Terceiro Tempo: O real significado de prudência

Lampard demonstra capacidade de leitura e adaptação para sobreviver

Prudência é o nome romano de Craytus, deus da guerra e da prudência. Considerada uma das quatro virtudes cardinais pelos clássicos, é frequentemente associada com sabedoria, introspecção e conhecimento. Assim, é prudente aquele que dispõe da razão para discernir, em todas as circunstâncias, o verdadeiro bem e escolher os meios justos para atingi-lo.

Entretanto, engana-se quem enxerga a prudência como excesso de cautela ou covardia. Este último é visto como a sua corrupção, ou seja, o oposto de coragem e bravura. É necessária muita força de espírito para ir contra o senso comum e uma visão além do óbvio para enxergar o panorama.

Lampard comemora

É notável a inteligência do jovem técnico ao longo da temporada (Foto: Getty)

Assim, a prudência pode ser melhor explicada quando se analisam a capacidade de adaptação, a habilidade em tecer conceitos em um novo tecido, e a inteligência ao superar obstáculos. Portanto, Lampard possui todas as características do homem prudente e esse pode ser o seu trunfo.

Primeiro Tempo: Darwin estava certo

Darwinismo é o nome dado à teoria proposta por Charles Darwin para explicar a evolução das espécies. Assim, segundo ele, a luta pela sobrevivência era real. Além disso, só os mais bem adaptados poderiam prosperar. Isso acontece na natureza, na sociedade, nas relações humanas e, consequentemente, no futebol. Em A Origem das Espécies, o autor influenciou profundamente evolucionistas de todo o mundo.

Já Frank Lampard não escreveu nenhum livro, mas com certeza teve de se adaptar para sobreviver às intempéries da Premier League. Somente na segunda temporada de sua curta, porém promissora, carreira, o inglês se reinventou diversas vezes ao longo da temporada. Além disso, o manager não teve medo de admitir erros, criticar posturas e principalmente fazer mudanças.

O método “científico”

Isso fica evidente quando se analisa o número de atletas aproveitados e a quantidade de vezes que entraram em campo. Dos 26 atletas utilizados, 21 entraram em campo mais do que 20 vezes (Incluindo Emerson com 19). Além disso, 11 tiveram mais do que 30 oportunidades. O destaque vai para Kepa, Azpilicueta, Jorginho, Mount, Willian e Abraham, todos com mais de 40 aparições.

Contudo, esse fator isoladamente não comprova muita coisa, somente as tentativas de troca de peças. As variações táticas propostas pelo manager ao longo da temporada também ficaram evidentes. Assim, Lampard já utilizou pelo menos seis formações táticas diferentes para se adaptar aos seus adversários e encontrar a melhor forma de jogo. A mais recente delas foi o 3-4-2-1 que resultou na vitória por 3-1 sobre o Manchester United na semifinal da FA Cup.

abraham abracado

Lampard girou muito o elenco e pode colher os frutos disso (Foto: Getty)

Portanto, pode-se dizer que o treinador experimentou do método científico de tentativa e erro. Este é um modo de resolver problemas em que várias tentativas são realizadas até chegar a uma solução. Essa teoria foi comprovada em animais por Edward Thorndike, pesquisador que averiguou que gatos tentam resolver quebra-cabeças a partir dessa abordagem. Assim, configura o processo básico de aprendizagem – especialmente no caso de um técnico jovem em um time jovem.

Lampard com certeza não é um gato, mas já demonstrou inteligência o suficiente para mudar as situações a seu favor. Além disso, dentro de uma mesma partida pode-se observar o impacto positivo que os substitutos têm no resultado dos jogos.

Segundo Tempo: Salada à la (Frank)enstein

Como jogador, o Super Frankie foi um meia de rara inteligência que gostava de controlar todos os aspectos das partidas. Além disso, sua técnica apurada o permitia desequilibrar com gols e assistências praticamente a qualquer momento. Como técnico, além de sua habilidade em ler as partidas, uma de suas principais qualidades é a capacidade de reunir aspectos diferentes em um mesmo time.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno é um romance de terror gótico de autoria de Mary Shelley. A escritora britânica descreve em sua obra a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que “constrói” um monstro em laboratório. Todavia, o mais curioso na criatura é que era formada por partes de outros seres.

monstro

A criatura de Lampard é bem diferente da de Victor Frankenstein (Foto: BBC)

Porém, diferentemente da literatura, Lampard possui ligação afetiva com o seu “monstro” e o resultado de suas experiências com ideias de outros treinadores não ficou horrendo como no livro. Muito pelo contrário, os seus experimentos trouxeram todos os melhores ingredientes de vários treinadores anteriores do Chelsea.

