Terceiro tempo: Chelsea, um clube sem dono

O Chelsea Brasil dá início hoje ao seu novo projeto de publicações semanais. Toda segunda-feira, um dos repórteres da casa trará uma reportagem especial sobre a semana do clube. Pegando carona na principal premiação do cinema mundial (Oscar), segue a sinopse do texto a seguir.

Um time em crise, com jogadores sem confiança e um técnico a beira da demissão. O drama, escrito por uma diretoria omissa tem uma história triste e um final que vai surpreender a todos. Indicado a Melhor Filme, Chelsea, um clube sem dono é a aposta do cinema britânico nesse Oscar.

Primeiro Tempo

Um clube de futebol não consegue vencer sempre. Independente de qual seja ele. Sempre terá boas e más fases. Na temporada 2018/19, o Chelsea parece estar na curva descendente de sua história. A falta de confiança de alguns jogadores e a baixa sintonia com o treinador Maurizio Sarri parecem ruir as estruturas de Stamford Bridge. Longe da liderança da Premier League, os Blues focam nas Copas como principal meio de levantar uma taça na temporada.

É aí que nossa história começa. O cenário é o próprio Stamford Bridge. Vendas esgotadas para a pré-estreia. O adversário é o rival Manchester United, pela Copa da Inglaterra. Desde a demissão de José Mourinho, os Red Devils subiram de produção nas mãos do jovem norueguês Ole Gunnar Solskjaer. Sob uma atmosfera negativa, a partida começa e logo a torcida se preocupa. O time londrino parece, mais uma vez, não jogar bem. Passes errados deixam os ingleses na arquibancada ainda mais nervosos. Pela televisão, milhões em casa também demonstram o descontentamento pelas redes sociais.

Chelsea começou a semana com derrota e eliminação para o Manchester United (Chelsea FC)

Antes do fim da primeira etapa, os Red Devils castigaram o frágil sistema defensivo dos Blues. Herrera e Pogba colocaram o Manchester United na frente do placar para não mais ser alcançado. O resultado de 2 a 0 ligava um sinal de alerta para o técnico Maurizio Sarri. Pressionado, ele sabia que precisava mostrar ainda mais trabalho para não ter um final infeliz na nossa história.

Segundo Tempo

Três dias após a derrota na Copa da Inglaterra para o Manchester United, nossos heróis voltariam para mais uma missão. Agora, convenhamos, bem mais fácil. O Malmo, da Suécia, pela Liga Europa. Após uma vitória por 2 a 1, fora de casa, Sarri decidiu mudar boa parte da equipe e dar ritmo de jogo a atletas que mal vinham jogando.

Aqui cabe uma pausa para observar um easter egg em nossa história. Pois bem, entre as mudanças, uma pouco comentada foi a do goleiro Kepa por Caballero. A decisão foi longe de ser técnica. O arqueiro espanhol mais valioso da história do futebol sofreu um desconforto na coxa que o afastou do duelo. Lembre, esse easter egg ainda será importante até o fim deste longa-metragem.

As alterações deram certo. Giroud, Hudson-Odoi e Barkley formaram a trinca de atores principais daquela noite. Os 3 a 0 não apagavam a dura eliminação contra o Manchester United na partida anterior e por uma outra competição, mas dava o mínimo de confiança para encarar o Manchester City por mais um torneio eliminatório, a final da Copa da Liga Inglesa.

Chelsea vence pela Liga Europa e Hudson-Odoi volta a ser destaque (Chelsea FC)

É importante destacar nesse espaço o trabalho de Maurizio Sarri. O italiano, que vinha sendo criticado por fazer alterações quase nada ousadas, teve um curto período de tempo para rever seus conceitos e mudar peças que não vinham rendendo há um bom tempo. Uma delas era na lateral-esquerda. Marcos Alonso, o espanhol que brilhava ao fazer gols decisivos com a camisa dos Blues, não aparecia mais como outrora e cedeu espaço para o brasileiro naturalizado italiano, Emerson Palmieri. O jovem agarrou a chance com muita vontade e parece estar conquistando aos poucos a confiança da torcida londrina.

Outra mudança que tem o dedo de Sarri é a titularidade de Barkley. Se no começo da temporada Kovacic parecia estar com toda a prosa, agora é o inglês que frequenta o meio-campo ao lado de Jorginho e Kanté.

