiano começou bem a sua passagem vencendo o Manchester United na Community Shield. A partida, que é disputada entre os vencedores da Premier League e FA Cup da temporada anterior, foi vencida nos pênaltis pelos Blues. Foi a primeira vitória do clube em uma disputa de penalidades desde 1998.

O Jogo: Emoções à flor da pele

A UEFA Champions League de 2008/09 foi a 54ª edição do principal torneio europeu de futebol. A final foi disputada no Estádio Olímpico de Roma no dia 27 de maio de 2009. A partida foi a oitava com sede no país e a quarta no Estádio Olímpico.

Assim, o Chelsea mais uma vez chegava às etapas finais da competição sem uma liderança efetiva no banco. Desde a saída de Mourinho que o clube não tinha sequência com um treinador no comando. A bola da vez era Guus Hiddink, interino que substituiu Scolari após desentendimentos internos envolvendo o brasileiro. A fase com Felipão era tão ruim que o Chelsea perdeu o primeiro jogo em casa desde 2004 após 86 partidas.

O holandês veio com a missão de salvar a temporada do Chelsea (Foto: CNN)

Apesar do título inglês estar fora dos planos quando Hiddink chegou ao clube, o manager teve efeito imediato sobre a moral dos jogadores. Inclusive levantando suspeitas de que o elenco havia derrubado o técnico anterior. O holandês conseguiu 11 vitórias nos últimos 13 jogos da liga inglesa, inclusive uma vitória por 4-1 sobre o Arsenal fora de casa. Assim, ao final da Premier League, os Blues confirmaram o terceiro lugar e a vaga para a Champions League do ano seguinte.

Campanha na Champions

Da mesma forma, na UCL o efeito foi o mesmo. Hiddink levou o clube a sua quinta semifinal da competição contra o Barcelona. Pelo caminho, o Chelsea eliminou a Juventus nas oitavas com uma vitória em casa por 1-0. Drogba assinalou o gol solitário que marcou a primeira vitória dos Blues sobre a Velha Senhora em jogos competitivos. Já no jogo de volta, um empate em 2-2 no estádio Olímpico de Turim.

Posteriormente, nas quartas de final, o adversário era conhecido. O Liverpool viu os azuis saírem com uma vantagem de 3-1 em Anfield, de virada. Assim, mais uma vez o herói da noite sendo Drogba, agora recuperado das lesões da temporada. Michael Essien também teve bom papel anulando Steven Gerrard, principal jogador dos Reds. Já o segundo jogo aconteceu em Stamford Bridge e é lembrado até hoje como um dos mais emocionantes da história do clube. O 4-4 foi cheio de viradas com gols de Lampard, Drogba e Alex para fechar 7-5 no agregado para o Chelsea.

Lampard comemora gol contra o Liverpool nas quartas de final (Foto: Getty)

A semifinal

Primeiramente, o adversário da vez era o Barcelona de Guardiola, que fechou o ano com o primeiro treble da história do campeonato espanhol. O clube acabava de passar por uma reformulação vendendo jogadores como Ronaldinho, para o Milan e Deco, para o próprio Chelsea. O lado ainda contava com jogadores como Thierry Henry, Lionel Messi, Andrés Iniesta, Carles Puyol e Xavi.

O Chelsea por sua vez, vinha em uma crescente de qualidade no futebol com o fôlego novo fornecido pela troca de treinador e pela volta de Drogba e Essien do departamento médico. Os Blues haviam trazido no início da temporada Deco, e José Bosingwa, mas perdido Claude Makelele para o Paris Saint-Germain. Assim, os azuis haviam visto a consistência do meio-campo diminuir na primeira metade da época.

No jogo de ida no Camp Nou o Chelsea conseguiu segurar o empate sem gols em um espetáculo defensivo. Assim, tornou-se o primeiro time na temporada a não sofrer gols na casa do Barcelona. Além disso, apesar da performance sólida na defesa, os Blues ainda quase conseguiram um gol fora de casa com Drogba, que parou em defesa dupla de Victor Valdés.

A aula defensiva continuou

Após isso, o segundo jogo trouxe expectativas para ambos os lados. O Chelsea entrou em campo com Cech, Bosingwa, Alex, Terry e A. Cole, Essien, Ballack e Lampard, Malouda, Drogba e Anelka. Já o Barcelona veio para o gramado com Valdés, Daniel Alves, Piqué, Touré e Abidal, Busquets, Xavi e Keita, Messi, Eto’o e Iniesta. Pelo lado azul-grená, o destaque era para a ausência do capitão Puyol e de Henry.

11 titular do Chelsea para a semifinal (Foto: Getty)

O jogo começou e apesar da dominância do time da casa nos primeiros minutos, quem abriu o placar foram os visitantes. Aos nove minutos um arremate de fora da área de Essien colocou os ingleses à caminho de Roma. Esse gol seria posteriormente leito o gol da temporada do Chelsea. Extremamente ofensivo, o Barcelona contava com Yaya Touré improvisado na zaga e mandava no jogo. Apesar disso, quem levava mais perigo era o Chelsea nos contra-ataques.

O jogo começou a tomar seus contornos dramáticos quando o lado azul pediu pênalti de Daniel Alves em Malouda. Mas o árbitro Tom Ovrebo assinalou falta fora da área. A indignação cresceu quando Abidal segurou Drogba dentro da área e o árbitro nada marcou. O intervalo veio para acalmar os ânimos.

Drogba inconformado no chão após o pedido do segundo pênalti (Foto: PA)

No segundo tempo o Chelsea continuava criando chances partindo da defesa em velocidade. O terceiro pedido de pênalti veio em dividida de Drogba com Touré, mas sem sucesso. Após 65 minutos, entretanto, quem teve motivos para reclamar foram os catalães quando Ovrebo expulsou Abidal por falta em Anelka quando era o último homem. Logo a quarta reclamação veio em lance claro com a mão de Pique acertando a bola.

