Lupa Tática: Azpilicueta e a transformação dos três zagueiros

Como o Chelsea se comporta tendo o espanhol atuando pelo lado direito da trinca defensiva

Neste sábado (25), o Chelsea Brasil estreia uma nova coluna: A Lupa Tática. O conteúdo vai analisar semanalmente algum aspecto tático relevante no time dos Blues. Nesta semana veremos como a utilização de Cesar Azpilicueta na linha dos três zagueiros pode ser uma estratégia poderosa. Confira:

Nos dois últimos jogos, Frank Lampard adotou uma formação com três zagueiros. Apesar da formação variar entre o 3-4-3 e o 3-4-2-1, um jogador se destacou como trunfo defensivo e ofensivo nas partidas. O capitão Azpilicueta não só foi importante em seu “novo” papel defensivo, mas também na criação das jogadas.

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Gol de Giroud só foi possível graças à assistência de Azpilicueta (Foto: Getty)

Entretanto, esta não é uma função desconhecida para o espanhol. Longe disso, talvez a sua versão mais aclamada tenha sido pelo lado direito da trinca defensiva de Antonio Conte durante sua passagem. Assim, Lampard consegue reproduzir o melhor do camisa 28 agora em um time que preza pela posse de bola.

Posicionamento ofensivo

Azpilicueta é o catalisador das ações ofensivas nesse esquema. Com a posse de bola, tem liberdade para se incorporar às linhas de meio e de ataque. Isto faz com que ele se transforme em arma tática, já que o avanço confunde a marcação adversária e frequentemente dá espaço para as investidas laterais, que podem ser no formato de cruzamentos, triangulações ou superioridade numérica. Outra vantagem da sua movimentação é a sobrecarga que causa nos setores por onde passa, sempre dando proteção ou proporcionando opção de passe.

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Azpilicueta avançando desmarcado contra o United (Foto: Reprodução Football Made Simple)

Essa “subida” também é importante para quebrar as linhas mais altas de marcação. Desta forma, dá opções para os zagueiros saírem tocando sem complicação. Além disso, ele raramente desperdiça um passe curto ou perde a posse sobre pressão. Isso ajuda a manter a fluidez, principalmente em um lado que preza pela posse de bola.

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A função do jogador permite facilitar a saída de bola pela direita (Foto: Reprodução sports.ru)

Flexibilidade em campo

O papel do atleta nessa função não daria certo se o escolhido não fosse versátil o suficiente. Por isso, a capacidade do espanhol de atuar em diversas posições é fundamental para a estratégia. Desde que chegou ao clube, “Azpi” já atuou em sete posições diferentes. Contudo, das laterais às alas, passando por zaga e meio campo pela direita, a consistência do atleta impressiona.

Além disso, a sua forma física permite que jogue na mesma intensidade, em qualquer posição, durante o jogo todo, ao longo da época completa. O jogador foi um dos poucos na história da Premier League a atuar em todos os minutos por um time campeão – com Conte em 2016/17.

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Azpilicueta é o líder da defesa [Foto: PA]

Mas talvez o ponto mais importante de sua flexibilidade seja a capacidade de se adaptar a diferentes cenários dentro da partida. No próprio jogo contra o Manchester United pela semifinal da FA Cup houve dois momentos distintos do capitão. O primeiro momento foi quando teve espaço para avançar e sobrecarregar o ataque. Já o segundo veio quando os adversários pressionavam para tentar diminuir a desvantagem e ele guardou mais a posição. Ou seja, méritos para a sua leitura de jogo.

Liderança tática sobre os companheiros

Outro aspecto importante do seu posicionamento nesse esquema é o apoio oferecido ao ala pela direita. Durante a passagem de Antonio Conte, Victor Moses creditou ao espanhol a sua boa forma. Segundo ele, Azpilicueta estava sempre corrigindo seu posicionamento de forma a melhorar seu jogo defensivamente. Ou seja, o suporte não é somente técnico ou tático, mas na experiência.

Isso pode ser um fator fundamental para o desenvolvimento de Reece James, que ainda tem dificuldades na defesa. Jogando lado a lado com o jovem, o capitão pode dar o exemplo na prática. Todos os momentos que necessitam de inteligência defensiva podem ser aprendidos e o capitão já demonstrou ser um ótimo professor ao liderar pelo exemplo. Apesar disso, o Chelsea ainda vem lutando contra seus próprios problemas no sistema defensivo.

O eterno subestimado

Quando chegou em 2012 vindo do Olympique de Marselha, foi subestimado pela primeira vez. Na época, o jogador veio como opção para compor elenco e disputar posição com Branislav Ivanovic. De origem basca, o atleta tem um longo histórico de participações nas seleções de base da Espanha. Todavia, até hoje não é unanimidade no seu país.

Apesar de ser destro, foi pela esquerda que teve as primeiras oportunidades no clube, barrando inclusive jogadores como Ashley Cole e Filipe Luis ao longo das temporadas. Seu papel defensivo era tão importante no time de José Mourinho que o português afirmou categoricamente que “um time com 11 Azpilicuetas venceria a Champions League”.

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Azpilicueta na zaga é um dos principais legados de Conte (Foto; Getty)

Apesar de já ser um dos destaques do time, com a chegada de Conte foi apresentada ao mundo a sua versão mais impressionante até então. Muito do que se vê hoje no espanhol quando atua na zaga foi fruto da parceria com o italiano. A confiança do manager era tanta que ele afirmou que o polivalente profissional era um dos melhores do mundo como zagueiro. “Ele joga bem com e sem a bola, é muito completo”, avaliou o ex-técnico dos Blues.

Finalmente pela direita

Com Maurizio Sarri, teve a oportunidade de voltar para sua posição de origem. Além disso, conquistou a braçadeira de capitão pela influência que tinha sobre os companheiros. Em temporada regular de todo o time, foi campeão da Europa League pela segunda vez com os azuis. Portanto, levantou a sua primeira taça como líder em campo.

Com Lampard essa liderança foi fundamental para a sua permanência no time mesmo após um começo abaixo do habitual na parte física. Entretanto, enganou-se quem pensou esse era o início do declínio de Dave – como é carinhosamente chamado pela torcida. O atleta não só recuperou a forma física como se tornou um dos principais jogadores desta temporada, defensiva e ofensivamente.

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Mesmo na zaga, Azpilicueta ultrapassou para assistir o gol de Giroud (Foto: @nomifooty)

Para ser titular sob o comando do inglês, ele teve que desenvolver o seu dinamismo, independente da posição que ocupava. Assim, a sua inteligência para ocupar os espaços veio à tona novamente. Os avanços ofensivos que, na maior parte da carreira, iam até a intermediária adversária, agora ultrapassavam os pontas para chegar até a linha de fundo.

Porém, como com Conte, a versão mais impressionante do lateral é atuando como defensor. Apesar disso, o espanhol descobriu mais uma faceta em seu jogo, que o torna ainda mais perigoso aos adversários quando atua na zaga: suas ultrapassagens aliam-se às qualidades já apresentadas quando presente na trinca defensiva. Ou seja, Azpilicueta é hoje uma das principais armas táticas da equipe de Lampard, mesmo que ainda subestimado.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.