A “criatura” de Lampard

De José Mourinho, o inglês trouxe o avanço quase sistemático dos homens de meio mais ofensivos. Assim, o time coloca mais pressão na saída de bola adversária. De Maurizio Sarri. os Blues continuaram com a predileção pela posse de bola e saída com trocas de passes no campo de defesa. Além disso, a parceria entre Jorginho e Mateo Kovacic também é fruto do trabalho do antecessor.

Dos treinadores que já passaram por Cobham, Antonio Conte parece ser o mais referenciado. Principalmente no esquema com três zagueiros, em que Azpilicueta se transforma no jogador coringa, a inspiração é nítida. Além disso, os pontas que migram para o interior e os alas com predisposição à profundidade e infiltração são características dos times do italiano.

capitão azpilicueta

O capitão é uma das armas táticas de Lampard (Foto: PL)

Por fim, a pressão extrema logo após a perda da posse de bola tão repetida por Guardiola também foi incorporada. Por sinal, os comandados de Lampard conseguem reproduzir com maestria o conceito difundido mais recentemente pelo espanhol.

Com todas essas partes, os jogadores ainda estão demonstrando aprender um com o outro. Os atletas mais jovens do Chelsea têm entre si e nos veteranos professores próximos. Além disso, assim como seu treinador, os comandados mostram grande capacidade de aprendizado.

Terceiro Tempo: Não é força, é jeito

Como já diria Gustavo Lins, para fazer o gol e virar o placar, não é força é jeito. Por incrível que pareça, essa foi uma das premissas de Lampard em sua carreira como treinador e na atual temporada à frente do Chelsea. A frase pode parecer simples, mas, para aqueles que só dispõem da primeira qualidade, pode ser incompreensível.

No futebol, assim como na vida, há nuances entre o preto e o branco. Entre 8 e 80 existem 72 possibilidades. Assim, o treinador dos Blues baseou-se nesses princípios para estabelecer um plano de administração a longo prazo, feito inédito na Era Abramovich. Seja ou não por conta da sua reputação no clube, o fato é que Lampard conseguiu convencer a todos da importância de se pensar no futuro e olhar para a base – hoje uma das melhores do mundo.

os dois marcaram pelo chelsea no primeiro turno

Os jovens estão entre os jogadores de confiança do técnico (Foto: PL)

Ao longo de toda a história da humanidade temos exemplos da inteligência derrotando a força bruta. Assim, talvez a representação mais conhecida seja a história de Davi x Golias. No esporte, temos diversos casos em que o “cérebro” foi mais importante que os “músculos”. Não é a toa que um dos segmentos de mercado que mais cresce e frutifica é justamente o de inteligência.

Seja como água

Bruce Lee já dizia: “Esvazie a mente de modelos e formas. Seja amorfo como a água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se colocarmos a água numa garrafa, ela se torna a garrafa; se a colocarmos em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir ou pode destruir. Seja água, meu amigo”.

As sábias palavras dizem que a adaptabilidade e a resiliência formam seres indestrutíveis. Assim, não é que a potência do embate não exista, mas a escolha natural deve ser sempre pelo caminho de menor resistência. Entretanto, este pensamento não deve ser confundido com a “Lei do mínimo esforço”, que basicamente exalta a preguiça e a falta de determinação ao escolher um caminho mais “fácil”.

Lampard é o manager

Lampard tem a confiança dos atletas (Foto: GEtty)

Portanto, é certo dizer que o caminho de Lampard no Chelsea é longo e tortuoso. Muitos bravos já caíram antes dele pelo trajeto. Porém, a ligação que o treinador possui com a instituição e as qualidades demonstradas além da concepção futebolística denotam os acertos da gestão e projetam um futuro brilhante para as partes.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.