Matic já não era fundamental, mas fará falta

Fundamental na conquista do título da Premier League de 2014/15 pelo Chelsea, o volante sérvio Nemanja Matic foi um dos atletas mais criticados quando veio a tempestade que varreu o clube londrino das posições mais altas da tabela e do futebol continental no ano seguinte. Desde então, sobretudo após a saída de José Mourinho e chegada de Antonio Conte, recuperou-se. Não voltou a ter a influência de outrora, mas sua importância não pode ser subvalorizada.

Das 47 partidas em que os Blues entraram em campo em 2016/17, o meio-campista esteve presente em 40 e foi titular de 35 delas. Participou de 3.147 minutos de um total de 4.260, ou seja de aproximadamente 74% de todo o tempo que o Chelsea atuou na vitoriosa campanha passada. Foi muito mais vital, por exemplo, do que o talentoso espanhol Cesc Fàbregas, que esteve em campo em apenas 1.952 minutos, ou 46% da temporada.

Parceiro habitual do incansável N’Golo Kanté, foi um dos responsáveis pelo funcionamento da terceira melhor defesa da competição, tanto pelo desempenho individual, quando pela solidez que ajudou a fundar, possibilitando a utilização dos ofensivos Marcos Alonso e Victor Moses pelas laterais (e até mesmo de Pedro, em algumas ocasiões). No entanto, Matic nunca foi um jogador de estilo refinado, nem na condução da bola e nem nos passes, o que, muitas vezes, levou à conclusão, equivocada, de que não se tratava de bom jogador, ou alguém limitado ao “feijão com arroz”.

Nunca se pôde, ademais, duvidar de sua disposição, entrega e consistência. Foi sempre um jogador de caráter e que nunca fugiu às responsabilidades. Caiu e soube se levantar, sempre com postura profissional. Sabia que em alguns jogos o time precisaria mais do refino de Fàbregas do que de sua luta e jamais reclamou. Também deve ser lembrado por alguns belos gols que anotou.

Mas foi Mourinho quem o levou a Stamford Bridge e é o Special One quem requisitou sua chegada à direção do Manchester United.

(Foto: Getty Images)

E Matic enxergou a possibilidade de ser parte importante de um time que tenta se reerguer e onde dividirá meia-cancha com bons jogadores, indiscutivelmente. Percebeu que poderia voltar a ser fundamental noutra praça. E não há nada de errado com isso. Matic prestou ótimos serviços aos Blues e saiu deixando no caixa londrino quase 20 milhões de euros a mais do que havia custado aos mesmos cofres. Sem problematizar a questão; deixando a porta aberta.

Podemos concordar que Matic já não era fundamental, sobretudo após a chegada de Kanté. O problema reside justamente no fato de que, embora já não fosse tão estrutural, ainda era importante. Os números já apontados não deixam margem para dúvidas. No último ano, o Chelsea possuía dois volantes (além do jovem Nathaniel Chalobah) e, hoje, conta ainda com dois. Entretanto, um deles é o recém-chegado Tiemoué Bakayoko, de apenas 22 anos e que vem de um campeonato menos competitivo do que a Premier League. É claro: foi muito bem na UEFA Champions League, mas, ainda assim, pode precisar de tempo para se adaptar.

Não bastasse isso, se já não eram fartos os recursos do Chelsea em uma temporada afastado do futebol continental, agora, momento em que os Blues retornam à UCL, seria fundamental a reforma parcial do elenco, não no sentido de retirar tijolos velhos e colocar novos no lugar, mas de dar profundidade ao grupo, acrescentando tijolos a um muro que será mais agredido durante o ano e precisará de mais força.

E é por esse motivo que Matic poderá fazer muita falta.

O clube londrino, pode, obviamente, contratar mais. No entanto, novos negócios também podem incorrer na questão já citada, concernente à adaptação (é claro, também, que Conte pode tirar algum coelho da cartola, como foi a incorporação de Cesar Azpilicueta à zaga, mas, convenhamos, projetar a temporada pensando nisso é, no mínimo, temerário).

Avaliam-se as chegadas de jogadores como Renato Sanches, Danny Drinkwater, Ross Barkley (que não é volante) e do polivalente Ox-Chamberlain, o que é bom; revela que o clube enxerga, de fato, a necessidade de se encorpar o elenco. Até segunda ordem, contudo, percebe-se um elenco carente de reforços e um contexto em que Matic fará falta.

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Leitores, como falei em minha despedida no ano passado, nunca abandonaria a família Chelsea Brasil, que me chamou de volta. Aqui estou, dando pitacos de 15 em 15 dias. Espero que gostem e que debates frutíferos e saudáveis nasçam daqui.

 

As palavras neste texto condizem com a opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea.

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Article by: Wladimir de Castro Rodrigues Dias

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. A preferência é o futebol bretão, mas me interesso pelo esférico rolado em qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também no O Futebólogo, no Doentes por Futebol e na Corner.