O Chelsea e o seu novo modelo de atuação no mercado

O dia primeiro marcou o fim de mais uma janela de transferências do futebol europeu e o Chelsea, mais uma vez, praticamente não se reforçou. Foram anunciadas as chegadas de Barkley, Giroud e Emerson Palmieri, ao mesmo tempo que Musonda, Batshuayi e Kenedy foram liberados.

Assim como no início da temporada, o Chelsea trouxe reposições para suas perdas e limou seus gastos, fazendo o torcedor Blue deixar cada vez mais de lado as lembranças de uma janela repleta de despesas e reforços.

A política de compra e venda de jogadores do Chelsea vem mudando com o tempo e não é difícil perceber isso. A grande questão fica por conta do quão inteligente é a diretoria para adotar e principalmente administrar esse novo formato.

O repertório de jovens jogadores espalhados pelo mundo (e que sequer vestem a camisa dos Blues) é um dos grandes exemplos. Eles são contratados de diferentes lugares e ligas e posteriormente emprestados, com a ideia de que vão ganhar experiência para quem sabe ter um lugar no Chelsea. No entanto, a grande maioria é vendida alguns anos depois e o clube lucra com essas vendas, vendendo-os por muito mais do que foram contratados.

Apesar disso, é notável o desperdício de algumas dessas peças, que são vendidos pelo triplo do preço comprado, mas no ano seguinte já valem seis ou sete vezes mais. Lukaku e De Bruyne são exemplos que o torcedor Blue não se permite esquecer.

A nova política também passa por não se inserir no mercado inflacionado que perdura atualmente. Mesmo que algumas peças sejam adquiridas a preços muito altos, o Chelsea passa longe de ter um protagonismo no mercado como os rivais United e City, além de outros times como Real Madrid, PSG e Barcelona.

Por onde passa essa necessidade de mudança?

Alguns desses times possuem uma renda muito maior se comparado ao Chelsea, o que lhes permitem ter gastos exacerbados, enquanto City e PSG, por exemplo, recebem fortes injeções externas, como os Blues em outrora. Depois da conquista da Champions League, um dos grandes desejos de Abramovich, o clube valorizou sua marca e passou a sobreviver e sobressair sem o investimento de fora, que foi diminuindo pouco a pouco.

É por aí que passa o novo modelo adotado pelo Chelsea. O clube tem um estádio modesto e acaba não arrecadando tanto com as vendas dos ingressos da temporada, mesmo com o estádio lotado como de costume. É claro que o faturamento é alto, mas quando comparado com times como Real Madrid ou Manchester United, cujos estádios possuem capacidade muito superior, o Chelsea fica bem abaixo. Isso é apenas um dos exemplos.

Sem o investimento pesado do Russo, os Blues têm que ficarem atentos aos bons negócios do mercado e evitar o gasto desnecessário, para que possa continuar sua trajetória individual, até porque Abramovich não vai viver para sempre. Com isso, o Chelsea vai se reinventando e buscando novas formas de valorizar sua marca e competir com os adversários também fora de campo.

Moderno e imponente, o projeto do novo estádio agradou muito os membros do conselho, que o aprovaram de forma unânime (Foto: Reprodução)

A reforma do Stamford Bridge é um exemplo dos novos horizontes buscados pelo clube. A capacidade do estádio deve aumentar cerca de 50%, pulando dos atuais 40.000 para 60.000 lugares disponíveis, além da modernização planejada para a nova casa. Entretanto, o novo estádio também necessita de um alto investimento do clube, o que acaba interferindo no poderio de compra dos Blues.

Como o Chelsea atua no mercado

Durante a primeira janela de transferências da temporada, Ross Barkley ficou muito próximo de assinar pelos Blues por cerca de 35 milhões de Euros. A imprensa noticiou a desistência do clube e do atleta nos últimos momentos daquela janela, causando revolta entre alguns torcedores azuis. Seis meses depois, o inglês foi anunciado como reforço por algo em torno de 15 milhões de Euros, menos da metade do preço que seria pago meses antes.

