Análise Tática: Aprenderam a jogar contra o Chelsea, mas o Chelsea não aprendeu a jogar de outra forma

Frustração tem sido a palavra da temporada (Foto: Getty Images)
Frustração tem sido a palavra da temporada (Foto: Getty Images)

O Chelsea venceu a Premier League na temporada passada principalmente pelo que fez nos primeiros dois terços da campanha, quando tinha um futebol vistoso e bem jogado, que administrava bem o toque de bola e a objetividade, controlando o jogo ou dando a bola ao adversário, dependendo do momento da partida. Isso porque tinha um novo funcionamento em campo, diferente do que o Chelsea tinha utilizado na temporada anterior e diferente também da maioria das equipes de José Mourinho.

O time tinha o famoso 4-2-3-1, mas armado para valorizar a transição defesa ataque e a qualidade de passe na saída de bola. E apesar de não ser um sistema inovador, ele tinha fatores surpresas, não apenas para os adversários, mas para a Liga como um todo. Um deles era um maestro a frente da defesa: Cesc Fàbregas, que ajudava Matic a sair com qualidade em um espaço em que o Chelsea acostumou a ter pouca marcação. Com isso a bola chegava redonda ao trio de armadores: Oscar, Hazard e Willan (sempre os três). Isso quando o próprio Fàbregas não subia ao ataque quando os Blues tinham a bola, tornando o time um 4-1-4-1 bastante efetivo. E passando pelos armadores havia também um novo elemento: um Diego Costa que os adversários não sabiam como marcar, como encarar. Ele trombava, abria pelos lados, achava espaços, finalizava mesmo pressionado.

O Chelsea liderou e teve uma grande invencibilidade pois os adversários ainda não entendiam bem como o time funcionava e tentavam encaixar marcações, que acabavam sendo furadas pelos elementos surpresas Fàbregas e Costa, ou por outros que entravam nos espaços que eles abriam. Ou Cesc vinha de trás sem marcação e se fazia um homem a mais na armação, ficando livre ou puxando a marcação para si e deixando um companheiro livre; ou mesmo Costa, que muitas vezes abria para o lado direito do ataque, levando consigo um zagueiro, pelo menos, e abrindo assim espaços para infiltrações na área, como muitas vezes acontecia.

O time foi chamado de “o mais ofensivo da história de José Mourinho” e com muito mérito alcançou uma liderança da Premier League que mais tarde levaria ao título. Porém, já no segundo turno da Premier League passada, os adversários aprenderam a jogar contra os Blues e a vida do time começou a complicar, com o sistema de jogo do início da temporada já não funcionando tão bem, uma vez que os adversários iam se acostumando a ele.

A primeira saída encontrada pelos rivais foi pressionar Fàbregas na saída de bola. Quando o Chelsea conseguia uma roubada, encostar um marcador no espanhol passou a prejudicar a transição, já que ele não teria espaço para girar ou para pensar um passe a frente. Cesc passou a ficar cada vez mais recuado e tocar a bola apenas para os lados. Com isso, incomodado, ele passou a se adiantar mais para fugir desta primeira pressão, deixando, entretanto, a transição pobre apenas com Matic, que agora também recebia marcação dobrada, pois não havia um companheiro no setor.

E aí se foi o sistema tático do Chelsea. Os meias não eram mais alimentados e muitas vezes voltavam em bloco para buscar o jogo, deixando um vazio no meio ofensivo. Ficavam Hazard e Costa isolados na frente, já que Willian e Oscar voltavam para buscar o jogo. Hazard não fazia muito a aproximação.

E como o Chelsea não estava (nem está) treinado para se movimentar em bloco, como faz o Barcelona, por exemplo, as ações ofensivas do time ficavam cada vez mais complicadas. Mourinho treinou seu time para funcionar com gatilhos ofensivos. A bola passava da defesa para um dos volantes que então trocavam passes curtos até o meio de campo, com a aproximação de um meia. Chegava no meio de frente para o ataque, com bola dominada. O jogador que tinha a bola (normalmente Fàbregas) levantava a cabeça e os outros jogadores ofensivos (ajudados pelos laterais) disparavam para ocupar espaços. E a bola ia para um dos lados ou para um jogador que desgarrava pelo meio. Era como a formação “shotgun” no futebol americano. O quarterback tem a bola em mãos e todos os seus alvos avançam juntos empurrando a marcação para o fundo.

