A história do Chelsea em seis jogos: A primeira final de Champions

Recentemente o The New York Times publicou em coluna do jornalista Rory Smith uma lista dos seis jogos que moldaram a história do futebol. Não os melhores ou mais memoráveis jogos, mas sim os que ajudam a explicar o futebol como conhecemos hoje.

O Chelsea Brasil resolveu pegar um gancho na temática e produzir uma série, dividida em seis partes, sobre os seis jogos que definem a história do clube. Assim, cada parte será dividida em três atos: Contexto Histórico, O Jogo e Repercussão. Logo, o jogo escolhido será justificado, detalhado e colocado em perspectiva. O primeiro e o segundo jogos já foram publicados. A terceira parte da série começa agora: A primeira final de UEFA Champions League, em 2008.

Contexto histórico: Anos de glória

Após a compra do clube pelo bilionário russo Roman Abramovich, o Chelsea viveu seus anos de glória. Isso se deveu muito ao técnico português José Mourinho, trazido por Abramovich para substituir o italiano Claudio Ranieri.

Mourinho pegou a batuta de Ranieri em 2004 (Foto: Getty)

Apesar disso, os anos de Ranieri no Chelsea não foram ruins. No seu último ano alcançou a semifinal da Champions League e o segundo lugar na liga. O problema do dono do clube com o treinador foi a falta de títulos. Além disso, especula-se que Ranieri possa ter sido sacado por conta de mudanças táticas incomuns. Por exemplo, na derrota na semifinal da UCL, o treinador improvisou Scott Parker na lateral direita e Glen Johnson na zaga. Apesar disso, saiu como herói do clube.

O melhor treinador dos Blues

A carreira de Mourinho como meiocampista esteve longe de ser bem-sucedida. Porém, brilhou como técnico por onde passou. Aprendiz e auxiliar técnico de Louis Van Gaal no Barcelona, o português começou a carreira como manager em 2000 no Benfica. Posteriormente viria a se transferir para o União de Leiria e chegar ao Porto em 2002.

Mourinho foi aprendiz de Van Gaal no Barcelona (Foto: AFP)

Antes de chegar aos Blues, Mourinho já tinha um currículo impressionante. Dois títulos nacionais, Copa de Portugal, Copa da UEFA e Champions League pelo Porto, o credenciavam aos olhos do bilionário russo.

Juntamente com Mourinho, Abramovich também trouxe o lendário olheiro Piet de Visser, responsável pelas idas de Ronaldo e Romário ao PSV, por exemplo. No Chelsea foi responsável desde então por contratações como John Obi Mikel, Salomon Kalou. Mas o principal trabalho do holandês foi em estabelecer o método de busca por jovens estrelas ao redor do mundo. O método está presente até hoje.

Três das contratações de Mourinho para o Chelsea em sua primeira temporada (Foto: Getty)

A vinda de Mourinho para o Chelsea em 2004 trouxe também ídolos como os compatriotas Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e Tiago. Além disso, preferidos do português como Didier Drogba, Arjen Robben, Petr Cech e Mateja Kezman foram “presenteados” por Abramovich.

A eficiência de Mourinho

Com a defesa como a sua principal característica, o Special One – como era chamado o treinador – montou um dos times mais eficientes da história. Assim, o clube terminou a temporada com o título e recorde de 29 vitórias e 95 pontos em 38 jogos. A defesa formada por Cech, Ferreira, Carvalho, John Terry e William Gallas é até hoje a que menos sofreu gols na história da Premier League. Ao todo concedeu apenas 15 gols e teve 25 clean sheets. A cereja do bolo havia sido o já conquistado título da Copa da Liga em cima do Liverpool.

Ricardo Carvalho e John Terry formaram uma das mais seguras duplas de zaga da história (Foto: Getty)

Posteriormente, na temporada seguinte, o título foi mantido de forma folgada. Até determinado ponto, os azuis abriram uma vantagem de 18 pontos para o segundo colocado Manchester United. Este ainda viu o rival assegurar o campeonato com uma derrota de 3-0 em Stamford Bridge. Assim, o Chelsea se tornou o primeiro clube londrino a vencer dois títulos da liga desde os anos 1930. Além disso, foi somente o quinto inglês a realizar o feito desde a segunda guerra.

A terceira e última temporada do Special One na primeira passagem tinha tudo para ser espetacular. O clube estava competindo acirradamente por inéditos quatro títulos até abril de 2007. Assim, as duas copas vieram para Stamford Bridge com vitórias sobre o Arsenal na Copa da Liga e sobre o Manchester United na FA Cup. Respectivamente, o último jogo do Millenium Stadium e o primeiro do novo Wembley. Na liga doméstica perdeu para os Red Devils de Cristiano Ronaldo. Logo após Mourinho saiu do clube em “mútuo acordo”.

