#FalaBlue – O ajuste tático e o resgate do convencimento

Por Rodolfo Costa

O Chelsea venceu e convenceu. A vitória sobre o Manchester United no último domingo foi expressiva e mostrou que o clube pode sonhar voos mais altos na atual temporada. Ao que tudo indica, os erros táticos cometidos nas últimas partidas — e escancarados no jogo anterior, contra a Roma, pela Liga dos Campeões -, foram corrigidos. Méritos para o treinador Antonio Conte, que foi cirúrgico no ajuste promovido diante dos Red Devils. Aos poucos, o italiano dá sinais de que retomará os acertos e deixará os erros no passado.

A mudança não foi brusca. Apenas uma linha tênue separava o sucesso do insucesso do Chelsea na temporada. Ao modificar o posicionamento de Eden Hazard de ponta para atacante, mais móvel e flutuante, Conte precisava de uma estratégia que preenchesse o vazio defensivo deixado pela ausência da transição feita quando o belga ainda era um ponteiro.

Sem o recuo do belga ao meio-campo para preencher os espaços na esquerda e assegurar a compactação no 5-4-1 quando o time não tem a bola, era necessário reforçar o meio-campo. E o fortalecimento veio. A entrada do francês N’Golo Kanté na equipe titular era prevista, mas manter o compatriota Tiemoué Bakayoko e o espanhol Cesc Fàbregas foi uma decisão providencial e precisa, mudando a equipe de uma espécie de 3-4-1-2 para um robusto 3-1-4-2.

O dever de casa foi devidamente executado. Contra a Roma, o espanhol Pedro Rodriguez foi escalado para fazer o corredor direito. Esforçado, ele desempenhou as transições ofensivas e defensivas que dele são exigidas. Mas o mesmo não aconteceu no flanco esquerdo, onde Hazard supostamente deveria desempenhar as mesmas alternâncias entre as faixas de campo. Não realizou porque o belga não é mais um ponta.

Como alertado anteriormente pelo Chelsea Brasil, a presença mais marcante de Hazard no ataque enfraqueceu o meio-campo da equipe contra a Roma. O desajuste possibilitou a equipe italiana de executar os principais ataques pelo lado direito de ataque. Com a trinca no meio-campo contra o United, o jogo se inverteu. A equipe de Conte ganhou mais consistência e solidez para defender, sem abdicar do ataque. (veja imagem 1 abaixo)

Ao todo, os jogadores do Chelsea deram 18 chutes. Desses, sete obrigaram o goleiro espanhol De Gea a fazer uma defesa, e um estufou as redes, na cabeçada do compatriota Álvaro Morata, completando um cruzamento do compatriota César Azpilicueta. Outros quatro chutes foram bloqueados pelos Red Devils. Um massacre em chances criadas. Em toda a partida, os atletas rivais chutaram 10 vezes, sendo que apenas dois obrigaram defesa do belga Thibaut Courtois.

Com o meio-campo criando e congestionando as investidas dos rivais, o meio-campo do United pouco conseguiu produzir. A trinca formada por Kanté, Bakayoko e Fàbregas conseguiu anular a equipe do português José Mourinho. Um banho tático que o treinador não esquecerá tão cedo. Ao que tudo indica, dada a expressividade da vitória, o 3-1-4-2 será o novo esquema adotado pelos Blues.

O novo sistema possibilitou um perfeito encaixe no jogo desempenhado por Bakayoko e Fàbregas. Para o espanhol, ter Kanté na retaguarda dá mais segurança para chegar mais ao ataque e participar da armação. Para o novo contratado, abre a possibilidade de adentrar mais vezes à área adversária para chutar e cabecear. Um jogo de que possibilita a profundidade e infiltração dos dois na área adversária. Tudo sem abrir mão da defesa e compondo melhor os espaços (note o miolo do meio-campo na imagem anterior).

As vantagens do meio-campo melhor posicionado e povoado permitiu, ainda, a retomada da amplitude dos alas. Com menos pressão defensiva, os alas têm mais condições para apoiar chegar à linha de fundo ou cair em diagonal para a área. A ala esquerda, por sinal, foi a mais favorecida. Contra a Roma, Azpilicueta, Pedro e o capitão Gary Cahill ocuparam a o lado direito, enquanto o lado esquerdo foi preenchido por apenas Alonso e Rudiger.

O reflexo da ocupação de espaços na esquerda é notável. Sob apenas a ótica das ocupações por Bakayoko e Alonso nas duas últimas partidas, é possível notar uma diferença considerável. Contra a Roma, o mapa de calor mostra uma marca espalhada e pouco concentrada (veja imagem 2). Diante do United, a zona esquerda foi melhor preenchida (veja imagem 3).

A ocupação mais homogênea dos espaços fica ainda mais evidente quando se compara o meio-campo e as alas nas duas partidas (imagem 4). Contra a Roma, uma vasta ocupação na direita, com uma esquerda mais enfraquecida, e pouca presença no miolo do meio-campo. Diante do clássico contra os Red Devils, uma presença uniforme na esquerda, direita, e no centro do campo. (imagem 5).

O ajuste tático tem o dedo de Conte, mas há que se valorizar o elemento chave no esquema: Kanté. Incansável e dono de uma absurda inteligência defensiva, que o permitiu antever as principais ações do United e interceptar contra-ataques, ele foi o principal responsável por dar mais segurança para os ataques dos alas e dos centro-campistas Bakayoko e Fàbregas. A qualidade técnica do francês fez, sem sombra de dúvidas, uma grande diferença na inteligente ocupação dos espaços no meio-campo no novo esquema.

A vitória no clássico foi uma importante injeção de ânimo na torcida e na equipe. Resta, agora, saber se a mudança tática será mantida ou não nas próximas partidas. Ao que tudo indica, dada as atuais circunstâncias, será. Sem abrir mão do ataque, Conte criou um importante sistema que pode levar os Blues de volta às vitórias. Com o aperfeiçoamento do novo esquema, as incorreções tenderão, aos poucos, a ser apenas passado.

As palavras neste texto condizem com a opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea Brasil.

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Category: Opinião

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Article by: Chelsea Brasil