Normalmente aqui a marcação recuava até a área adversária e um jogador de frente saía para receber a bola (defesa estava empurrada para o fundo e aberta pela ocupação das laterais. E com a saída de Hazard, Willian ou Oscar, mas apenas um por vez) de maneira tranquila frente a grande área, já que a sse jogador para receber a bola, achava-se um espaço na frente zaga adversária, para trabalhar a bola. Ou mesmo um defensor saia e levava a zaga a abrir espaços.

De um lado o shotgun com jogadores empurrando e abrindo a defesa. No outro a atual saída dom Cesc marcado e chutões
De um lado o shotgun com jogadores empurrando e abrindo a defesa. No outro a atual saída dom Cesc marcado e chutões

Entretanto, o encaixe fácil de marcação (impedir a saída de bola do Chelsea com qualidade) fez com que esse sistema ficasse frágil e ineficiente. Tanto porque a bola não passava com qualidade pelo meio de campo, como dito, quanto porque o ataque continuava se movimentando em “shotgun”, tentando empurrar e abrir a defesa, mas sem o gatilho que fizesse as jogadas funcionarem, já que não havia um dos volantes (ou Oscar) passando pelo meio com liberdade.

Daí nasceu o principal problema do fim da temporada passada e que ainda é o grande mal tático atual: a distância entre as linhas e a falta de transição entre elas, que são fruto da previsibilidade de jogo dos Blues.

Outro fator interessante é que os adversários passaram a implementar uma marcação espelhada, em que cada jogador de ataque do Chelsea tinha um jogador encostado nele, e ainda um jogador na sobra por setor do campo (já que não é preciso marcar os zagueiros). Cada um dos ofensivos dos Blues tinham um jogador espelhado e a marcação vencia nossa ofensividade numericamente. E também porque mesmo com os jogadores voltando para buscar jogo, ainda sobrava um marcador por setor para fazer o embate.

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De um lado o encaixe da marcação adversária e a desvantagem numérica ofensiva. Do outro o vazio gerado pela necessidade de Willian e Oscar em buscar o jogo na defesa (Imagem: This11.com)

Para garantir o título inglês, Mourinho abriu mão do sistema anterior e encontrou a “desculpa perfeita” para fazer o que ele faz de melhor: montar times defensivamente extremamente sólidos e que jogam nos erros dos adversários. Foi assim que ganhamos o título na temporada passada, jogando o último terço da competição em contra-ataques e em erros defensivos dos rivais, sem tomar a iniciativa, como na melhor fase da temporada. Aqui, para ilustrar, vale lembrar dos jogos contra Manchester Unted (vitória por 1-0 com gol do Hazard, com o Chelsea com menos de 40% de posse de bola) e Arsenal (empate 0-0 que praticamente garantiu o título).

Foi uma saída lógica e acertada “estacionar o ônibus”, já que o sistema principal de jogo não funcionava. Garantiu o título inglês em uma grande temporada dos Blues, que também trouxe a Copa da Liga de volta para Stamford Bridge.

Porém isso, já na época, ressaltava uma deficiência técnica do time, que era a incapacidade de jogar de uma maneira diferente da principal proposta pelo treinador. E aqui cabe uma crítica aos gestores técnicos do time (Mourinho e seus assistentes) por não treinar a equipe para conseguir se adaptar taticamente dentro de partidas e sob propostas de jogos diferentes. O Chelsea jogava de uma só maneira e se tornou previsível para os adversários, que com sistemas de marcação consistentes, anulavam o padrão de jogo de Mourinho.