O Jogo: Derrota amarga

Após isso, os dois anos seguintes à saída de Mourinho foram preenchidos por três treinadores. Primeiramente veio o israelense Avram Grant. Depois vieram Luis Felipe Scolari e Guus Hidink. Em sua temporada, Grant lidou com diversos problemas de ausência de jogadores. Apesar de pleitear três das quatro competições possíveis para os ingleses, fracassou em todas. O título inglês escapou, por exemplo, no último jogo da temporada, quando os Blues empataram com o Bolton.

Avram Grant (dir.) e Rafa Benitez em duelo tático de treinadores (Foto: PA)

O principal feito de Grant foi levar o clube à quarta semifinal de UCL em cinco anos. Novamente enfrentando o Liverpool, o clube conseguiu 4-3 no agregado e se classificou pela primeira vez na história a uma final da competição. Assim, o oponente dos londrinos foi o grande rival da época, Manchester United.

Assim, o Chelsea passou da fase de grupos como líder invicto em um grupo com Schalke 04, Rosenborg e Valencia. Apesar disso e dos resultados positivos nas oitavas e quartas contra Olympiacos e Fenerbahçe, a estrada até a final não foi fácil. Mas o principal desafio até Moscou se mostrou as semis contra o Liverpool. Essa foi a quarta vez seguida que os times se enfrentaram na competição.

Grande expectativa

A expectativa em cima do último jogo era enorme. Pela primeira vez na história dois clubes ingleses se enfrentariam na final. Desta forma, o palco foi o estádio Luzhniki em Moscou, capital da Rússia. Além disso, também era a primeira final de copa europeia jogada no país. Portanto, era a final disputada mais à oeste da história.

Apesar de novato em final europeia, os dois times estavam em pé de igualdade nas apostas. Isso se deveu muito pelo histórico recente de disputas na liga doméstica entre os dois times e pelas últimas temporadas do Chelsea batendo na trave na UCL.

11 iniciais do Chelsea para enfrentar os Red Devils na final (Foto: Getty)

Mais de 67 mil pessoas assistiram à final no estádio juntamente com cerca de 17,5 milhões de telespectadores. O Chelsea entrou em campo com Cech, Michael Essien, Carvalho, John Terry e Ashley Cole, Claude Makelele, Frank Lampard e Michael Ballack, Florent Malouda, Joe Cole e Drogba. No papel era um time experiente para enfrentar um lado vermelho perigoso com jogadores como Cristiano Ronaldo, Van der Sar, Rio Ferdinand, Paul Scholes e Wayne Rooney.

O apito inicial foi dado pelo eslovaco Lubos Michel. Os Red Devils trouxeram o clássico 4-4-2 da época para bater de frente com o 4-3-3 dos Blues. A grande tática de Sir Alex Ferguson foi colocar o português Cristiano Ronaldo pelo lado esquerdo do ataque para ficar nas costas do improvisado Essien. Assim, pelo lado vermelho, Park Ji-Sung não ficou nem no banco. Já pelo Chelsea, Paulo Ferreira, que havia jogado os dois jogos da semifinal, também ficou de fora.

Primeiro tempo acirrado

Os primeiros 20 minutos de jogo foram de estudo e luta pela posse de bola, sem muitas chances reais de abrir o placar. O primeiro lance importante do jogo foi o cartão amarelo recebido por Makelele em duelo aéreo que deixou Scholes com o nariz sangrando. Logo cinco minutos depois aconteceu o primeiro gol. Brown conseguiu cruzar para Ronaldo cabecear no canto direito inferior de Cech, colocando o United na frente.

Cristiano Ronaldo saltou pra abrir o marcador para o United (Foto: Getty)

O Chelsea teve algumas chances de empate mas parou em defesas de Van der Sar e em noite inspirada de Nemanja Vidic. O jogo ficou mais aberto, com oportunidades para ambos os lados e os goleiros demonstrando porque eram dois dos melhores do mundo. Mas no último minuto da primeira etapa os Blues conseguiram o empate com Lampard. O meia inglês completou o rebote de chute de longa distância de Essien que desviou na zaga e deixou o arqueiro holandês batido no lance. Lampard ofereceu o gol a sua mãe, Pat, recém falecida.

Frank Lampard dedica o gol a sua mãe Pat, que falecera um mês antes (Foto: Reuters)

Pressão londrina na segunda etapa

Assim, o gol de empate no apagar das luzes do primeiro tempo foi uma injeção de ânimo para o time de Londres, que pressionou o United por longos períodos na etapa final. Porém, para desespero azul, quando a zaga não conseguia neutralizar os ataques, a trave mantinha o placar inalterado. O gol parecia só uma questão de tempo, mas o final do jogo chegou e levou os times para a prorrogação.

