Como explicar a queda de rendimento da defesa dos Blues?

A temporada 2017/18 não tem sido do jeito que os torcedores gostariam que fosse. O atual campeão inglês não consegue repetir as grandes atuações da última campanha e vários problemas aparecem no atual time de Antonio Conte, inclusive na defesa, que era um dos maiores trunfos da equipe e do treinador no ano passado.

Recentemente, o time tomou três gols do Bournemouth em pleno Stamford Bridge e na partida seguinte Courtois buscou mais quatro bolas dentro das redes, dessa vez numa derrota para o Watford.

Alguns fatores influenciaram para que houvesse essa queda de rendimento no setor defensivo do Chelsea e serão listados a seguir.

O trio defensivo

Azpilicueta é o único titular absoluto na zaga do Chelsea desde a temporada passada [Crédito da imagem: PA]

Na última temporada, Antonio Conte definiu que seu trio de defesa titular era composto por César Azpilicueta, David Luiz e Gary Cahill. O espanhol jogou todas as 38 partidas da Premier League, e foi um zagueiro excelente no 3-4-3 do Chelsea. O brasileiro retornou aos Blues depois de sua passagem pelo Paris Saint Germain e fez 32 jogos como titular, fazendo a função de zagueiro de sobra com perfeição. Foi tão bem que foi um dos escolhidos a integrar o time da temporada (PFA Team of the Year). Já o capitão Cahill, fazia o lado esquerdo nesse trio de zagueiros, e foi o líder da equipe em 35 partidas naquele campeonato.

Os três garantiram 16 clean sheets e a Premiere League Golden Glove ao goleiro Thibaut Courtois, que com a confiança que tinha na zaga fez um excelente torneio. Um bom goleiro precisa de uma defesa em que possa confiar, e disso o belga não pôde reclamar. Juntos, garantiram que o time sofresse apenas 33 gols nas 38 partidas do campeonato. Na média era menos de um gol sofrido por jogo.

Os reservas fizeram pouquíssimas partidas. Kurt Zouma começou apenas dois jogos como titular (entrando no decorrer de outros seis). Já o eterno ídolo John Terry fazia sua última temporada pelos Blues, e com o peso da idade, o inglês de 36 anos fez seis jogos como titular naquela campanha, sendo que um deles era o último da temporada, no qual ele jogou 26 minutos como forma de homenagem. Por último, Nathan Aké foi chamado de volta do empréstimo junto ao Bournemouth após atuações destacadas, mas fez apenas uma partida como titular na Premiere League.

Em 38 partidas:

César Azpilicueta – 38 jogos

Gary Cahill – 35 jogos

David Luiz – 32 jogos

John Terry – 6 jogos

Kurt Zouma – 2 jogos

Nathan Aké – 1 jogo

Manter o trio defensivo titular em tantas partidas diz muito sobre a equipe. O entrosamento entre um e outro ajuda muito em algumas tomadas de decisões, a sincronia para saírem juntos deixando o atacante adversário em impedimento era resultado de muitos treinos e partidas que o trio fazia. Além do senso de cobertura, um defensor já sabia como cobrir as saídas do outro, David Luiz era bastante elogiado nesse aspecto, sabia fazer a função da sobra quando Azpilicueta ou Cahill saiam para dar um bote.

Na atual temporada, isto não acontece com tanta frequência como na última. O elenco agora conta com Antonio Rüdiger e Andreas Christensen, para os lugares de Aké, Zouma e Terry. Porém, o revezamento no trio defensivo é muito maior. Se antes era possível definir quais eram os três zagueiros titulares do Chelsea, hoje isso não é mais possível. A única constante é Azpilicueta, que fez 26 dos 27 jogos do time na Premier League. Já os outros não são tão repetidos assim nas escalações.

Mesmo que o dinamarquês venha fazendo boas partidas na vaga que era de David Luiz na última temporada, ainda não é unanimidade entre os torcedores, e o afastamento do zagueiro brasileiro causou um impacto negativo no elenco e foi alvo de ataques na imprensa. E nem com um Betboo Bônus as coisas devem mudar para o brasileiro.

Em 27 partidas:

César Azpilicueta – 26 jogos

Gary Cahill – 17 jogos

David Luiz – 9 jogos

Andreas Christensen – 16 jogos

Antonio Rüdiger – 17 jogos

O fator surpresa

O lateral Azpilicueta passou a jogar como zagueiro com Conte [Crédito da imagem: Getty]

O esquema tático que o treinador Antonio Conte implementou no Chelsea foi uma revolução para a Premiere League. Era uma nova maneira de atacar e defender e fez com que os adversários encontrassem um sistema difícil quando enfrentavam o azul de Londres.

Para ilustrar esse fato, os números não deixam mentir. Depois de adotar o 3-4-3, o Chelsea ficou seis partidas seguidas sem sofrer um gol sequer, vencendo todos esses jogos e garantindo clean sheets.

