O gol fantasma que ainda nos assombra

A Champions League retorna nesta terça-feira ao Stamford Bridge, e o Chelsea Brasil traz uma história que aconteceu na década passada com o clube azul de Londres…

Quando se fala de partidas mais memoráveis da história, não só da UEFA Champions League mas do futebol em geral, o assunto sempre acaba caindo em Liverpool 3 a 3 Milan. Também, pudera, um dos maiores comebacks de todos, vitória do Liverpool nos pênaltis, dois grandes clubes em campo, e como se não bastasse, numa final de Champions League! O grande feito dos Reds ficou conhecido como “Milagre de Istambul”. Mas e se esse momento nunca tivesse sequer acontecido?

Para entender melhor, é preciso voltar algumas semanas no tempo. Mais precisamente para o dia 3 de maio de 2005, quando em seu caminho para a final, o Liverpool enfrentava o Chelsea no jogo de volta das semifinais. Antes da partida, o então comandante do Chelsea (que havia acabado de se sagrar campeão inglês), José Mourinho, afirmou à imprensa que independente do resultado da partida, seus jogadores voltariam para Londres como heróis. Principalmente vindo de alguém como Mourinho, a fala pode ter soado arrogante, uma vez que a primeira partida do confronto terminou empatada em 0x0 no Stamford Bridge, o que não garantia vantagem para ninguém.

Mas, naquele momento, o português tinha motivos reais para estar confiante. Em sua primeira temporada a frente do Chelsea, Mou levantou o caneco da Premier League quebrando inúmeros recordes. E tratando especificamente do Liverpool, o retrospecto era pra lá de positivo: vitória em casa e fora, com o camisa 10 Joe Cole sendo decisivo nas duas oportunidades. Para não falar dos inacreditáveis 33 pontos de vantagem do Chelsea em relação aos Reds na tabela naquele momento.

Todavia, o favoritismo foi chutado para longe tão logo o apito inicial soou. Após passe de Steven Gerrard, o atacante tcheco Milan Baros invadiu a área e tocou por cima de seu compatriota Petr Cech. Na sobra, Luis García finalizou para o alvo, mas o defensor blue William Gallas deu um bico na bola e a afastou para longe. E é aí que a polêmica começa. O árbitro assistente validou o gol, mas para muitos a reação de Gallas foi rápida o suficiente, e aquela bola nunca cruzou a linha. A discussão durou muito tempo, mas os árbitros precisavam tomar uma decisão rápida, e apesar das fortes reclamações dos jogadores de azul em campo, e talvez com a pressão colocada pela torcida do Liverpool, o gol foi validado.

De fato, era um lance difícil, e depois de inúmeros replays na TV, os comentaristas ingleses que transmitiam o jogo concluíram que o árbitro optou pela decisão mais fácil, pois segundos antes da bola cruzar a linha, Cech teria cometido pênalti em sua disputa com Baros. O que não deixaria de ser uma decisão polêmica, já que o arqueiro visou apenas a bola e só chegou a tocar em Baros quando a bola já estava fora do lance. Em fato, foi muito mais uma trombada do que um lance desleal, Cech estava no meio de seu caminho, e o atacante não podia atravessá-lo. O único fantasma naquela noite era o gol de Luis García.

Luis García mira o gol e acerta uma polêmica que parece não ter fim

Depois do gol sofrido logo no início da partida, o Chelsea demorou a se encontrar em campo. Frank Lampard, Didier Drogba e cia não chegavam a levar perigo à equipe de Merseyside. Claro que a estratégia de José Mourinho de um jogo mais cadenciado com Claude Makélélé, Tiago, Lampard e Joe Cole no meio de campo foi por água abaixo, uma vez que tudo que o Liverpool precisava era se fechar. E sabendo que o técnico dos Reds naquela ocasião era Rafa Benítez, foi exatamente o que ele fez. Assim, o primeiro tempo foi mais marcado por discussões do que por futebol jogado.