Naquela época ninguém reclamou tanto, já que valia tudo para ser campeão. Porém o que esperávamos é que neste período, na pré-temporada e início da atual campanha, nosso trenador fosse perceber nossa previsibilidade e o que ela trazia para o time e criar variações táticas distintas e dar ao Chelsea um leque variado de opções para se comportar durante as partidas, sabendo ler o jogo e se adaptar àquilo que o confronto pedisse. Esperavamos um desenho tático que, mesmo que fosse o 4-2-3-1 de sempre, pelo menos apresentasse maneiras de trabalhar a bola e de atacar diferentes daquela tão característica que já tinha se tornado repetitiva e ineficiente.

Infelizmente não foi o que aconteceu. E caímos em um dos períodos mais obscuros da história recente do clube, notadamente o pior da Era Abramovich e também o pior da carreira de José Mourinho.

Muitos culparam a má fase individual de certas peças, má sorte, perseguição de arbitragem e até mesmo teorias mirabolantes de motim de jogadores. Mas a verdade é que futebol é um esporte coletivo e mesmo quando um ou outro jogador não vive uma boa fase, isto acaba sendo neutralizado e diminuído se o time funciona bem e joga um bom futebol. Se um sistema (que é ensaiado) gira como treinado. Vale lembrar que Ivanovic já cometia na temporada passada vários erros defensivos e de posicionamento, mas como o time jogava bem, Matic cobria aquele espaço e Oscar voltava para o meio, isso acabava sendo corrigido pelo bom funcionamento defensivo do time.

Contudo, num esporte coletivo, quando 9 dos 10 jogadores de linha (com exceção de Willian) vivem más-fases, não é porque eles individualmente estão absurdamente abaixo de seus níveis. É porque o time não funciona. É porque o conjunto já não se orquestra mais em sintonia. Claro que há jogadores em más-fases, mas isso deriva do fato de que um time mal organizado, ou que pelo menos não é capaz de jogar um bom futebol, puxa para baixo jogadores que dependem do coletivo. Afinal, mesmo que costumemos analisar jogadores separadamente (principalmente em maus momentos), isto aqui é um esporte coletivo. Composto por 11 jogadores que se movimentam e abordam a partida de uma maneira ordenada, treinada e definida, ou caem no caos tático, quando a única coisa que eles sabem fazer não dá certo.

E este é problema tático do Chelsea. Aprenderam a jogar contra nós lá na temporada passada. Todos os sinais mostraram isso. Os adversários mostraram isso, mas a temporada acabou e trouxe a ilusão de um time ainda dominante. A nova campanha começou e lá estava o Chelsea jogando da mesma maneira: 4-2-3-1, Fàbregas tentando buscar o jogo, os jogadores de ataque se espalhando para ampliar a defesa, etc etc. Os Blues mostraram o mesmo desenho tático de sempre, que já estava batido.

Assim ficou fácil para os adversários, que precisavam apenas encaixar uma marcação minimamente orientada e o Chelsea se veria sem saída. Marcaram Fàbregas, espelharam marcação, sobrecarregaram Matic. Fàbregas adiantou-se para fugir da marcação. A defesa ficou assim exposta. Matic saia na cobertura de Ivanovic, o meio ficava livre para os adversários. Zagueiros saiam para o combate, tínhamos espaços no meio da defesa: gol.

De maneira reduzida, o parágrafo anterior resume tudo que o Chelsea tem feito de errado na temporada. Caído na marcação adversária e se perdendo nela, deixando buracos na defesa e sofrendo derrotas consecutivas. Tudo por que? Porque é um time extremamente previsível. E se você já sabe como seu adversário vai jogar, o que você faz? Você vai lá e neutraliza. É fácil combater algo se você sabe exatamente o que vai acontecer.

Para fugir da marcação, Fàbregas se adianta demais e sobrecarrega Matic, que tem que cobrir Ivanovic. Isso deixa o meio sem marcação.
Para fugir da marcação, Fàbregas se adianta demais e sobrecarrega Matic, que tem que cobrir Ivanovic. Isso deixa o meio sem marcação. (Imagem feira em This11.com)

E aí vale criticar José Mourinho sim, por não ter encontrado variáveis de jogo, alternâncias de comportamentos para a equipe. Nem mesmo opções, como Loftus-Cheek, por exemplo, foram tentadas. Mas principalmente sistemas diferentes de condução da partida não foram treinados, oferecidos a estes jogadores, que se comportam, como em qualquer esporte coletivo, sob orientação técnica.

