A consagração do primeiro título da FA Cup após 240 minutos de futebol

O ‘partidas históricas’ volta no fim dos anos 60 para recordar uma grande troca na presidência do Chelsea Football Club, que mais tarde resultaria no primeiro título da FA Cup do clube londrino, em 1970.

O despertar de um coração Blue

Em 13 de novembro 1945, um adolescente de 14 anos, filho do presidente do Chelsea da época, Joe Mears, e neto do cofundador do clube José Teófilo Mears, assistia a uma partida no Stamford Bridge. Era a sua primeira vez em um estádio de futebol.

A atmosfera empolgante do famoso estádio londrino, que recebia o seu público recorde de sua história com mais de 100 mil torcedores, fizeram com que a paixão do jovem Joseph Brian Mears pelo Chelsea despertasse. E não tinha como ser diferente: nascia ali um novo Blue.

Em 1966, pouco antes da Copa do Mundo, Joe Mears – pai de Brian, presidente do Chelsea e da FA – faleceu, deixando assim os dois cargos que ocupava em aberto.  Porém, não terminava assim a história da família Mears no Chelsea.

Apesar de Joe ter construído outros interesses comerciais no sudoeste de Londres para Brian assumir quando morresse, seu filho preferiu fazer outras escolhas.

O foco principal de Brian após a morte de seu pai era o ‘clube da sua família’. Seu sonho era comandar o Chelsea. O sangue azul corria em suas veias.

E o seu sonho só se realizou em 1969, quando ele assumiu a presidência do Chelsea Football Club, apenas vinte e um anos após assistir a sua primeira partida do clube e três anos depois da morte do pai.

Sob o comando de Brian, o Chelsea passou a ser um clube mais midiático, tendo em seu recém-presidente o principal responsável por isso. Brian era carismático e buscava a todo momento o entretenimento fora das quatro linhas para que o público cada fez mais ouvisse falar no nome do clube, uma estratégia além do futebol.

O Chelsea se tornou o clube mais elegante de Londres, com um bom futebol dentro de campo e celebridades da época como torcedores. Richard Attenborough, John Mills e Raquel Welch eram alguns desses famosos admiradores dos Blues que chegaram a visitar o clube e assistir a uma partida no Stamford Bridge.

A postura de Mears ilustrava bem todo esse glamour do clube, ele nunca fugiu do seu estilo, sempre usando os seus óculos de sol e andando pelas ruas da Inglaterra em um Rolls-Royce com a placa ‘CFC II’.

Além disso, dentro de campo o Chelsea era uma equipe forte e muito competitiva. O time era comandado pelo treinador Dave Sexton, e tinha como seus destaques grandes jogadores como Peter Osgood, Ron Harris (c), Peter Bonetti, Alan Hudson, Webb, Charlie Cooke, John Hollins e Ian Hutchinson.

Provando toda a sua qualidade, o Chelsea terminou o campeonato inglês na terceira colocação daquela temporada. Mas o maior sucesso dessa equipe não foi o feito no campeonato nacional.

FA Cup de 1969-1970

Na segunda competição mais importante da Inglaterra, os Blues foram muito bem e chegaram à final contra a equipe do Leeds United, campeão inglês da temporada 1968/1969.

O Leeds era uma das melhores equipes da Inglaterra, havia eliminado o Manchester United na semifinal e chegava a Wembley como favorito à conquista do título. Porém, o Chelsea não era nenhum azarão, e também vinha de boas campanhas no campeonato nacional. Eram duas belas equipes se enfrentando e todos esperavam uma grande final.

O Chelsea ainda buscava o seu primeiro título da FA Cup. Havia sido vice em duas oportunidades, uma em 1914–15 e outra três temporadas atrás (1966–67). O Leeds também nunca passou de um vice-campeonato, cinco anos antes.

11 de Abril de 1970, Chelsea vs Ledds, Wembley era o palco, 100 mil torcedores ansiosos nas arquibancadas. Rola a bola e um grande frisson tomou conta do maior estádio da Inglaterra.

Muita tensão e disputa dentro de campo. Acompanhe os melhores lances do jogo no vídeo abaixo:

Um 2-2 emocionante. Charlton marcou primeiro para o Leeds, e Houseman empatou para o Chelsea: os dois marcaram depois de falhas dos goleiros na primeira etapa.

No segundo tempo, o Leeds passou mais uma vez à frente do marcador, aos 84 minutos, Mick Jones foi o autor do gol. Porém, apesar de levar o gol quase no fim da partida, os Blues não desistiram e Hutchinson, de cabeça, aos 86 minutos, empatou de novo o jogo. Desolação dos jogadores do Leeds e muita festa dos Blues nas arquibancadas.

Fim dos 90 minutos. Mais 30 de prorrogação.

Jogadores do Leeds exaustos no campo.

Foi um grande jogo durante os seus 90 minutos, mas na prorrogação, por motivos óbvios, os dois times não repetiram o bom futebol. Os jogadores estavam atenuados em campo e o próprio gramado que já era ruim aquela altura era pior ainda.

Fim de jogo, 2-2.

Pela primeira vez, desde 1912, a Final da FA Cup teria seu campeão decidido através do Replay.

E 18 dias após a grande partida em Wembley, as duas equipes voltaram a se enfrentar. Desta vez, em Manchester, no estádio de Old Trafford, que recebia um público de 62 mil torcedores naquele dia.

O Chelsea não teve alteração nos 11 iniciais para o confronto decisivo, mas o capitão Ron Harris foi deslocado para a lateral-direita para marcar Eddie Gray, destaque do primeiro jogo do lado do Leeds, enquanto Webb virou zagueiro. Já o Leeds teve seu goleiro substituido, entrou David Harvey e saiu Gary Sprake, machucado: ele também havia falhado em Wembley.

