Lupa Tática: E se o Chelsea jogasse como o Bayern?

Como o time dos Blues funcionaria se calçasse os sapatos dos comandados de Hans Flick

A rodada de quartas-de-final da UEFA Champions League carimbou de vez o Bayern de Munique como um dos times mais fortes do mundo. Mas você deve estar se perguntando: e o que eu, torcedor do Chelsea tenho a ver com isso? Eu explico. Os Blues tiveram imensas dificuldades em lidar com as investidas alemãs em ambas as partidas das oitavas da competição. Assim, um dos questionamentos que surgiram foi: e se os londrinos espelhassem a estratégia de Hans-Dieter Flick?

Kanté contra o Bayern de Munique

Kanté foi o capitão contra o Bayern (Foto: Getty)

Pois bem, o exercício servirá para mostrar quais peças se encaixam na tática bávara e quais seriam as vantagens se fosse trazida para Stamford Bridge. Para a análise, serão consideradas as formações e atletas mais utilizados, além das similaridades nas funções. Para esta proposta, serão consideradas as novas contratações Timo Werner e Hakim Ziyech. Além disso, a especulação sobre Ben Chilwell será tratada hipoteticamente como negócio certo, para completar o pensamento.

Para ser mais didático, resolvi dividir por setores do campo. Assim, em cada seção trará a adaptação para a realidade do Chelsea e, em seguida, o comportamento dos jogadores nos momentos defensivo e ofensivo. Apertem os cintos porque a Lupa Tática desta semana começa agora.

Defesa

Ambas as equipes utilizaram a linha com quatro defensores por mais jogos na temporada. O setor dos alemães é formado normalmente por Neuer, Pavard, Boateng, Alaba e Davies. Para comparação, nos “Blues novo estilo” serão escalados Kepa, James, Azpilicueta, Zouma e Chilwell. A diferença para os bávaros é que o lado direito será o mais ofensivo, em vez do flanco esquerdo, devido às peças disponíveis.

Christensen contra Davies na Champions League

Davies é uma das armas ofensivas do Bayern

Assim, Kepa pode fazer bem o papel com os pés, apesar da queda na capacidade de defesas entre as traves. Já James, apesar de mais lento, pode cumprir com a função de Davies e proporcionar sobrecarga ofensiva. O capitão Azpilicueta será a peça-chave do esquema pois fará as vezes de Alaba, orquestrando o ataque vindo de trás e liberando James, ao mesmo tempo que pode cobrir os espaços deixados. Zouma e Chilwell podem emular, respectivamente, o zagueiro central Boateng e Pavard.

Momento defensivo

O Bayern de Flick estreita a amplitude de sua linha defensiva para evitar bolas pelo meio. Entretanto, essa estratégia deixa os flancos livres. Ou seja, a linha deve se movimentar como uma só lateralmente para cobrir os espaços. Outras características importantes dos atletas no esquema bávaro são a rápida recomposição e inteligência no posicionamento.

linha alta

A linha defensiva sempre sobe para garantir a coesão (Foto: Reprodução Football Made Simple)

Ao contrário, a defesa azul acaba sendo aberta com facilidade, seus jogadores ficam muito espaçados e a linha de impedimento funciona pouco. Contudo, os jogadores podem ser adaptados ao novo estilo com facilidade. A principal dúvida é se James consegue reagrupar rapidamente e manter a coesão da linha.

Momento ofensivo

Na hora do ataque ou da primeira pressão, a defesa fica praticamente na linha do meio de campo. Promovendo sempre a compactação, normalmente a saída de bola acontece do goleiro para um dos zagueiros. A partir daí, duas situações podem ocorrer: ou o primeiro homem de meio recua entre os defensores para iniciar o lance, ou o ala mais ofensivo (James) é liberado e os outros três formam uma trinca defensiva.

davies avança

A isca para um lado permite o avanço do ala mais ofensivo (Foto: Reprodução Tifo Football)

O Chelsea já está acostumado com o esquema de três defensores. Todavia, a estratégia principal para conseguir liberar James é a “isca para inversão”. Nela, a linha permanece intacta até a bola chegar ao lateral mais defensivo. Então, rapidamente, a bola é invertida e o ala consegue avançar mais uma linha. Até aí nenhum problema para os atletas dos Blues. Além disso, em outras situações, ambos os alas ultrapassam os pontas para “aumentar” o campo.

