Chelsea é hoje o time mais odiado da Inglaterra, e com muitos méritos

O futebol é acima de tudo um esporte passional. Ouso dizer que é o mais passional dos esportes, o mais capaz de despertar sentimentos em seus aficionados. Muito se vê falar sobre o amor no mundo da bola, principalmente num país apaixonado como o Brasil: casos de amor ao time, a jogadores, a estádios e por aí vai. E isso tudo é muito bonito, mas esse texto tem o objetivo de falar sobre um sentimento muito menos nobre: o ódio.

O ódio no futebol é um sentimento interessante de se analisar. Como já dizia o escritor japonês Masashi Kishimoto, a partir do momento que se conhece o amor, também se corre o risco de conhecer o ódio. E é partindo dessa frase que começo a analisar o ódio ferrenho que os fãs de futebol nutrem pelo clube inglês de nome Chelsea.

Com a glória, vem o ódio

Pesquisas recentes realizadas pelo jornal britânico Mirror mostram que o Chelsea é hoje o clube mais odiado da Inglaterra. Por muito tempo não compreendi muito bem como o Chelsea podia ser tão odiado. Foi um clube que me conquistou logo de cara, bem cedo na infância. A mim os azuis de Londres eram mais simpáticos e legais de se ver jogar do que qualquer outra equipe na Inglaterra, na Europa, no mundo!

Entretanto, quando paramos para pensar, fica bem nítido que tanto ódio não é gratuito. Mas, afinal, como um time consegue se tornar tão detestável? Talvez o mais óbvio seja pensar no fato do clube ter mostrado um forte crescimento no cenário inglês e europeu desde a década de 1990, tornando-se uma enorme dor de cabeça para os demais clubes. Mas, para entender como o clube azul conquistou a Liga dos Campeões da Repugnância, é necessário ir além e voltar um pouco no tempo.

Desde seus primórdios, já era possível perceber que o Chelsea tinha um bom potencial para ser impopular. Em seu início, era um time de almofadinhas ricos da região nobre de Londres, que olhava de cima para baixo seus rivais (que hoje passam longe de fazer frente) Fulham e Queens Park Rangers.

A localização até hoje não ajuda: antes de pensarem no bairro de Chelsea como lar dos pensioners (aposentados do Exército Britânico, que por muito tempo foram símbolo do clube) e dono de uma excelente reputação com as artes, a maioria das outras pessoas só consegue enxergar burgueses safados. E com essa fama aristocrata da vizinhança, o bairro e o clube de Chelsea realmente acabam se tornando menos atraentes para o público em geral.  

Chelsea: bairro de artes, de poetas, de muito dinheiro e de um clube

Além disso, sempre houve a mitologia (quase uma cultura) do Chelsea ser um clube de hooligans – hoje mal aparecem, mas durante um bom período, o grupo hooligan Chelsea Headhunters pôde ser considerado um dos mais notáveis do planeta (embora tanta notoriedade soe como um título nada honroso, haja vista as inúmeras políticas que buscam promover a paz no meio futebolístico).

E claro, também tem o fator de ser um clube que nem sempre se importa muito com suas raízes inglesas – foi o primeiro clube inglês a mandar a campo uma escalação totalmente estrangeira, contra o Southampton, no dia 26 de dezembro de 1999. Pode não contar muito para fãs estrangeiros, mas os ingleses acreditam que isso acaba tirando um pouco da magia do esporte deles, o que caracterizaria os atletas blues como meros jogadores ligados pelo vínculo do contrato. Embora isso seja uma análise muitíssimo rasa, já que tivemos inúmeros estrangeiros que honraram a camisa até a última gota de suor.

Ademais, a globalização no meio do esporte é um processo imparável e todos os demais clubes já se renderam num processo natural (até porque encontrar grandes talentos ingleses têm sido uma tarefa difícil).

Mas apesar de todos esses fatores, no início do século, o clube azul de Londres ainda estava longe de ultrapassar o Manchester United, antigo detentor do título de clube mais odiado da Inglaterra. E foi então que chegou o homem da grana: Roman Abramovich. O que ele fez não é mais mistério para ninguém, investiu grandes quantias de dinheiro num clube que já vinha em franca ascensão há alguns anos, mas que precisava justamente desse investimento para figurar entre os principais da Europa.

Vale lembrar que Abramovich não injetou só dinheiro no Chelsea, mas sim dinheiro russo. Pode parecer bobagem, mas receber dinheiro de um magnata que vem do país que o mundo ocidental tenta demonizar há praticamente um século contribui para a narrativa de “clube malvado”. E, foi com o investimento desse russo que o Chelsea passou não só a ameaçar os clubes já bem estabelecidos, mas a tirar o protagonismo deles. É, incomoda bastante mesmo.