Prorrogação

Clima de suspense. Casa cheia. Após resultados que causaram apreensão nos torcedores, o Chelsea chegava ao confronto final da nossa superprodução. O adversário era o poderoso Manchester City, que já havia enfiado 6 a 0 na gente há 15 dias. Diferente dos dois cenários anteriores, o de agora era o pomposo Wembley, no qual o Chelsea já colecionou triunfos e derrotas em um passado recente.

Sabendo da dificuldade do rival, Maurizio Sarri entendeu suas limitações e mudou o esquema de jogo dos Blues. Higuain, principal contratação de janeiro ficou no banco de reservas. A trinca de ataque foi formada por Willian, indicado a Melhor Ator Coadjuvante, Pedro e Hazard, que foi esquecido da categoria Melhor Ator. Lá atrás, Kepa, que havia perdido o duelo contra o Malmo pela Liga Europa voltava ao gol.

Do outro lado, os Citizens, cascudos que são, entraram do jeito que gostam. Pep Guardiola, uma espécie de Meryl Streep dos gramados, acumulava mais uma indicação a Melhor Diretor.

Bola rolando! Com mudanças entre os 11 titulares, o Chelsea esperava o City para encontrar a oportunidade certa de encaixar um ataque e abrir o placar. Assim foi o primeiro tempo, com um atacando e outro se defendendo corajosamente.

Na segunda etapa, os Blues mudaram sua postura e foram pra cima. Me arrisco a dizer que tivemos as melhores oportunidades e poderíamos ter definido o resultado. No entanto, não foi isso o que aconteceu e os times terminaram os 90 minutos sem tirar o zero do placar.

Começa a prorrogação! Candidatos a Melhor Ator Coadjuvante em campo. Hudson-Odoi e Higuain entraram para as saídas de Willian e Pedro. No tempo extra, o City voltou a controlar o jogo e teve boas chances de definir a partida e sair vencedor. Mas um bom roteiro estava escrito para a ocasião.

O clímax (ou anticlímax)

Poucos momentos antes de o árbitro encerrar o segundo tempo da prorrogação, nossa história teve um verdadeiro plot twist. Lembram do easter egg do segundo ato do nosso filme? Pois bem, ele aqui volta com toda a força explodindo cabeças. Após uma finalização de fora da área de Aguero, Kepa defende em dois tempos e fica estirado no chão, puxando a perna. Sinal claro de cãibra. Abaixo, vamos conferir cena por cena o ocorrido.

 

Kepa sinaliza lesão após defender chute de Aguero (Divulgação)

 

Caballero é chamado por Sarri para entrar na vaga de Kepa, aparentemente, contundido (Divulgação)

 

Kepa se levanta e sinaliza ao banco que tem condições de jogo (Divulgação)

 

Kepa argumenta com David Luiz que tem condições de jogo. Caballero volta ao banco de reservas e toma bronca por ter saído da lateral de campo (Daily Star)

 

Sarri demonstra nervosismo e grita pedindo a saída de Kepa (Sky Sports)

 

Sarri se levanta do banco de reservas e, ainda mais exaltado, pede a saída de Kepa (Sky Sports)

 

Sarri deixa a beira do campo, volta ao banco de reservas e tem um ataque de fúria (Sky Sports)

 

Indignado, Sarri ameaça deixar o Wembley (Sky Sports)

 

Sarri volta para o banco de reservas e conversa com Zola indicando que não falaria com Kepa sobre a confusão (Sky Sports)

 

Kepa pisca para a câmera tentando passar a sensação de que tudo está sob controle (Sky Sports)

Se preferir, assista a comédia mambembe protagoniza por goleiro e treinador clicando neste link.

Fim de papo no tempo normal. A final da Copa da Liga Inglesa seria decidida na disputa por pênaltis. Visivelmente desestabilizados com o episódio entre Maurizio Sarri e Kepa, o Chelsea começou batendo as penalidades com o nem indicado a Melhor Ator Coadjuvante, Jorginho. O brasileiro naturalizado italiano bateu mal e Ederson nem precisou se esforçar para defender. Para o City, Gundogan fez. Azpilicueta deixou tudo igual, mas Aguero colocou os Citizens na frente de novo. Emerson empatou. 2 a 2. Na batida de Sané, Kepa pulou no canto certo e defendeu a cobrança do alemão. O Chelsea estava de novo na disputa. Mas calma, esse filme é um drama, doloroso e ele tem elementos suficientes para não acabar bem.