Veja também: Azpilicueta avalia temporada e reconhece problemas na defesa do Chelsea

Meio campo

O 4-2-3-1 de Flick não é desconhecido para Lampard, já que o utilizou no começo da temporada. Entretanto, os bávaros têm uma peça que falta aos londrinos: Kimmich. O alemão poderia ser considerado uma mistura de Kanté e Jorginho, no que se refere às suas funções. Além de marcar, o polivalente jogador ainda é quem começa as jogadas. Assim, preferi privilegiar o DNA ofensivo e escalar o ítalo-brasileiro. Ao seu lado, Kovacic faz – e muito bem – o papel de Thiago.

Thiago Alcântara em ação

A qualidade de Thiago compensa a falta de um ‘camisa 10’ armador (Foto: Getty)

Já a linha de três meias tem em Pulisic, Mount e Ziyech os substitutos de Gnabry, Muller e Coman, respectivamente, sem perdas significativas de qualidade. Porém, todos os Blues são menos intensos que os jogadores do Bayern, ofensiva e defensivamente. Apesar disso, os dois wingers fazem bem a função de armar as jogadas, enquanto Mount tem paralelo na movimentação e capacidade de conexão de Muller.

Momento defensivo

Uma das principais diferenças é o posicionamento das linhas, já que Flick mantém três e não duas. Ou seja, os volantes formam uma “mini-linha” entre os meias e a zaga, que funciona como um “para-brisa” e cobre toda a extensão lateral do campo. Além disso, os três ofensivos funcionam como uma represa para os avanços da defesa adversária, mantendo os oponentes sempre distantes entre si.

Posicionamento defensivo do Bayern

Bayern joga com três linhas em vez de duas (Foto: Reprodução Categoria Canal)

Apesar disso, em momentos de grande pressão, os pontas/meias tornam-se alas e o esquema tático se fortalece em um poderoso 6-2-1-1. Assim, o meia central fica livre para ser opção de contra-ataque, podendo recuar para pegar a bola ou avançar e ganhar pelo alto uma eventual “esticada”.

Momento ofensivo

Normalmente é o primeiro homem que recua para iniciar a jogada, mas eventualmente o meia central também o faz. Ambos os atletas dos Blues têm essa facilidade. Contudo, o que acontece com mais frequência é o avanço do segundo homem para se unir ao ataque. Assim, forma-se um 4-1-4-1, se o ala permanece em seu lugar, ou um 3-1-2-4, com ele agrupando-se ao ataque.

Movimentação ofensiva do Bayern

Os pontas se movimentam para povoar o meio (Foto: Reprodução Football Made Simple)

Além disso, a centralização dos pontas é imprescindível para a criação de jogadas. Enquanto isso o meia central funciona como referência de passe e não carrega muito a bola. Assim, ele fica livre para se movimentar (o que deve ser sua principal função). Mount conseguiria com perfeição emular o papel. Por fim, os wingers, normalmente Pulisic neste caso, entrariam espetados para receber passes por trás da zaga e assistir ou marcar.

Ataque

O ataque será analisado como uma trinca entre os wingers e o centroavante. No Bayern, Gnabry e Coman são a contraparte de Pulisic e Ziyech, como já dito. Contudo, quando analisados como uma unidade, os jogadores são o cérebro do ataque bávaro no esquema de Flick. Seja por meio da movimentação incessante, da troca de posições ou qualidade técnica das peças, todos são versáteis e podem atuar em qualquer parte do terço ofensivo.

