Opinião: Mourinho com as costas contra a parede

Mourinho tem enfrentado seu pior início de temporada desde 2003 (Foto: Chelsea FC)

Mourinho tem enfrentado seu pior início de temporada desde 2003

Como de costume, José Mourinho se apresentou na sala de conferências de Cobham para dar sua entrevista coletiva. Diferentemente das outras corriqueiras entrevistas, esta tinha um ar pesado, mais do que o normal para uma entrevista do Special One. Pouco menos de uma semana antes havia ocorrido a famosa discussão com Eva Carneiro, que praticamente foi o único assunto discutido na imprensa sobre o time azul, e com razão.

Mourinho se sentou na sala de conferências e leu uma declaração, previamente escrita, sobre o caso, confirmando a todos que a Doutora Eva estava mesmo afastada do banco de reservas da equipe. Logo após ler a declaração, Mourinho afirmou que só aceitaria perguntas relacionadas a futebol, e que caso alguém fizesse alguma pergunta sobre qualquer outro assunto, ele não responderia e mais, iria embora da sala.

Quando o primeiro jornalista abriu a boca, Mourinho retrucou “Não pergunte o que eu sei que você vai perguntar! Se você perguntar isso, eu vou embora”. Nada impediu o jornalista de questionar Mourinho sobre Eva Carneiro. Mou se levantou e foi saindo da sala, dizendo “Pronto. Estou indo embora, tenham um bom fim de semana”. Contudo, a seu lado, estava o Diretor de Comunicações do Chelsea, o senhor Steve Atkins, que cordialmente pediu para Mourinho voltar e se sentar novamente. O português obedeceu. Mas não sem antes fazer uma cara de irritado e dar as costas para os jornalistas.

Diretor de Comunicação do Chelsea teve que conter Mourinho em ataque de fúria (Foto: Chelsea FC)

Diretor de Comunicação do Chelsea teve que conter Mourinho em ataque de fúria

A raiva aparente de José Mourinho claramente tem a ver com o caso Eva Carneiro, mas também pode ter a ver com outras questões internas, dos vestiários. Quanto ao problema com a equipe médica do Chelsea, a imprensa tem tratado Mou como arrogante e errado em sua posição de denegrir publicamente a imagem de Eva e do fisioterapeuta Jon Fearn e posteriormente ainda afastá-los de suas funções; sendo que aqui mesmo no Brasil, entre torcedores do Chelsea, é praticamente consenso que Mourinho errou no caso, opinião que assino em baixo.

Todos nós sabemos o quanto Mourinho pode ser arrogante e sistemático, a questão é que desde sua saída mais que conturbada do Real Madrid, com indisposições com elenco, diretoria e torcedores, tínhamos nos acostumado a ver um Mourinho mais calmo, paciente, apesar dele manter a mesma faceta arrogante de outros dias.

Para piorar a situação, dois dias depois desta entrevista, no domingo, seu time caiu de forma inquestionável para o Manchester City, um dos principais rivais na luta pelo título. Foi a primeira derrota de Mourinho para um time do top-4 da tabela do campeonato inglês desde seu retorno para Stamford Bridge, Mais que isso, foi a segunda derrota em três jogos oficiais e, se contarmos o empate com o Swansea City, este é o pior início de temporada de Mourinho desde 2003, quando treinava o Porto.

Contando todos os jogos desde que o Chelsea voltou de férias, incluindo os de pré-temporada, os Blues não venceram um jogo sequer em 2015/2016. São quatro jogos de pré-temporada (duas derrotas e dois empates) e três jogos oficiais (derrotas para Arsenal e Manchester City e empate com o Swansea), sendo que as duas derrotas para rivais/concorrentes na temporada foram de forma incontestável, com o time de Mourinho passando longe de mostrar um bom futebol, pelo contrário, fazendo apresentações medíocres. Na partida contra o Arsenal, por exemplo, Mourinho levou um baile tático de Arsène Wenger.

Ou seja, as coisas não estão boas nem dentro, nem fora de campo. Para piorar a situação, José Mourinho substituiu John Terry no intervalo da partida contra o City sem motivo aparente. O zagueiro não se contundiu e mais tarde, após a partida, Mou afirmou ter sido uma substituição por questão técnica. Foi o suficiente para a imprensa especular um mau momento do treinador nos vestiários, até porque não foi apenas um zagueiro não contundido que foi substituído, foi o capitão e líder do grupo, que, em tese, teria um papel a desempenhar na busca por uma virada na partida.