O golpe

Conforme o jogo ia chegando aos acréscimos e a classificação parecia certa para os londrinos, o impossível aconteceu. Em bola que sobrou na entrada da área, Iniesta acertou um belo arremate no ângulo sem chances para o goleiro Petr Cech. Até hoje o jogo é chamado pelos blaugranas de “Iniestazo”.

Iniesta acabou com as esperanças azuis nos acréscimos do jogo (Foto: Getty)

Assim, o jogo ainda causaria mais indignação ao torcedor e aos jogadores quando, no último lance, após escanteio, um chute de Ballack acerta o braço de Keita. Enlouquecido, o alemão parte para cima do árbitro, que ignora os apelos do meia do Chelsea. Logo após o apito final, Drogba encabeça a lista de jogadores que cercam Ovrebo exigindo explicações. Então, o marfinense recebe cartão amarelo mas continua indignado e grita gesticulando ao vivo para a câmera: “It’s a fucking disgrace”.

Drogba ameaça Ovrebo após o término da partida (Foto: Reuters)

Recentemente Ovrebo revelou em entrevista ao “The Guardian que mesmo anos depois ainda recebia ameaças dos fãs ingleses. Apesar disso, o árbitro aposentado admitiu que cometeu erros na partida e que com o VAR as coisas teriam sido diferentes.

Confira os lances que geraram reclamação:

Repercussão: Problemas fora de campo

Assim, o jogo não repercutiu bem na mídia. Noticiários esportivos de todo o mundo comentaram sobre o que havia acontecido em Stamford Bridge. Então, falhas ou não, o fato é que mais um ano o Chelsea batia na trave em seu sonho de conquistar a Champions League. Desta vez o algoz havia sido o Barcelona e a arbitragem.

Ballack foi um dos jogadores que mais reclamaram com o árbitro na segunda partida contra o Barcelona (Foto: Getty)

Entretanto, o problema dos Blues nessa época ia além das quatro linhas. Desde a saída de Mourinho e intensificado na gestão de Luiz Felipe Scolari, o Chelsea tinha problemas em manter um técnico. Mais ainda, um técnico que tivesse mais autoridade que “Os Senadores”. Apesar da paixão desses atletas ser um grande combustível para o clube dentro de campo, fora dele a figura de um gestor no vestiário fazia falta.

Jogadores autoritários

Assim, esta foi a primeira vez no século que os jogadores do clube estiveram envolvidos para derrubar um treinador. Segundo o próprio Felipão, os atritos começaram com a escolha de peças para a comissão técnica. Cristophe Lollichon, preparador de goleiros, teria ficado “enciumado” pela contratação de Carlos Pracidelli, brasileiro que ocuparia o mesmo cargo.

Então, esse atrito teria causado mais desconforto na equipe por parte do goleiro titular Petr Cech, que foi responsável pela vinda de Lollichon para o clube em 2007. Outro episódio curioso foi a falta de conexão com os principais jogadores do clube, os Senadores. Didier Drogba, por exemplo, quase se viu envolvido em troca com a Internazionale pelo brasileiro Adriano. Ainda, o marfinense inclusive havia perdido a posição de titular para o francês Nicolas Anelka devido a uma contusão, cujo tratamento na França não foi permitido por Scolari. A negociação não aconteceu por desistência de Mourinho, treinador da Inter na época. Mas a tragédia já estava anunciada.

Drogba acabou preterido por Anelka na passagem de Felipão (Foto: Reuters)

Da mesma forma, outro que arrumou problemas com o técnico foi Michael Ballack. Assim, o alemão sentiu-se preterido com a chegada de Deco e constantemente era visto jantando sozinho com Abramovich. Logo, a boa relação entre o russo e o atleta contrastavam com a falta de cortesia dispensada ao luso-brasileiro e com a desaprovação a Felipão.

Mau ambiente para técnicos seguintes

Assim, houve uma grande ruptura no elenco. Se enxergava dois grupos: o grupo dos Senadores, que eram contra Felipão, e o grupo a favor. O último que contava com portugueses e brasileiros do esquadrão. Entretanto, o manager tinha o apoio de alguns jogadores importantes do elenco como Ashley Cole, por exemplo.

Essa ruptura criou um ambiente instável no vestiário para treinadores que viriam a seguir e não caíssem imediatamente nas graças dos medalhões do clube. Posteriormente, nomes como André Villas-Boas, Rafa Benítez, Antonio Conte e o próprio Mourinho perderam o controle de seus atletas e foram sacados prematuramente.

André Villas-Boas era encarado como o sucessor de Mourinho no Chelsea (Foto: givemesport)

Roman Abramovich também tem papel fundamental na constante troca de técnicos que vive o clube desde o início da sua gestão. Extremamente rígido com resultados, o russo costuma mandar embora ao menor sinal de falta de títulos. Entretanto, apesar desse ambiente perigoso para os managers, um treinador foi bem-sucedido. Então, Carlo Ancelotti conseguiu realizar um dos melhores trabalhos da história do clube nos anos seguintes ao desastre contra o Barcelona. Inclusive, a base de seu time era praticamente a mesma que Guus Hiddink possuía na semifinal em 2009.

Assim, apesar da falta de continuidade nos trabalhos, os jogadores que disputaram o empate contra o Barcelona em Stamford Bridge eram um grupo coeso dentro de campo. Entretanto, os seus melhores anos estavam passando. Assim, a chance de se tornarem campeões europeus parecia ficar cada vez mais distante conforme os anos. Isto é, até 2012.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.