Roman Abramovich ajudou a construir essa história de amor e ódio (Foto: The Sun)

No entanto, não é só com dinheiro e compra de jogadores que se garante o sucesso de um clube. Faltava alguém para comandar isso tudo, e a diretoria do clube londrino não poderia ter escolhido um nome melhor que José Mourinho. Um técnico ainda iniciante (o que contribuiu para que fosse associado à imagem do clube), porém de classe mundial, um mestre das táticas, da motivação, e é claro, uma figura. Suas entrevistas mais ríspidas, postura “arrogante” e jeito durão de se portar combinaram muito bem com o coração forte do clube, e logo caiu nas graças da torcida. Como se não bastasse, conquistou (quase) tudo que teve oportunidade. Tinha como irritar mais os rivais? Claro que tinha!

Apenas duas derrotas em aproximadamente 20 partidas contra ninguém menos que Sir Alex Ferguson, irritava a torcida do Liverpool no Anfield, destruía Arsene Wenger em entrevistas, comprava brigas com o francês contra o qual sempre se dava bem, permaneceu invicto contra o maior rival Arsenal por muito tempo, se envolvia em polêmicas… É, Mourinho irritou muita gente enquanto esteve em Stamford Bridge.

José foi persona non grata de todos os rivais enquanto esteve em Stamford Bridge

Mourinho foi importante não só enquanto esteve no Chelsea, mas ajudou a criar uma identidade de jogo para o clube. Logicamente, essa identidade é a mais odiada possível: a estratégia ultra defensiva. Acusado pelos rivais de simplesmente “estacionar o ônibus” na frente do gol ou de jogar um futebol “chato” do Século XIX, as táticas defensivas do Chelsea se mostraram (e ainda se mostram) muito eficazes em muitos momentos. Gostem ou não, eficiência nos resultados é sempre mais importante que táticas chiques.

Foi assim que o Chelsea começou a empilhar taças no Século XXI. Mas não só isso, os Blues sempre gostaram de ser um pouco mais sádicos, e assim construíram sua trajetória – destruindo muitos sonhos no caminho. Barcelona de Ronaldinho (um dos times mais simpáticos e amados da história) na UEFA Champions League? Destruído. Gol fantasma do Liverpool? Devidamente vingado. A tão demorada Premier League do Tottenham? Destruímos mesmo em nosso pior momento. A tão sonhada Premier League de Steven Gerrard? Hahaha. E quando o Arsenal estava numa imensa seca de títulos, o Chelsea deu um jeito de jogar água no chopp dos gunners: Didier Drogba, jogando pelo Galatasaray, tirou deles até mesmo a taça do torneio amistoso da Emirates Cup, marcando dois gols contra sua vítima favorita. É, tudo isso deve ter sido difícil de engolir.

Cruel contra rivais (Foto: Daily Mail)

Nessa trajetória de glórias para o Chelsea, o clube parecia ser um ímã de fatores impopulares. Jogadores bad boys como Diego Costa tinham sucesso, jogadores amados pelo público em geral como Andriy Shevchenko se davam mal, jogadores com história em outros clubes como Fernando Torres passavam a carregar um estigma de traidor…

Sem contar as inúmeras polêmicas. A mais famosa delas protagonizada pelo capitão John Terry, acusado de ter um caso com a ex-mulher do companheiro de equipe Wayne Bridge (o goleiro Thibaut Courtois viveu algo semelhante: também teve um caso com a mulher do companheiro de seleção belga e ex-blue Kevin de Bruyne). Infelizmente, nem todas essas polêmicas podem passar despercebidas ou sequer virar piada. Em 2015, fãs do Chelsea viralizaram na internet num infeliz caso de racismo no metrô de Paris, em época de duelo contra o Paris Saint-Germain na UEFA Champions League. Os “torcedores” foram fortemente condenados pelo clube, chegando a ser proibidos de entrar nos jogos do clube, mas a triste mancha acabou ficando.

As pesquisas de opinião feitas na Grã-Bretanha não deixam dúvidas: Chelsea é hoje o clube mais odiado dos ingleses, quebrando a hegemonia do Manchester United. O sentimento negativo é tão forte que o lado azul de Londres quebrou a histórica rivalidade do norte de Londres, sendo mais odiado pelos torcedores do Arsenal do que o próprio Tottenham.

E apesar dos inúmeros fatores (nem todos eles sejam motivo de orgulho), isso é uma grande honra para o Chelsea. Conta muito ser tão lembrado pelos rivais como motivo da tristeza deles, principalmente quando o motivo é o fator dentro de campo, quando veem o Chelsea conquistando mais e mais taças. Ser reconhecido como uma grande pedra no sapato de grandes clubes e grandes jogadores desde que passou a ter condições de competir (e muitas vezes, o fez mesmo sem ter) mostra quão grande é o espírito vencedor deste clube. Uma cultura vencedora, um coração forte e muita raça para passar por cima de todas as dificuldades devem ser motivo de forte orgulho de sua torcida e de todos que fazem parte dessa história. Torcedor do Chelsea, pode bater no peito: seu time é o mais odiado da Inglaterra!

O ódio pouco importa quando time e torcida são um só coração

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Article by: Leonardo Freitas