Ataque do Bayern

A primeira marcação acontece com o ataque (Foto: Getty)

A diferença quando se aplica essa estratégia aos Blues é que Coman é muito mais incisivo que Ziyech. Talvez o francês se assemelhasse mais a Odoi, mas o inglês não tem nem de perto a qualidade de criação necessária. Além disso, a centralização que a nova contratação do Chelsea é capaz de fazer o torna a peça certa. Tanto Werner quanto Pulisic, guardadas as devidas proporções, podem fazer as vezes de Lewandowski e Gnabry.

Momento defensivo

A infantaria da marcação é liderada pelo centroavante e ele deve ser inteligente e dinâmico o suficiente para marcar ambos os zagueiros. Enquanto isso, os pontas tiram a linha de passe para os laterais adversários e Kovacic teria de unir-se a Mount para tirar o passe pelo meio. Apesar de todo o time ocupar o campo de ataque para pressionar, os cinco primeiros jogadores dessa pressão são imprescindíveis.

Movimentação dos pontas

Os pontas cortam a linha de passe para os laterais (Foto: Reprodução Football Made Simple)

Todavia, essa tática pode ser perigosa contra times habilidosos na saída de bola. Mas, para anular a ameaça, o “volante” cobre junto com os laterais as bolas longas e os zagueiros devem anular o centroavante adversário. Assim, a pressão é realizada como um todo e os oponentes ficam literalmente sem saída a não ser a bola longa, quando der certo.

Momento ofensivo

A principal movimentação da trinca, além das trocas de posição é a centralização dos wingers. Isso permite que os laterais ultrapassem e, mais importante, que o meio tenha superioridade numérica para criar entre as linhas com cinco jogadores. Além disso, esse posicionamento favorece a recuperação rápida da bola.

Linha de passe do Bayern

O time sempre busca linhas de passe verticais para atacar (Foto: Reprodução Football Made Simple)

O centroavante é importante também para criar as jogadas. Assim, é comum ver Lewandowski atrás dos meias para buscar o jogo. Porém, quando a jogada chega no 1×1 pelas laterais, seja com um dos pontas ou um dos alas, os outros quatro ou cinco jogadores estão dentro ou na entrada da área para criar sobrecarga e dar opção de passe, o que também pode ser facilmente ajustado.

Conclusão

Cada treinador é único em seu jeito de enxergar o futebol. Existem tantas estratégias quanto managers no mundo. Entretanto, é curioso ver que, quase com as mesmas peças, o time do Chelsea poderia se comportar de forma completamente diferente em todos os aspectos. A única similaridade entre as estratégias talvez seja a pressão alta, mesmo que a defesa de Lampard não suba e seu time seja muito menos compactado.

Veja também: 2019-20: ano de mudanças, adaptação e renovação

Hans-Dieter Flick é um dos expoentes da escola alemã de treinadores. Os brasileiros devem lembrar que ele era auxiliar técnico da Alemanha de Joachim Low em 2014 (sim, o 7-1). Portanto, disciplina tática, sistema defensivo sólido e intensidade são características inerentes. Além disso, este Bayern especificamente leva o ataque pelos flancos, jogo de posição e a pressão incessante a um outro nível.

Análise do Bayern

Ataque pelos flancos, jogo de posição e pressão constante são alguns dos atributos do time de Flick (Foto: Reprodução Tifo Football)

Assim, pode-se dizer que as principais dificuldades do Chelsea em implementar as estratégias de Flick sejam a intensidade e versatilidade dos atletas. Quando analisados um a um pelas qualidades técnicas, não há tanta discrepância. Porém, quando olhados em um contexto e por suas funções dentro de campo, as deficiências dos Blues tornam-se evidentes.

Apesar de tudo isso, o veredito é que os azuis de Londres poderiam sim adaptar todas ou quase todas as ideias dos bávaros ao seu jogo, mesmo com peças que não proporcionariam os mesmos resultados. Exemplos disso são a discrepância entre os goleiros, a pouca velocidade de James, a baixa aptidão defensiva de Jorginho e a intensidade do trio ofensivo.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.