Final triste

Nos trinta minutos derradeiros, os dois times se expuseram mais e tiveram chances de aumentar o placar. O Chelsea com chute de Lampard que parou na trave e United com Terry salvando de cabeça arremate de Ryan Giggs, que entrou no segundo tempo.

No fim do segundo tempo da prorrogação, a bola foi colocada para fora pelos Blues para tratamento de câimbras de jogador adversário. Após isso, no reinício do jogo, Carlos Tevez devolveu a posse mas cobrou pressão de seus companheiros de equipe no campo de defesa do Chelsea. Terry e Ballack foram tirar satisfação e, após confusão generalizada, Drogba acertou um tapa no rosto de Vidic e foi expulso.

Drogba recebe cartão vermelho deixando o time com 10 em campo (Foto: Getty)

O jogo foi para os pênaltis. Ambos os times converteram suas duas primeiras cobranças com Tevez e Michael Carrick pelo United e Ballack e Belleti pelos Blues. Quando Cech defendeu o chute de Ronaldo, o caminho parecia livre para o título mais importante da história do Chelsea. Lampard, Owen Hargreaves e Cole marcaram os três seguintes. Mas, na cobrança do capitão John Terry, um escorregão no contato com a bola colocou os dois times em condições iguais novamente. Anderson, Salomon Kalou e Giggs acertaram suas cobranças e ficou nos pés de Nicolas Anelka levar a partida para as alternadas. Mas o francês caminhou em direção à marca penal e errou. O Manchester United foi campeão da UEFA Champions League pela terceira vez.

Terry escorrega e perde o pênalti que daria a vitória para os Blues (Foto: PA)

Repercussão: Adiamento do sonho

O time do Chelsea, com certeza, era um dos melhores da Europa na década de 2000. Todas as vezes que bateu na trave, demonstram uma consistência de elenco e trabalho muito grandes. Assim, tinha os principais jogadores da seleção inglesa, Lampard e Terry, o melhor goleiro do mundo, um atacante matador e coadjuvantes que seriam protagonistas em qualquer clube. Todos estavam no auge de suas formas.

Assim, o sucesso nacional comprova muito da boa fase da Era Abramovich. Porém, se em terras inglesas tudo parecia bem, nas competições internacionais os Blues ainda não haviam obtido o êxito completo. Logo, isso explica parcialmente o título caseiro solitário de 2009/10 em nove anos de 2006 a 2015. O foco foi ganhar a Champions League.

Títulos nacionais são uma constante para o torcedor Blue desde a chegada de Abramovich (Foto: Getty)

Na primeira época de Mourinho à frente do clube, o torcedor viu o time chegar com fôlego às semifinais. Após vitórias sobre times como o Barcelona de Ronaldinho e o Bayern de Munique de Oliver Kahn, o Chelsea teve no Liverpool a interrupção do sonho da final. Com um “gol fantasma” de Luis Garcia, o time foi eliminado.

Na temporada seguinte o lado catalão conseguiu a sua redenção e mandou os azuis de Londres para casa. Da mesma forma, na temporada 2006/07 da UCL, o Chelsea foi eliminado pelo Liverpool, desta vez nos pênaltis. Todas as recentes eliminações apontavam para a final contra o United, que dividia os holofotes com o próprio Chelsea no século XXI.

A batalha de Moscou

Assim, a derrota afetou muito dentro do clube. Custou o emprego de Avram Grant e mais um ano do auge físico dos principais atletas. Além disso, adiou por alguns anos o sonho tão esperado da Champions League. Logo, o israelense pode parecer um grande fracasso se olharmos para os resultados. Mas o seu trabalho ficou marcado naqueles jogadores.

Quando Mourinho saiu, a moral estava muito em baixa. Assim, ninguém colocava o Chelsea como candidato principal ao título. Mas Grant só perdeu uma vez na Premier League e nunca em casa. Similarmente, a Copa da Liga foi perdida na prorrogação para o Tottenham. Da mesma forma a liga nacional somente por dois pontos para o United. Ou, segundo Grant em entrevista ao The Sun, “foi perdida pela não expulsão de Paul Scholes contra o Wigan”.

Grant dando orientações ao seu capitão na final de 2008 (Foto: Getty)

Desta forma, Grant trouxe motivação aos seus jogadores antes do jogo. Ela veio na forma de filmagens do time de hóquei dos EUA derrotando a URSS nas Olimpíadas de Inverno de 1980. O grande trunfo daquela partida foi o goleiro norte-americano Jim Craig. Ele então parou 36 dos 39 chutes ao gol dos favoritos naquela noite. Similarmente, Petr Cech entendeu a mensagem, parando diversos arremates e um pênalti. Mas os deuses do futebol quiseram que o capitão Mike Eruzione – ou melhor, John Terry – escorregasse e perdesse a sua penalidade, dando a vitória da “Guerra Fria” para os rivais.

Lucas Jensen