A passagem de Ruud Gullit pelo Chelsea F.C. foi relativamente curta, entre 1995 e fevereiro de 1998, mas profundamente transformadora. Primeiro como jogador e depois como técnico-jogador, o holandês recolocou o clube no mapa do futebol inglês ao encerrar um jejum de 26 anos sem grandes títulos e iniciar a construção da identidade moderna dos Blues.
Chegada como jogador (1995–96)
Gullit desembarcou em Stamford Bridge em julho de 1995, a custo zero, vindo da Sampdoria. Já não estava no auge físico dos tempos de Milan e seleção holandesa, mas ainda carregava enorme prestígio internacional e impacto midiático.
Sob o comando de Glenn Hoddle, foi inicialmente utilizado como líbero, função na qual não teve grande destaque. Posteriormente, avançado ao meio-campo, passou a influenciar mais o jogo e marcou seis gols na Premier League.
Sua contratação, ao lado de nomes como Mark Hughes e Dan Petrescu, elevou o status do Chelsea no cenário nacional. Embora o clube tenha terminado apenas em 11º lugar na liga, a equipe chegou à semifinal da FA Cup, sinalizando que algo começava a mudar em Stamford Bridge.
Técnico-jogador e o nascimento do “novo Chelsea” (1996)
Em 1996, com a saída de Hoddle para assumir a seleção inglesa, Gullit foi promovido a técnico-jogador — algo raro na Premier League moderna.
Ele assumiu um clube que não conquistava um grande troféu desde 1971. Mais do que resultados imediatos, Gullit representava uma mudança de mentalidade: o Chelsea passava a se enxergar como um projeto ambicioso, cosmopolita e disposto a competir no topo.
O holandês tornou-se o rosto do chamado “novo Chelsea”, defendendo um futebol mais técnico, ofensivo e esteticamente atraente.
“Sexy football” e a revolução no elenco
Como treinador, Gullit apostou em criatividade, posse de bola e forte presença estrangeira — algo ainda incomum no futebol inglês dos anos 90.
Sob seu comando chegaram reforços decisivos como:
- Gianfranco Zola
- Roberto Di Matteo
- Gianluca Vialli
A expressão “sexy football” passou a ser associada ao Chelsea desse período, em contraste com o estilo mais físico e direto que predominava na Inglaterra.
FA Cup 1996–97: o fim do jejum
Na temporada 1996–97, sua primeira completa como técnico, Gullit conduziu o Chelsea ao título da FA Cup, vencendo o Middlesbrough por 2–0 em Wembley.
O troféu encerrou um jejum de 26 anos sem conquistas de grande porte e marcou o início da fase moderna e vitoriosa do clube.
Além do impacto esportivo, o título teve peso simbólico: Gullit tornou-se o primeiro treinador estrangeiro e um dos primeiros técnicos negros a conquistar um grande troféu no futebol inglês.
No mesmo período, Zola foi eleito Jogador do Ano pela Football Writers’ Association, consolidando a imagem do Chelsea como um time de estrelas internacionais.
Temporada 1997–98 e a demissão surpreendente
Na temporada seguinte, o Chelsea seguia competitivo, brigando na parte de cima da Premier League e avançando em copas nacionais e europeias.
Mesmo assim, em fevereiro de 1998, Gullit foi demitido de forma abrupta. A versão oficial apontava impasse contratual: o treinador tinha vínculo até o fim da temporada e as negociações para renovação não avançaram.
Relatos posteriores indicam divergências sobre finanças, estrutura de comando e autonomia nas contratações. A relação com o então presidente Ken Bates teria se deteriorado em meio a essas tensões.
Curiosamente, o elenco montado por Gullit serviria de base para que, semanas depois, sob comando de Vialli, o Chelsea conquistasse a Copa da Liga Inglesa e a Recopa Europeia.
O legado de Gullit em Stamford Bridge
Mesmo com pouco mais de um ano e meio como treinador, o impacto de Gullit foi estrutural.
Ele:
- Encerrou o longo período sem títulos
- Mudou o perfil do elenco
- Internacionalizou o clube
- Elevou o padrão técnico e estético do time
Sua passagem antecipou características que mais tarde seriam consolidadas na era Roman Abramovich: ambição, investimento internacional e mentalidade vencedora.
Em síntese, Gullit deixou o Chelsea maior do que encontrou, mais global, mais ousado e novamente acostumado a disputar troféus.
