Terceiro Tempo: É hora de contar as bênçãos na temporada

Em partida válida pela 26ª rodada da Premier League, o Chelsea recebeu o Manchester United no Stamford Bridge e acabou derrotado pelo placar de 2 a 0. O revés contra o antigo rival tem um gosto amargo de injustiça. Isto porque, após o primeiro gol da partida, os Blues poderiam ter empatado se não fosse o tento anulado pelo VAR, que considerou falta de ataque de César Azpilicueta.

A partida foi bem disputada fisicamente com os atletas duelando por cada centímetro de campo. (Foto: SkySports)

Logo em seguida a ironia completou-se com um gol de cabeça de Maguire, que poderia ter sido expulso em lance também verificado pelo árbitro de vídeo, no primeiro tempo, e que poderia ser interpretado como agressão a Michy Batshuayi. Com a derrota, os Blues permanecem em quarto lugar com 40 pontos e assistem à chegada de Tottenham, Sheffield e Manchester United com 40, 39 e 38 pontos, respectivamente.

A lógica do torcedor dita que este seria o momento perfeito para as críticas. Treinador, jogadores, diretoria e arbitragem poderiam ser culpabilizados facilmente. Porém, em vez disso, pode ser o momento de dar um passo atrás e começar a contar as bênçãos. A expressão pode causar estranheza para quem nunca ouviu, principalmente pelo momento ruim mencionado acima.

Contar as bênçãos significa basicamente perceber que algum acontecimento, ou série de eventos, não foi necessariamente ruim ou houve atenuantes que tornaram as situações, senão positivas, ao menos não tão negativas assim.

Primeiro tempo: Renovação a muito adiada

Não é novidade que o Chelsea passa por um processo de reformulação em todas as áreas do clube. Ao longo das últimas temporadas tivemos equipes vencedoras, mas também fracassos inexplicáveis como as segundas temporadas de José Mourinho e Antonio Conte.

Independente dos motivos que justifiquem essa oscilação, o fato é que a torcida já vem pedindo uma renovação do elenco há alguns anos.

Essa renovação veio na forma da perda do principal jogador do time, Eden Hazard, na troca por um treinador mais jovem, Frank Lampard, e na promoção de diversos atletas da base, que é uma das mais fortes do mundo atualmente.

Reece James é uma das jóias da base dos Blues nesta temporada. (Reprodução: UEFA Champions League)

Tammy Abraham, Reece James, Mason Mount, Fikayo Tomori e Callum Hudson-Odoi são a personificação de um novo Chelsea, agora muito mais autossuficiente em material humano.

À parte de James e Abraham, os outros três ainda são muito jovens e precisam amadurecer para poderem dar frutos ao time principal. Não tem outro jeito: O Chelsea deve trilhar o caminho. Não existem atalhos.

Um processo de reestruturação desse porte dura pelo menos três temporadas. É só observar o Liverpool de Jürgen Klopp, que precisou de quatro anos para alcançar glórias dignas de um clube de elite do futebol mundial.

O que pesa contra Lampard e seus garotos é justamente a paciência dos torcedores, da diretoria e do próprio Roman Abramovich, que já demonstrou em inúmeras ocasiões que não tem pudor em se livrar de um treinador. Já são 15 desde que o russo comprou o clube, o que se traduz em uma média de aproximadamente um por temporada.

Segundo tempo: Caindo na real

Outro motivo pelo qual o adepto dos azuis de Londres deve contar as suas bênçãos é a expectativa de desempenho que havia antes da temporada começar.

O Chelsea era visto como um time que iria lutar no meio da tabela ou pela quarta colocação, com muita oscilação dos seus atletas e do seu treinador. Muitos consideravam o elenco limitado e/ou desejavam peças melhores. Isso lhes foi negado pela punição de não poder assinar com novos jogadores por duas janelas de transferências.

Frank Lampard teve poucas opções para trabalhar o elenco no início da temporada. [Foto: Reprodução Twitter @chelseafc]

Somente uma coisa mudou do início da temporada até agora: o nível de expectativa do torcedor. Estamos exatamente onde imaginávamos estar antes da época começar e não é demérito nenhum, muito pelo contrário. O Chelsea está na zona de classificação para a Champions League desde a nona rodada, consistentemente mantendo seu objetivo inicial, apesar de auxiliado por tropeços de rivais diretos pela vaga.

Um dos fatores a se considerar também é a média de idade do elenco, que teve seu 11 titular mais jovem escalado na história da Premier League nesta temporada, na vitória por 2 a 0 contra o Crystal Palace, com uma média de 24 anos e 88 dias.

Para combinar com o esquadrão, a responsabilidade caiu sobre um técnico com somente um ano de profissional. Apesar de ser um dos maiores jogadores da história do clube, Frank Lampard poderia ser considerado tudo menos experiente quando assumiu o clube, que disputa o campeonato mais difícil do mundo.

Outro ponto relevante que prejudicou o desempenho do time e diminuiu as expectativas para a temporada foi a saída de Hazard, que era a principal estrela e, em sua última temporada tornou-se o quarto jogador do Chelsea com participação direta em 30 gols ou mais em uma só temporada da Premier League. O belga uniu-se a Jimmy Floyd Hasselbaink (00/01), Frank Lampard (04/05 e 09/10) e Didier Drogba (09/10) anotando 21 gols e 17 assistências em 52 partidas.

Kanté foi eleito o jogador do ano no futebol inglês na temporada 2016/17. (Foto: Getty Images)

Na atual temporada, os 11 primeiros gols do time marcados por jogadores abaixo de 22 anos podem ter sido como gasolina na pequena brasa das expectativas até do mais cético dos adeptos. Mas, assim como fogo de palha, rapidamente a nossa contundência ofensiva deu lugar a erros defensivos e falta de organização a ponto do intocável N’golo Kanté ter seu papel no elenco questionado.

Porém, nada é motivo para pânico. Nem mesmo as derrotas ou a visível desorganização do time em campo. Vontade há de sobra, diferentemente de alguns anos atrás. Organização só o tempo confere.

Prorrogação: Luz no fim do túnel                                      

Apesar dos tropeços, falta de sorte, falhas coletivas e escalações por vezes bizarras, o trabalho de Lampard no Chelsea tem saldo positivo. Não apenas pelo aproveitamento dos jogadores da base mas também pela tentativa de criação de uma identidade Blue, coisa que o seu time com Didier Drogba, John Terry e companhia tinha de sobra.

A única forma de não queimar ninguém durante esse processo de reestruturação é ajustar as expectativas e ter paciência. Um clube que quer construir uma tradição dentro do futebol não pode se apegar a comportamentos ultrapassados e atitudes imediatistas como todos os “novos ricos” do futebol fazem. O Chelsea já passou dessa fase.

Azpilicueta, Willian e Jorginho são os representantes de Lampard dentro de campo. (Foto: Getty Images)

Está claro que os pilares da gestão do inglês são: resgatar o sentimento perdido de união entre os atletas, identificar lideranças dentro do elenco para impulsionar os demais jogadores, e formar novos ídolos.

Cada técnico tem seus estandartes em campo, os de Lampard se chamam Jorginho, Azpilicueta e Willian. Cada qual com suas características, posições e qualidades, são eles que abrem alas para a nova leva de “senadores” do elenco. As vagas estão abertas. Quem se habilita?

O jovem Tammy Abraham acabou com a “maldição” da camisa 9 e fez falta contra o United. (Reprodução: Chelsea FC)

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.