Foi uma tática que passou a ser repetida por outros times, já na mesma temporada. Antes de 2016/17, apenas seis times nas cinco principais ligas italianas usavam um esquema com três defensores – todos eles na Itália – e durante a temporada que Antonio Conte trouxe o 3-4-3 para o Chelsea, alguns times já começaram a adotar três zagueiros, como mostra essa imagem de Valdo Virgo/CB/D.A Press.

O número de times que jogam com 3 zagueiros aumentou de uma temporada para a outra. [Créditos da imagem: Valdo Virgo/CB/D.A Press]

Com mais times utilizando, foram criadas mais soluções para furar esse bloqueio, o Chelsea foi um dos afetados, e o esquema deixou de ser tão efetivo como era.

A saída de Nemanja Matic

Matić foi vendido ao Manchester United [Crédito da imagem: Getty]

O sérvio Nemanja Matić foi uma peça chave no esquema de Conte na temporada vitoriosa de 2016/17. Formava uma dupla muito boa com o francês N’Golo Kanté, e, mesmo que este tenha se destacado mais e garantido o prêmio de melhor jogador do campeonato pela PFA, muito se deve à sua parceria com o camisa 31.

Quando Conte adotou o 3-4-3 com Matić e Kanté como volantes, muito se falava na necessidade de fazer com que Cesc Fàbregas fosse titular da equipe, e o treinador italiano foi cobrado por manter o sérvio no início. Mas, com o tempo, a importância desse atleta foi notada. O suporte defensivo que ele oferecia era necessário para o esquema de jogo do Chelsea, e novamente os números podem comprovar isso.

O sérvio jogou 35 partidas naquele campeonato e o time sofreu 28 gols nesses jogos. Já nas outras 3 partidas, o time sofreu 5 gols. Ou seja, a média de gols sofridos quando Matić estava em campo (0,8 por jogo) era metade de quando ele não estava (1,6 por jogo).

Uma frase de Phill Neville, ex-jogador e atual técnico da Seleção Inglesa de Futebol Feminino descreve bem a importância de Nemanja Matić para o Chelsea: “O que está mal no Chelsea? Uma palavra: Matić. Tão simples quanto isto. Vendê-lo foi um erro muito grande do clube. Quem tomou a decisão de vender Matić tem de ser despedido. Foi uma das piores decisões que vi na Premier League”

É um exagero definir que apenas a saída desse jogador justifica o problema defensivo dos Blues na atual temporada. A proposta do Manchester United foi de 40 milhões de Libras, valor alto para um volante de 29 anos. Foi uma venda interessante para o Chelsea do ponto de vista financeiro e interessante aos Red Devils por ser um pedido do treinador José Mourinho para seu projeto: “Ele representa tudo que queremos em um futebol: lealdade, consistência, ambição, jogo coletivo” – definiu o treinador português.

O eterno ídolo Frank Lampard também foi um dos que criticou a venda do sérvio, e previu que isso traria um resultado negativo ao time: “É muito estranho. Grande parte do jogo do Chelsea o ano passado estava presente na base composta pelo Kante e Matić. Eles permitiam que os alas voassem e davam liberdade ao William, ao Pedro e ao Hazard”, afirmou o ex-jogador do Chelsea.

Ainda falta saber se o Bakayoko consegue ser aquele jogador posicional que Matić era. Penso que isso vai ser uma das frustrações de Antonio Conte, que o fará ir ao mercado contratar mais um meia” – acrescentou.

Lampard não poderia ter sido mais perfeito. O grande problema é que a diretoria do Chelsea errou ao escolher seu substituto. A contratação de Tiémoué Bakayoko não causou o impacto que era esperado, o jogador está alguns degraus abaixo de Nemanja e é um dos responsáveis pela queda do rendimento defensivo. Além dele, o Chelsea também buscou Danny Drinkwater, e recentemente Ross Barkley, como Frank havia adiantado que aconteceria. Nenhum deles consegue formar a dupla ideal com Kanté e com isso o time perde em desempenho defensivo.

A defesa do Chelsea precisa retomar as boas atuações da última temporada [Créditos da imagem: Getty]

O time caiu de rendimento desde a última temporada no geral, por vários motivos. Pode-se citar um calendário mais cheio, uma vez que agora tem a disputa pela Champions League, além disso o elenco é enxuto e Antonio Conte teve alguns problemas para administrar esse elenco.

Mas a reconstrução de um time vitorioso e campeão do Chelsea, passa pela montagem de uma defesa sólida e confiante, mais um problema que o treinador deve resolver, e a torcida espera que seja logo. O jogo contra o Barcelona pela Champions League vem aí e pode ser um divisor de águas na temporada.

Victor Rosa

Curso jornalismo e carrego o sonho de trabalhar acompanhando futebol todos os dias da minha vida. #GoBlues #KTBFFH