Na História: O primeiro título da FA Cup

Como o Chelsea deu o sangue para garantir a primeira Copa da Inglaterra de sua história

Chelsea e Arsenal se enfrentam na final da FA Cup no dia 1º de agosto. Os Gunners são os maiores campeões da competição com 13 taças. Já os Blues colecionam 8 títulos, sendo o último em 2017/18. Além disso, a partida é a primeira oportunidade concreta de prataria para ambos os treinadores, que estão em sua primeira temporada na Premier League.

Entretanto, a história vencedora do Chelsea na Copa da Inglaterra começou somente em 1970. Do chamado “Big Six”, os Blues foram os últimos a conquistar pela primeira vez a honraria. Até então, os londrinos haviam chegado a duas finais e perdido ambas. A primeira para o Sheffield United, em 1915, e a segunda para o Tottenham, em 1967. Assim, os pensionistas da época garantiram a conquista em cima do fortíssimo Leeds United.

A estrada até a final

Dentro de campo o Chelsea era uma equipe forte e competitiva. Sob o comando de Dave Sexton, o clube tinha em jogadores como Ron Harris, Peter Bonetti e Ian Hutchinson algumas de suas estrelas. Contudo, o grande astro da companhia era, sem dúvidas, Peter Osgood. Aos 23 anos, o jovem atacante era um dos mais promissores, ainda que polêmicos, talentos do futebol inglês.

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Sexton era o treinador da época (Foto: arquivo Chelsea)

Assim, além da chegada na final da copa doméstica, os Blues terminaram a liga nacional na terceira colocação. Já o Leeds era uma das principais forças do campeonato e havia eliminado o Manchester United na semifinal. Portanto, chegava ao Wembley como favorito ao título. Apesar disso, esperava-se que o Chelsea jogasse de igual para igual.

No dia 3 de janeiro de 1970 os azuis começaram a caminhada rumo ao título contra o Birmingham. O jogo terminou com um tranquilo 3-0 com gols de Osgood e Hutchinson, duas vezes. Na fase seguinte, a vítima da vez foi o Burnley. Entretanto, o Chelsea precisou de dois jogos para vencer os adversários. Após empate por 2-2 na primeira partida, os londrinos suaram para garantir o lugar nas oitavas de final com um 3-2.

Nas três etapas seguintes, Osgood e o Chelsea brilharam dentro de campo. Enquanto nas oitavas o baile foi para cima do Crystal Palace (4-1), nas quartas o time atropelou o Queens Park Rangers (4-2) com três gols do atacante. Já nas semifinais, o Watford sofreu com o ataque fulminante dos Blues e terminou eliminado por 5-1. Assim, a final guardava o Leeds do lendário treinador Don Revie.

Equilíbrio em dois jogos

Com a data marcada para 11 de abril de 1970, no antigo Wembley, cerca de 100 mil torcedores acompanharam o primeiro dos dois jogos necessários para se conhecer o campeão da temporada. Na primeira partida, o Leeds começou melhor e logo abriu o placar em saída errada de Bonetti. Todavia, após o gol os Blues saíram mais para o jogo e, antes do intervalo, conseguiram empatar em chute de fora da área que o goleiro adversário aceitou.

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O 11 titular do Chelsea na temporada (Foto: arquivo Chelsea)

Após 40 minutos corridos da segunda etapa, o Leeds conseguiu a vantagem novamente após grande pressão, bolas na trave e grandes defesas do arqueiro azul. Todavia, dois minutos depois o Chelsea empata em cabeçada de Hutchinson, levando a partida para a prorrogação. Assim, com os dois times cansados, o placar permaneceu inalterado e, como não havia disputa de pênaltis, a final seria decidida em replay.

A batalha em Old Trafford

Devido às péssimas condições do gramado, o replay foi transferido para o Old Trafford, casa do Manchester United. A partida foi tão inusitada que, até hoje, foi a única final disputada fora do Wembley em mais de 70 anos. O antigo estádio recebera todas as decisões, incluindo replays, de 1923 até 2000.

O público da partida superou os 62 mil torcedores, mas o número histórico veio pela televisão. Cerca de 28 milhões de pessoas assistiram à partida, tornando-se a sexta maior audiência televisiva da história da Grã-Bretanha até 2005. Além disso, a partida se tornou o segundo evento de futebol mais assistido de todos os tempos, perdendo apenas para a final da Copa do Mundo de 1966, quando a Inglaterra se sagrou campeã.

Os 90 minutos

Com a bola rolando, o jogo ficou marcado pela violência. Anos depois, a decisão ainda é conhecida como uma das mais faltosas e desleais da história da Copa da Inglaterra. Entretanto, em sua última partida profissional, o árbitro Eric Jennings, só aplicou um cartão amarelo. Revendo o duelo anos depois, o ex-árbitro considerou que foi econômico. Ele deveria ter distribuído seis cartões vermelhos e 20 amarelos entre os dois times.

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O jogo foi um dos mais violentos da história (Foto: arquivo Chelsea)

Apesar disso, houve muito futebol demonstrado também. Logo no começo, era o Leeds novamente quem tomava as ações do jogo. Contudo, o Chelsea não se acovardou em nenhum momento, o que garantiu um grande espetáculo. Quem abriu o placar foram os Peacocks após contra-ataque fulminante finalizado por Mick Jones, que também havia marcado em Wembley.

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Gol de Webb deu o título para o Chelsea (Foto: arquivo Chelsea)

O empate heroico dos Blues veio somente na segunda etapa com Osgood de cabeça após cruzamento de Cooke. Em meio à pancadaria e brigas, o jogo seguiu mais uma vez para a prorrogação. No entanto, desta vez os deuses do futebol estavam do lado dos londrinos. Após cobrança de lateral de Hutchinson direto para a área, a defesa falhou em afastar e o zagueiro David Webb completou de cabeça para as redes. O camisa 6 subiu mais alto que todos na segunda trave para garantir o primeiro título da FA Cup do Chelsea.

Confira os gols:

A estrela de Peter Osgood

Apesar da violência, o jogo não economizou em emoção. A final marcou uma época em que o futebol inglês se baseava muito no contato físico e nos lançamentos para dentro da área. Quem se beneficiava amplamente desse tipo de jogo era o artilheiro Peter Osgood. O natural de Berkshire fez sua estreia pelo time profissional dos Blues aos 17 anos, marcando os dois gols da vitória sobre o Workington AFC.

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Peixinho de Osgood deu esperanças aos Blues na final (Foto: arquivo Chelsea)

Assim, a partir daí foram 30 gols só nos primeiros 20 jogos com a camisa azul dos reservas e um tíquete para o time titular. Osgood perdeu a decisão de 1967 por lesão. O “Mágico de Os”, como é lembrado pela torcida, teve 289 aparições pelo clube marcando 105 gols. Além disso, ele foi um dos únicos nove jogadores a marcar em todas as rodadas de uma FA Cup. Até hoje é o último a fazê-lo.

Na campanha do título de 1970, Osgood foi imprescindível para assegurar o troféu. Apesar da fama de playboy e das noitadas regadas a álcool e mulheres, seus três gols contra o Burnley, a parceria com Ian Huthinson e o tento marcado de peixinho na final ficarão marcados para sempre na memória do torcedor.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.