Assim como na primeira final, era o Leeds quem dominavam as ações do jogo, mas a equipe do Chelsea não se acuou em nenhum momento. Tornando o jogo muito emocionante.

A partida era muito pegada. Aconteciam muitas faltas violentas, e o jogo físico se sobressaía. Mas, aos 35 minutos do primeiro tempo, um lance ‘diferente’ aconteceu. Era o Chelsea quem atacava, mas o Leeds foi mais eficiente, roubou a bola e armou um rápido contra ataque. Com poucos toques precisos e dribles curtos, os ‘Peacocks’ foram mortais. “Mick” Jones, camisa 9, saiu na cara de Bonetti e marcou em uma finalização forte e precisa. Chute indefensável. Mais um gol dele na final: também havia marcado em Wembley.

Mesmo com o gol marcado, o Leeds não parou de atacar e continuou criando as melhores chances. E com mais dois lances de perigo, uma que passou raspando a trave e outro que Bonetti fez boa defensa, a equipe do norte da Inglaterra se aproximava mais do segundo gol que a equipe da capital inglesa.

Mas se o futebol é surpreendente, o Chelsea é mais.

Em um lance despretensioso que começou com um ‘meio chutão’ pelo lado direito do campo do capitão Harris, improvisado por ali, a bola ficou com o Chelsea e passou por três jogadores antes de chegar a Peter Osgood, que a deixou para a condução de Charlie Cooke, e disparou para se apresentar como camisa 9 na área. Não deu outra.

Cooke carregou a bola, esperou o atacante se apresentar, e, de forma brilhante, acertou um cruzamento milimétrico na cabeça de Osgood que, de peixinho, empatou a partida e fez Old Trafford e toda a Inglaterra ficarem de boca aberta com o time guerreiro do Chelsea. Empate heroico dos Blues.

A doze minutos do fim do jogo, partida empatada. E a primeira conquista da FA Cup, para ambos os lados, estava mais indecisa do que nunca.

Mais uma vez, assim como em Wembley, a disputa do título foi para a prorrogação.

A partida continuou pegada e violenta. E uma jogada de característica do futebol Britânico decidiu o título da FA Cup de 1970 em Old Trafford: um forte arremesso de lateral para a grande área.

Faltando um minuto para acabar o primeiro tempo do tempo extra, o gol do título saiu.

Um certo camisa 10 foi o autor da jogada inesquecível. Ele recebeu do ‘gandula’ ‘dominou a bola com a mão’ e a secou em seu uniforme estrategicamente.  Levantou a cabeça olhou o jogo e pensou bem para onde mandaria a bola. Deu apenas um passo para trás e com muita força arremessou para a área adversária.

A bola viajou alta e aos gritos que vinham da arquibancada de ‘Chelsea, Chelsea, Chelsea’. Encontrou a cabeça de Jack Charlton, zagueiro do Leeds, que resvalou para trás: a bola foi de encontro ao zagueiro/lateral-direito David Webb, o iluminado Blue da noite.

O camisa 6 voou mais alto que todo mundo para, de cabeça, na segunda trave, mandar a bola para a rede e marcar o gol do primeiro título do Chelsea Football Club na FA Cup. Lance histórico e inesquecível dos Blues.

Vídeo com os gols da partida

Elenco campeão

Curiosidades da final

A grande audiência televisiva

O jogo replay da final da FA Cup agitou toda à Inglaterra. Prova desse apelo popular com a partida foram os números exorbitantes de pessoas que assistiram ao jogo pela TV. Índices da época mostram que mais de 28 milhões de fanáticos por futebol acompanharam aquele jogo desempate entre Chelsea e Leeds, o que fez daquela partida o segundo evento de futebol mais assistido de todo os tempos na Inglaterra, perdendo somente para à final da Copa do Mundo de 1966, onde à Seleção Inglesa se sagrou Campeã do Mundo.

Violência durante a partida

A partida da Final da FA Cup teve muita repercussão da mídia da Inglaterra. E um dos assuntos mais falados foram as muitas agressões dos jogadores durante o jogo. Fato que fez o juiz Eric Jennings, que apitou as duas partidas, ser muito criticado.

Era a última temporada do juiz como profissional, e por seus bons anos prestado, foi premiado para apitar a Final da FA Cup. Porém, na partida Replay, em Old Trafford, ele foi muito mal e não se impôs dentro de um jogo muito pegado.

Tempos depois da final, um ex-árbitro concluiu que aquela partida deveria ter sido distribuído seis cartões vermelhos e 20 cartões amarelos entre os jogadores dos dois times.

Uma das melhores finais de FA Cup da história

Apesar da violência da partida, as duas equipes foram muito elogiadas por sua determinação e por oferecer aos fãs de futebol dois grandes jogos. Até hoje, os dois jogos são lembrados como “épicos”.

A Final da FA Cup de 1969/70 também simbolizou uma época em que o futebol na Inglaterra era de muito contado físico, sem simulações e decididas em jogadas pelo alto.

Mas apesar de algumas críticas ao jogo, todos que conhecem um pouco da história desse confronto reconhecem a partida histórica que foi Chelsea Vs Leeds United.

Começava assim, com o título da FA Cup de 1970, uma história que levaria o Chelsea até a conquista da Europa em 1971. Mas só contaremos os detalhes dessa outra honra Blue no próximo ‘Partidas Históricas’. Também vamos abordar a triste e final passagem de Brian Mears pelo comando do clube londrino.

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Article by: Luan Gomes