Emprestar o agora convocado Abraham foi o certo; errado será não aproveitá-lo depois

Não é de hoje que se contesta o aproveitamento, dentre os profissionais, dos jovens jogadores formados nas categorias de base do Chelsea. Muitos são os títulos conquistados pelas camadas inferiores dos Blues e poucas seguem sendo as oportunidades efetivas concedidas aos seus expoentes. No entanto, nem tudo que vem sendo feito pela diretoria do clube merece repreensão. A avaliação feita quando da decisão de emprestar o atacante Tammy Abraham foi correta, como comprova sua performance atual, no comando do ataque do Swansea City. Se tivesse seguido no Chelsea teria obtido tal desempenho? Dificilmente, porque o atacante precisava de uma sequência que não teria com a concorrência de Álvaro Morata e Michy Batshuayi.

O goleador tem mostrado com a camisa dos Swans o que já vinha sendo percebido antes, mas em nível superior. Em 2016/17, representando o Bristol City, foi às redes 26 vezes, em 48 jogos. A despeito da excelência de tal desempenho, é necessário reconhecer que o nível da disputa da Championship não se confunde com o da Premier League. Por isso, antes de oferecer um lugar concreto em seu elenco, o Chelsea preferiu testar seu prospecto em outra praça. E no Liberty Stadium, o que Abraham faz nada mais é do que confirmar as capacidades há tempos faladas. Porém, no mais alto nível do futebol inglês.

Titular absoluto do Swansea City desde que chegou, o garoto de 20 anos já aponta um recorde de respeito. Em 13 partidas, balançou as redes cinco vezes (10J e 4G na EPL). Saiu de seus pés o tento que inaugurou o placar na vitória contra o Crystal Palace. Já contra o Huddersfield, triunfo por 2 a 0, ambos os gols foram obra sua. Leve-se em consideração mais um fato fundamental: nem o retorno de Wilfried Bony ao clube que o consagrou tem limitado o espaço de um Abraham que amadurece mais a cada jogo. É, para já, a principal esperança do clube na luta contra o rebaixamento.

A velocidade e o instinto artilheiro de Abraham não escaparam ao olhar do treinador da Seleção Inglesa, Gareth Southgate. Com a Inglaterra classificada para a Copa do Mundo, o comandante decidiu fazer testes nos próximos amistosos. Assim, dentre outras novidades, incluiu-o no grupo de selecionados que enfrentam Brasil e Alemanha na próxima Data FIFA. No seu caso, há um componente extra a ser considerado: devido a sua origem, poderia representar a Nigéria. Ou seja, sua convocação é também uma tentativa de se evitar que a Inglaterra perca um de seus mais promissores talentos da atualidade.

A despeito disso, não se temeria perder um atleta se não se tratasse de alguém com qualidades e enorme potencial de evolução. Southgate e a Federação Inglesa muito bem sabem disso, até porque Tammy representou os Three Lions nos escalões Sub-18, 19 e 21. O evidente nesse momento é: o empréstimo foi uma atitude correta da parte da direção do Chelsea. Diferentemente de gente como Andreas Christensen ou Charly Musonda, que já haviam tido a experiência de atuar na primeira divisão de outros países, Abraham só passara pela segunda divisão inglesa.

“Ele é confiante e tem muita crença em sua habilidade. Percebi isso desde a primeira vez que o vi. Isso é bom, se você tem talento, atributos físicos e confiança já tem metade da chance [de sucesso]”, disse Paul Clement, seu treinador no Swansea, ao Guardian.

Entretanto, a se manter esse desempenho, erro será não dar uma oportunidade ao atacante na próxima temporada, uma vez findo o empréstimo. O atacante vem se destacando em um contexto duro. Não só disputa a Premier League, como tem uma missão difícil para marcar gols. Não dispõe dos melhores companheiros para lhe preparar jogadas. O Swansea tem apenas sete gols na Premier League, ou seja, 57% deles podem ser creditados a Abraham, que ainda construiu uma assistência. A situação só não é tão ruim porque a defesa tem vindo a obter desempenho razoável – é a melhor dentre aquelas dos oito últimos clubes da tabela.

Em 63 jogos como atleta profissional, Abraham tem 31 gols anotados. Aos 20 anos, pode conseguir sua primeira internacionalização. É isso o que se espera de um jogador jovem quando é emprestado. E o que se espera do clube que empresta alguém nessa condição é que se aproveite, na sequência, do desenvolvimento de seu atleta.

Mantendo a forma, Loftus-Cheek também merecerá novos testes

(Foto: Robbie Jay Barratt – AMA/Getty Images)

Outro que ganhou seu primeiro chamado ao English Team foi Ruben Loftus-Cheek. Embora tenha demonstrado certo alheamento em algumas oportunidades, não há dúvidas de que se trata de alguém com qualidade técnica diferenciada. A despeito da campanha desastrosa do Crystal Palace, lanterna da Premier League, o meio-campista, emprestado pelo Chelsea, vem sendo titular; só ficou fora por motivo de lesão. Esse estatuto o jogador nunca obteve representando os Blues.

Diferentemente de Abraham, Loftus-Cheek não pode reclamar tanto da falta de oportunidades. Ele as teve, foi bem em alguns turnos e nem tanto em outros. Aparentemente, não fez muito nos treinos para convencer Antonio Conte a o utilizar mais vezes. O italiano entendeu que seu jovem meia precisava de minutos fora de Stamford Bridge, o que provavelmente se mostra correto. “Ele [Conte] disse que preciso jogar. O Chelsea é um grande clube e há muita pressão. Eu entendo isso”, disse Ruben ao Metro.

Mantendo o nível e a titularidade, como Abraham, Loftus-Cheek também merecerá ser reavaliado.

As palavras no texto condizem com a opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea Brasil.

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Article by: Wladimir de Castro Rodrigues Dias

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. A preferência é o futebol bretão, mas me interesso pelo esférico rolado em qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também no O Futebólogo, no Doentes por Futebol e na Corner.