David Luiz foi pra bola e perdeu. Logo ele, autor de um dos gols decisivos da conquista da Liga dos Campeões da Europa em 2012 acertou a trave em sua cobrança. Bernardo Silva recolocou o City a frente. Hazard empatou, mas Sterling fez o pênalti decisivo dando a taça para o time de Manchester.

Sem qualquer clima para nada, jogadores e comissão técnica foram para os vestiários. Lá, ninguém sabe o que aconteceu. Já na entrevista coletiva pós-jogo, Sarri fez questão de colocar panos quentes sobre o episódio com o camisa 1 dos Blues.

“Foi um grande mal-entendido. Eu entendi que ele tinha cãibras, então eu não queria que o goleiro fosse para as penalidades naquela condição física”. Eu só percebi a situação depois de três ou quatro minutos quando o médico chegou ao banco. Enquanto isso, eu queria Caballero em campo.”

E completou.

“Kepa estava certo, mesmo que o modo como ele se comportasse estivesse errado. Mentalmente, ele estava certo, ele foi capaz de ir para as penalidades, mas eu só percebi tudo quando o médico foi capaz de vir ao banco, não antes. Eu estava muito bravo.”

O arqueiro espanhol também se posicionou.

“Primeiro de tudo, tenho que dizer que foi mal-entendido. Em nenhum momento foi minha intenção desobedecer, ou algo assim com o chefe. Só que isso foi mal-entendido, porque eu tinha sido atendido pelos médicos duas vezes, e ele pensou que eu não estava em condições de continuar. Foram dois ou três minutos de confusão até os médicos chegarem ao banco e explicarem a situação ao treinador.”

Kepa continuou.

“Isso não tem nada a ver com os problemas que tive esta semana (quando ficou de fora da partida contra o Malmo). Eu sei que se você ver de fora, não é a melhor imagem. Eu falei com o chefe. Eu acho que foi mal-entendido. Eu entendo que na televisão, nas redes sociais, eles estão falando sobre isso, mas eu estou aqui para explicar isso, para dizer que não era minha intenção ir contra o treinador.”

Após o imbróglio, a diretoria preferiu a discrição. Emitiu uma nota nessa segunda-feira e puniu o arqueiro espanhol em um salário semanal, que será doado à Chelsea Foundation. A multa encerra a polêmica que marcou o fim de semana futebolístico no mundo.

Pênaltis

Sem estatuetas para levar para casa, o Chelsea encerrou a semana com outra péssima notícia. A FIFA determinou que o clube está proibido de contratar novos jogadores nas duas próximas janelas de transferências. A medida é um reflexo da política da direção dos Blues, que, segundo a FIFA contratou jogadores menores de 18 anos nessa década, prática essa proibida pela Federação.

Diferente do episódio entre Kepa e Sarri, neste, a diretoria se posicionou e disse que vai recorrer. Os ingleses devem entrar com uma apelação no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e é possível que consiga reverter a situação. Isso porquê o Real Madrid também sofreu a mesma punição em um passado recente e conseguiu, através do TAS, continuar contratando normalmente.

Mesmo assim, diante de um cenário incerto, podemos aqui traçar duas realidades temporais. Vamos a elas:

Chelsea punido

Chelsea recorre ao TAS e não é absolvido. Maurizio Sarri tem o seu contrato quebrado e Gianfranco Zola assume os Blues na próxima temporada. Ídolo do clube, Zola decide dar uma chance a jovens da base e alguns dos mais de 40 jogadores emprestados por times da Inglaterra e do continente europeu. Astros como Hazard saem e o Chelsea passa a ser um clube de meio de tabela, apenas com sonhos de se classificar para alguma competição europeia.

Chelsea absolvido

Chelsea recorre ao TAS e é absolvido. Maurizio Sarri tem o seu contrato quebrado e Zinedine Zidane assume os Blues na próxima temporada. Roman Abramovich volta a dar as caras pelos lados de Stamford Bridge, proporciona ao novo técnico a possibilidade de contratar quem quiser. Já os jovens e demais jogadores emprestados seguem longe de casa. Astros como Hazard permanecem, crescem de produção e o Chelsea volta a ser uma potência, não só na Inglaterra, mas também na Europa.

Chelsea will return…

Willian Guerra

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