Chelsea e o mito do futebol de retranca

Drogba chuta para marcar seu primeiro gol contra o Valencia

Muito se tem falado desde que o Chelsea levantou pela primeira vez a taça de campeão europeu no último sábado, batendo o forte time alemão Bayern de Munique nos pênaltis. Antes disso, os ingleses conseguiram frear o todo-poderoso Barcelona, considerado o melhor time do mundo e com o melhor jogador da atualidade, Lionel Messi. Alguns “críticos” de futebol dizem que o time londrino abusou do anti-jogo, se assentou numa forte retranca e só tinham como jogada ofensiva os chutões pra frente.

Porém, antes de se fazer qualquer comentário acerca do Chelsea é preciso analisar o real motivo pelo qual o time jogou de forma tão defensiva contra estes adversários.

Ramires teve que se empenhar tanto defensivamente, quando voltando na marcação de Daniel Alves, e ofensivamente, aproveitando o espaço que sobrava nas costas do lateral direito do Barcelona.

É evidente que mais da metade do elenco é composto por jogadores que estão na casa dos 30 anos ou mais. Frank Lampard, Drogba, Terry, Malouda, Ashley Cole, Essien e Bosingwa já não possuem as mesmas condições físicas que tinham até alguns anos atrás, mas nem por isso deixaram de dar o máximo para conseguir superar as limitações impostas pelo peso da idade.

Nesse caso, em um jogo de intensa disputa pela recuperação da posse de bola ou pela necessidade de se antecipar a jogadas com velocidade, o mais coerente fosse posicionar os jogadores de forma aguentar a pressão adversária e tentar jogadas isoladas de contra ataque.

Não me parece que essa postura, sabendo da limitação destes jogadores e reconhecendo a superioridade do adversário seja desprezível. Pelo contrário, não só demonstra total respeito pelo poderio ofensivo daquele que se enfrenta como evidencia a tática inteligente de se esperar pelo rival para tentar derruba-lo no momento mais oportuno.

E foi justamente assim que o Chelsea conseguiu supera-los. Claro, não se pode negar que o time contou também com a sorte em muitos momentos, mas se prender a isso não é uma justificativa plausível. Os londrinos, nas poucas oportunidades que tiveram, conseguiram ser mais eficientes. E aí derruba-se outro mito: de que Drogba e cia não possuem as mesmas condições técnicas que eles (Barcelona e Bayern).

Ora, 10 dos 13 jogadores que atuaram no primeiro jogo contra os catalães são titulares absolutos em suas seleções. Alguns podem não estar no auge de suas carreiras, mas isso não tira a importância de suas participações.

O Chelsea precisou jogar recuado contra estes adversários porque fisicamente é muito inferior ao recurso humano que eles possuem e isso é inquestionável. Xavi, Iniesta, Messi, Fábregas e Sanchez atualmente estão jogando num nível tão elevado que já conseguiram transformar o estilo de jogo adotado pelo Barcelona em modelo a se seguir no futebol mundial. A fórmula para quem quiser aprender a jogar como eles esta aí, a mercê de qualquer um para copiar e tentar implantar em seus times.

O Bayern de Munique, diferentemente dos catalães, jogam um futebol mais ousado, ofensivo e rápido, com maior apoio de seus dois principais homens, Ribèry e Arjen Robben, porém não menos belo quanto o praticado por Messi e seus blues caps.

Contudo, estes dois times não são imbatíveis e isso ficou muito claro nesta temporada, quando os mesmos sofreram derrotas difíceis de serem digeridas, como foi o recente caso dos bávaros diante do escorregão frente ao Borussia Dormund.

Dizer que o Chelsea pratica anti-jogo e é um time retranqueiro é assumir que desconhece qualquer coisa relacionada a futebol. E afirmar que com a vitória do Chelsea, quem perde é o futebol é ainda pior.

Os adoradores do futebol “bonito” (e nesse caso, a palavra bonito está entre aspas porque esse mérito de interpretação cabe a cada um), de toques rápidos e ofensivo até podem, com toda razão, dizer que não gostaram da forma como se comportou o time inglês nestes jogos. Mas não se pode negar que a eficiência do sistema defensivo baseado em marcação por linhas se sobressaiu perante o tão valorizado “futebol arte”.

Chelsea obrigou o Bayern de Munique a jogar de forma aberta e larga, o que fez com que Robben e Ribéry fossem ineficientes em suas jogadas

Recentemente o técnico do Corinthians, Tite, fez declarações polêmicas sobre o Chelsea quando compararam o seu time com os novos campeões da Europa:  “O Corinthians não faz anti-jogo, não enfia a bunda [sic] lá atrás para fazer gol achado.” “Na vitória do Chelsea, o futebol perdeu.” As declarações deste treinador não só demonstram total desrespeito ao time que superou grandes adversários europeus ao longo da competição como também comprova que Tite nunca acompanhou um jogo sequer do Chelsea

Esse time que ele julga como retranqueiro foi o mesmo que nesta temporada conseguiu os seguintes resultados importantes:

Chelsea 2 x 1 Manchester City (jogo que marcou a primeira derrota do City na PL, derrubando sua invencibilidade até então)
Chelsea 2 x 0 Bayer Leverkusen
Chelsea 3 x 0 Valencia
Chelsea 4 x 1 Napoli (após perder o primeiro jogo por 3×1)
Chelsea 2 x 1 Benfica
Tottenham 1 x 5 Chelsea
Liverpool 1 x 2 Chelsea

Estes resultados são apenas uma pequena amostra do êxito ofensivo do Chelsea durante a temporada e põe por terra qualquer afirmação de que este time só joga na retranca.

Assim sendo, antes que se faça qualquer “análise” do futebol praticado pelos comandados de Roberto di Matteo, é necessário que se visualize o desempenho deste time ao longo desta temporada 2011/2012. Essa falsa ideia que se tem dos jogadores, como se eles jogassem SEMPRE de maneira defensiva é, no mínimo, equivocada e irreal, uma vez que esta postura tática aconteceu em apenas três ocasiões distintas. Ocasiões essas que se fossem jogadas de outra maneira, dificilmente teriam tornado o Chelsea no Campeão Europeu.

Enquanto isso, resta a nós, torcedores do Chelsea, torcer para que o Corinthians ganhe essa libertadores (mesmo sabendo que esse time nunca conseguiu esse feito) e se classifique para o Mundial no final do ano. Eu, particularmente, estou ansioso para ver o tal futebol de volume do time paulista, contra o maior de Londres.

As palavras contidas nessa reportagem condizem à opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea Brasil.

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Article by: Rodrigo Leone