O segundo tempo começou de maneira semelhante, apesar de algumas chances criadas pelo Chelsea principalmente em chutes de longa distância, o que já indicava um certo desespero. O cadeado vermelho no meio campo era eficaz, e a ideia de Mourinho de ter um jogo mais pensado não funcionava. Além disso, Drogba e Eidur Gudjohnsen não encontravam espaço na frente, naquela que foi uma das maiores exibições do zagueiro red Jamie Carragher. Foi então que Mourinho decidiu fazer mudanças no time, e mandou Arjen Robben (sacado do time titular) e Mateja Kezman para o jogo, tirando até mesmo o homem de contenção Tiago.

O holandês (que ainda tinha cabelos) mudou a cara do jogo, dando muita velocidade pelas pontas, arriscando chutes e servindo os atacantes, mas o gol teimava em não sair. A partida tornou-se um jogo de ataque contra defesa, com o Liverpool se segurando como podia, e numa dessas a equipe de Londres permitiu um contra-ataque dos adversários que Djibril Cissé desperdiçou, numa das poucas chances do Liverpool no final do jogo. O drama ficou ainda maior para os dois lados quando o árbitro indicou seis minutos de tempo adicional: uma eternidade para o torcedor red, um mísero instante para o blue, que tinha a sensação de que se Robben tivesse tido tempo para criar mais chances, fatalmente uma delas teria sido aproveitada. Gudjohnsen ainda teve uma chance valiosa no último lance do jogo, porém naquele sem pulo mandou para fora a bola e a chance da classificação.

Apesar das chances perdidas e das mudanças tardias, é consenso que o que mudou a história daquele jogo foi o gol. Mourinho concorda, tanto é que trouxe a polêmica à tona em algumas outras oportunidades anos depois do ocorrido. Mas, afinal, aquela bola cruzou a linha ou não? O bandeirinha eslovaco Roman Slysko declarou ter 100% de certeza que sim. No entanto, o tira-teima da Sky Sports mostra que talvez ele tenha falado cedo demais. Usando um programa de computador baseado na tecnologia de rastreamento de mísseis, a Sky Sports criou uma imagem tridimensional daquele momento e chegou à conclusão inequívoca: o gol foi incorretamente validado.

Longe dos tempos de tecnologia de linha da bola, rastreamento de mísseis entra em ação para resolver polêmica (Foto: Sky Sports)

Claro que a decisão do árbitro diante de milhares de torcedores do Liverpool foi difícil, e que o olho humano é incapaz de captar com precisão movimentos tão rápidos. A arbitragem deve ser absolvida de qualquer culpa. Além disso, nunca saberemos o que poderia ter acontecido se o gol não tivesse sido marcado. O efeito borboleta poderia ter provocado até mesmo uma vitória do Liverpool de outra maneira, tratava-se de uma equipe duríssima. Talvez o Chelsea realmente não estivesse preparado para disputar uma final de UEFA Champions League, e se tivesse passado, poderia ter sido derrotado pelo Milan.

A decepção pelo gol fantasma certamente foi importante para os membros daquele elenco, que se tornaram muito mais maduros, e até mesmo para a torcida, que aprendeu a lidar com as grandes decepções que um grande clube com grandes pretensões traz. Mas, ainda é decepcionante e de certa forma até revoltante pensar que, se tivesse acontecido nos dias de hoje, a tecnologia de linha do gol poderia salvar os Blues, como já salvou em oportunidades mais recentes. Ou que, se tal tecnologia já existisse anos atrás, o Chelsea poderia até mesmo ter se sagrado campeão da competição de clubes mais cobiçada do mundo logo em 2005, no primeiro ano de grandes investimentos no clube, conquistando uma histórica tríplice coroa (Champions League, Premier League e League Cup).

Porém, os tempos mudaram. Todos os membros daquela equipe já deixaram o clube, a tão sonhada Champions League foi conquistada, a revanche com sabor de vingança sobre o Liverpool veio (muitas e muitas vezes) e o Chelsea vive hoje outros desafios. Mas apesar do discurso de que isso são águas passadas, García ainda insiste em trazer pesadelos aos torcedores. Aquele gol é um fantasma que ainda vai assombrar os blues por um bom tempo.

Category: Conteúdos Especiais

Tags: