Terceiro tempo: Três times, três degraus

Segunda-feira, você acorda atrasado, escova o dente correndo e voa para o trabalho. Chegando lá, dá um “bom dia” esbaforido ao porteiro e aperta o botão para chamar o elevador. Além dele estar longe do térreo, ele ainda vai parando em vários andares para te deixar ainda mais atrasado. Nessa espera pelo elevador, chegam duas pessoas: o estagiário e o seu chefe. Você cumprimenta os dois da mesma forma respeitosa.

Dentro do elevador, o estagiário aperta o 3º, você o 6º e seu chefe, o 8º. Em uma empresa, essa diferença é normal no dia a dia e dificilmente consegue ser desfeita. No futebol, muitas vezes, também.

A vitória tranquila contra o Slavia Praga, na Liga Europa e a derrota contra o Liverpool, na Premier League deixaram isso bem evidente. O Chelsea está em um estágio de transição. Mas calma torcedor. O elevador está subindo e nós vamos chegar no topo.

Primeiro tempo

Após a grande vitória contra o West Ham pela Premier League, o Chelsea viajou com grande otimismo e confiança para a República Tcheca, para o duelo contra o Slavia Praga pelas quartas de final da Liga Europa. Como aconteceu nos jogos anteriores da competição, o técnico Maurizio Sarri colocou em campo uma equipe alternativa, dando mais espaço para reservas como Christensen, Marcos Alonso, Kovacic, Barkley, Pedro e Giroud.

Mesmo sem ser um time de grande expressão, na fase anterior, o Slavia Praga havia eliminado o Sevilla, maior vencedor da história da Liga Europa. Por isso, todo cuidado era pouco. Dentro de campo o que se viu foi um jogo discreto, sem muitas emoções, principalmente no primeiro tempo. O ataque formado por Willian, Pedro e Giroud, artilheiro da edição atual da Liga Europa com nove gols.

Espanhol voltou a ser decisivo e fez o gol da vitória (Foto: Chelsea FC)

Já etapa complementar, Sarri precisou mexer no time e o Chelsea melhorou. Principalmente após as entradas de Hazard e Loftus-Cheek, os Blues cresceram, dominaram os tchecos. O gol da vitória veio após uma assistência precisa de Willian e uma cabeçada certeira de Marcos Alonso. O espanhol que fez tantos gols decisivos pelos azuis de Londres nas duas primeiras temporadas com a camisa do Chelsea, voltou a brilhar longe de Stamford Bridge.

A vitória por 1 a 0 foi importante. Após o resultado, Maurizio Sarri comemorou e afirmou que o time tinha aprendido a sofrer.

“Neste momento somos capazes de sofrer, e no passado não fomos capazes de sofrer nos momentos difíceis de um jogo. No passado, quando estávamos em apuros, imediatamente concedíamos um gol. Agora somos capazes de ficar em apuros para lutar e sofrer sem conceder nada.”

É Sarri, mas o que viria dias depois seria completamente o oposto à sua declaração. Quando você fez essa afirmação, estávamos lutando contra um time de nível inferior. Algo semelhante ao nosso estagiário no exemplo da empresa citado acima. Será que a equipe conseguiria o meu comportamento frente a um time de ponta?

Após a partida, italiano elogiou a evolução da equipe. (Foto: Chelsea FC)

Segundo tempo

De volta a Inglaterra, o Chelsea iniciou a sua preparação para o duelo contra o Liverpool pela Premier League. A partida seria importantíssima para as duas equipes. Os Reds brigam para conquistar o primeiro título da Premier League. Já o Chelsea precisava dos três pontos para seguir na zona de classificação para próxima Champions League. Por ser um adversário especial, o técnico Maurizio Sarri montou uma tática especial. Mesmo com Giroud e Higuain disponíveis no elenco, o italiano preferiu pôr em campo um ataque mais leve, sem um homem de referência.

“Conhecemos bem os riscos deste jogo, mas também sabemos que, quando conseguimos jogar a 100% do nosso potencial, podemos ganhar pontos em qualquer lugar. Estamos em muito boa condição física e mental agora. Neste momento estamos lutando pelos quatro primeiros, então precisamos de pontos. Sabemos que será difícil ganhar pontos em Liverpool, mas temos que tentar de todas as maneiras.” – ponderou Sarri.

Em campo, o que se viu foi um Liverpool dominante. Os dois precisavam da vitória, mas o Liverpool conseguia colocar em campo a diferença de posições na tabela. Os Reds estão brigando pela liderança e próximos de chegar pelo segundo ano consecutivo às semifinais da Champions League. Já o Chelsea está pelo segundo ano seguido brigando apenas para chegar as competições europeias.

Loftus-Cheek fez uma das piores partidas com a camisa dos Blues nessa temporada (Foto: Chelsea FC)

O time treinador por Jürgen Kloop se impôs sobre os Blues, de maneira exemplar, desde os primeiros minutos. Se nós temos o monstrinho Kanté, temos de reconhecer que Keita não fica atrás. O meio-campista de Guiné é incansável e anulou as ações ofensivas do Chelsea. O camisa 8 do Liverpool ficou longe de derrapar como uns e outros. Ele foi exemplar na partida desse domingo e boa parte da vitória precisa ser colocada na conta de Keita.

Mesmo com todo o domínio territorial e de posse de bola, a primeira etapa em Anfield terminou em 0 a 0. Aqui, abro um espaço para citar a linda homenagem prestada pelos ingleses as vítimas da tragédia de Hillborough, em 1989, durante o jogo entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra. Na ocasião, 96 pessoas e mais de setecentos ficaram feridos por conta da superlotação no estádio localizado em Sheffield.

Na volta para o segundo tempo, o jogo mudou. O Liverpool voltou ainda mais aceso e o Chelsea continuou na mesma toada. Este foi o momento em que precisamos entender. O Liverpool hoje, junto ao Manchester City, está em um nível acima de todos os outros times da Inglaterra. É inegável. O gol de Mané fez com que a torcida criticasse Jorginho e Emerson pela ‘marcação frouxa’. No entanto, essa reação dos dois jogadores refletem todo o Chelsea. Estamos um ou dois níveis abaixo. É preciso aceitar.

Até porque, logo após Mané abrir o placar, contradizemos as palavras de Sarri, de que o time havia aprendido a sofrer e que mentalmente estávamos bem. Não, ainda não estamos. O golaço de Salah momentos depois evidencia isso. A equipe se perde após sair perdendo no placar.

Quem também sentiu o gol foi Hazard. Nosso melhor jogador teve duas chances seguidas de descontar o placar e não conseguiu. Na primeira, tirou demais de Alisson e acertou a trave. Já na segunda, pegou mal na bola e o goleiro brasileiro espalmou. As duas chances desperdiçadas esfriaram o Chelsea e o Liverpool cozinhou a gente o restante da peleja. A derrota mantém os Reds na luta pela taça e deixa a gente estacionado em 4º, podendo ser ultrapassado por Manchester United e Arsenal.

Camisa 10 teve as melhores chances de gol, mas desperdiçou todas (Foto: Chelsea FC)

Tempo extra

Se há alguns meses o horizonte era nebuloso, hoje é promissor. Se antes, o elevador no qual estávamos parecia emperrado, hoje ele está funcionando e subindo, mesmo que de forma gradual.

A derrota foi um resultado ruim mediante a tabela de classificação da Premier League. Poderíamos subir para a 3ª colocação e nos distanciar dos demais. Mas não. Continuamos na mesma e ainda podemos cair. Tudo bem. Agora, só enfrentaremos adversários que estão em degraus igual ou abaixo de nós no campeonato inglês. Já na Liga Europa, o horizonte é ainda melhor. Estamos com um pé na semifinal.

O elevador está subindo e nós ainda vamos chegar ao topo.

Category: Conteúdos Especiais

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Article by: Willian Guerra