Com isso vemos um time que se perde facilmente em campo quando o adversário é minimamente organizado. Em vários jogos vemos defeitos recorrentes, como os atacantes do Chelsea, normalmente três ou quatro, encostados na última linha de quatro jogadores adversários para tentar empurrar a defesa e criar espaços em frente à área, porém com os seus companheiros marcados, esta tática não funciona, principalmente porque ela tira da equipe uma das características mais importantes do futebol atual: a movimentação, troca de posição, rotação ofensiva.

Ao invés de os jogadores se moverem, buscarem espaços, se aproximarem, eles ficam lá, encostados no muro de defesa adversária, neutralizados, esperando um jogador que venha de trás e puxe a marcação para si. Mas isso não está acontecendo e o Chelsea acaba se vendo refém das defesas rivais. E essa falha leva também a bola a passar excesso para as pontas e nossos laterais não são o que se podem chamar de ofensivos, e com marcação dobrada no setor, também se torna ineficiente jogar por ali.

Sem criatividade pelo meio e com jogadores presos aos marcadores, fica mesmo difícil que os atacantes brilhem, tenham chances de arrematar ao gol, como é o caso de Diego Costa, que tem aparecido menos que na temporada passada.

E é por isso que vemos tantas vezes o Chelsea dando chutão, tentando ligações diretas na temporada, porque o ataque, treinado para fazer apenas uma coisa, se movimentou no “shotgun” explicado lá em cima, mas não há ninguém no meio de campo para levar a bola até eles, então, para passar por este vazio, só na base da bola longa. Já que as linhas acabam ficando distantes.

O Chelsea não sabe jogar de outra forma. Não foi treinado para jogar de outra forma, e esse é o principal erro do time e de José Mourinho na temporada. Num futebol em que cada vez menos jogadores tem funções rígidas e delimitadas, em que laterais aparecem pelo meio, em que volantes flutuam entre zagueiros e armadores e até mesmo aparecem na área para ocupar espaços, os Blues pecam também por ter jogadores fixos, fazendo funções específicas em posições específicas, parecendo muito com o futebol de especialistas de mais de dez anos atrás.

Hoje temos times que variam de 4-2-3-1, para 3-6-1, 3-2-4-1, 4-3-3, 3-4-3, dento de uma mesma partida, se adaptando a momentos e adversários diferentes, ao ponto de até mesmo confundir analistas e comentaristas durante os jogos. Porém vemos o nosso Chelsea se comportando apenas de uma maneira e com jogadores cumprindo sempre as mesmas funções.

Não defendo a demissão de José Mourinho, mas acredito que para que os Blues se recuperem na temporada e caminhem para um futuro digno do clube, o português terá mesmo de se reinventar, de mostrar tudo que sabe e dar a este Chelsea (que tem bons nomes) organização e variações coletivas e individuais. Mou está sendo desafiado a mostrar um nível que sabemos que ele tem e torcemos para que ele consiga. Porém, com ele dizendo que está “em um nível em que não é possível mais aprender com outros treinadores, mas apenas comigo mesmo”, como disse em entrevista recente, fica a sensação de que teremos apenas mais do mesmo até o fim da temporada.

A Premier League, se continuarmos jogando assim, vai acabar sendo a tragédia anunciada e dificilmente terminaremos no Top 4. Contudo resta a Champions League, torneio de tiro curto em que cada jogo isoladamente conta mais que uma campanha. Neste cenário Mourinho é mais do que capaz de nos dar um título, com sua organização defensiva que só ele sabe montar. Mas a longo prazo preocupa, porque não só de mata-mata se vive um time, e principalmente porque nossos adversários estão passos a frente taticamente.

Category: Competições

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Article by: Márcio Canedo