Se há algum problema interno, de vestiários, não sabemos. Se há e ele surgiu com a atitude exagerada de Mourinho em relação a Eva Carneiro, não sabemos também. Mas a impressão que dá, e que deu aos comentaristas brasileiros e ingleses, que ambos fizeram este mesmo comentário depois do jogo de domingo, é que o clima do time e no clube parecem pesados, como se houvesse alguma indisposição em algum dos eixos.

Chelsea não tem demonstrado bom futebol em campo (Foto: Getty Images)

Chelsea não tem demonstrado bom futebol em campo (Foto: Getty Images)

Outro fator que tem chamado a atenção negativamente de torcedores e da imprensa na Inglaterra é a falta de investimento dos Blues em contratações. Até agora chegaram o goleiro Asmir Begovic, para substituir Petr Cech como reserva de Thibaut Courtois; Falcao García, contratado por empréstimo para a vaga de Didier Drogba; e Baba Rahman, que chegou no último domingo para a vaga de Filipe Luís. Chegou também o brasileiro Kenedy, mas não dá para cogitá-lo ainda com uma contratação que surta efeito no grupo.

Fora estas reposições, o Chelsea não fez nenhuma contratação para melhorar seu elenco, para dar mais profundidade, opções, qualidade ao grupo. O único reforço para o ataque chegou por empréstimo. Não é que a torcida (ou eu) esteja cobrando que o Chelsea gaste seus muitos milhões de outros tempos para trazer jogadores astronômicos, mas pelo menos melhorar o plantel é preciso, como faz qualquer clube de futebol e como fez o Chelsea nos últimos anos.

Na penúltima temporada fomos atrás de Willian, André Schürrle, Kurt Zouma e Nemanja Matic. Na última, trouxemos Diego Costa, Loïc Remy e Cesc Fàbregas, além de reintegrar Courtois ao grupo. Ou seja, o Chelsea não gastou absurdamente, mas trouxe peças que são/foram importantes para o crescimento e fortalecimento do grupo. Já nesta janela, isto não aconteceu e o Chelsea acaba ficando para trás.

Todos os outros concorrentes se reforçaram, menos os Blues. O Manchester City foi atrás de Raheem Sterling. O Liverpool contratou Roberto Firmino, Christian Benteke, Danny Ings, Nathaniel Clyne e James Milner, todos bons jogadores. Já o Manchester United trouxe nomes de peso como Bastian Schweinsteiger, Morgan Schneiderlein, Matteo Darmien e Memphis Depay, todos também ótimos jogadores. O Arsenal, por fim, contratou ninguém mais, ninguém menos que Petr Cech.

Atacante colombiano foi muito bem recebido pelo companheiros (Foto: Chelsea FC)

Única contratação de mais impacto chegou por empréstimo e sob áurea de dúvidas (Foto: Chelsea FC)

O elenco do Chelsea continua sendo um dos mais fortes da Inglaterra, mas já ficou mais do que provado, nesta temporada e em alguns momentos da última, que falta profundidade nele. Os Blues jogam praticamente com os mesmos 11 titulares em todos os jogos e são raras as substituições. Por isso mesmo era de se esperar um Mourinho, ou um Chelsea, mais ativo no mercado, coisa que não está acontecendo.

Nas últimas partidas, ficou claro que o sistema de jogo do treinador português já está manjado, fácil de marcar e de conter. E não há na cartilha de jogo do time, pelo menos me parece isso ao ver os jogos dos Blues, variações para situações diferentes do jogo.

E, aparentemente, o clube está atrás apenas de mais um zagueiro, John Stones, para fechar o grupo. Parece pouco, até porque o time claramente carece de opções para a armação, para a ligação entre os volantes e Diego Costa. Basta ver como a lesão recente de Oscar deixou o treinador sem opções para a função. E parece pouco buscar apenas um zagueiro, principalmente pois o principal objetivo da temporada é fazer mais bonito na Champions League do que na temporada passada, quando o Chelsea chegou às oitavas-de-final, apenas, do torneio.

E se formos olhar não só os elencos da Inglaterra, mas os europeus, com Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique ainda mais fortes, não dá pra imaginar que com o elenco atual, o Chelsea possa fazer frente a eles, a não ser como zebra, como em 2012.

A temporada começa mal, e em todas as frentes: dentro de campo, fora de campo, e em bastidores. E com Mourinho, infelizmente, como protagonista em todas elas. Resta saber que tipo de atitude ele irá tomar. Se passará a ter as rédias das situações e conseguirá reverter este mal começo, ou se preferirá seu orgulho, que muitas vezes o atrapalha, e voltará a vestir a pior máscara, aquela mesma que ele usou em sua última temporada no Real Madrid.

As palavras contidas nessa reportagem condizem à opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea Brasil

Márcio Canedo