O jogador ficou sem atuar todo esse tempo devido a uma lesão, mostrando boa perspectiva de mercado da diretoria, que trouxe um jogador jovem e de qualidade por um preço baixo. Essa mesma perspectiva se mostra duvidosa em alguns momentos. Como citado anteriormente, o Chelsea não tem a mesma liberdade para gastar como em épocas passadas, e por isso vai atrás do melhor custo benefício do mercado.

À vista disso, é no mínimo questionável algumas atitudes tomadas pelo Chelsea quando se trata de mercado. Ao mesmo tempo que faz bons negócios, o clube consegue fazer o torcedor esquecer disso quando faz justamente o contrário. A venda de Begovic para o Bournemouth e a aquisição de Caballero a custo zero é uma amostra de bom negócio, já que estamos falando de uma posição que os Blues têm um titular absoluto. Porém, isso não se repete com frequência.

Rüdiger, Palmieri, Drinkwater, Morata. O Chelsea contratou o zagueiro alemão mesmo tendo Zouma e Aké no seu elenco, que não ficam muito atrás em termos de qualidade. Talvez sim em experiência. Enquanto o francês – que já fez ótima temporada vestindo a camisa azul – foi emprestado, o holandês foi vendido ao Bournemouth por £20 milhões, inferior aos quase £35 milhões pagos pelo alemão.

Palmieri se juntou recentemente ao elenco em uma negociação em torno de £25 milhões junto à Roma. Baba Rahman foi contratado duas temporadas antes por potenciais £20 milhões e não teve chance de mostrar seu futebol antes de ser cedido novamente ao Schalke 04 por empréstimo. Além dele, Kenedy – que vinha fazendo bons jogos pelos Blues – também foi emprestado, praticamente obrigando o Chelsea a correr atrás de um ala esquerdo no mercado.

A contratação de Drinkwater não foi à toa: o inglês fez parte dos planos de Conte para reforçar o meio campo (Foto: Chelsea FC)

Drinkwater e Morata são outros exemplos. Enquanto o inglês foi contratado mesmo o Chelsea tendo Loftus-Cheek, Lewis Baker e van Ginkel – todos posteriormente empestrados –, Morata veio para ser o homem gol no lugar de Diego Costa, por um preço muito maior se comparado a contratação do compatriota junto ao Atlético, e de qualidade duvidosa para assumir a função no Chelsea, já que nunca o fez em um grande clube – mesmo tendo sido bem aproveitado na Juventus.

Talvez o torcedor esperasse alguém melhor que Morata ou rezasse em silencio pela permanência de Diego, que apesar dos pesares, faz muita falta ao ataque dos Blues. Drinkwater não veio para ser titular nos azuis de Londres, isso é fato. Fato esse que faz questionar-se a razão da contratação do inglês e o empréstimo dos outros citados acima, mesmo que este seja superior em qualidade.

O Chelsea tem problemas em algumas posições, que seriam facilmente resolvidos com um investimento pontual, se o clube parasse de contratar jogadores de posições que tem aos montes na base. O ponto principal é o fato de muitas dessas contratações – à exceção de Morata – virem para serem reservas, enquanto o time titular precisa de novas caras.

É difícil dar chances aos jogadores jovens, principalmente em um clube como o Chelsea. Todavia, Christensen têm sido um grande exemplo de que o clube deveria sim dar chances a esses jogadores ao invés de contratar mais reservas e deixar o time titular sem o investimento necessário.

O Chelsea não deve voltar tão cedo a gastar rios de dinheiros como em outras janelas e deve seguir em busca de bons negócios no mercado. Esse modelo tem sido praticado nas últimas temporadas e deve seguir algumas adiante. Mesmo tendo gastos limitados, não é difícil fazer boas/ótimas contratações, tal qual não é difícil manter um elenco bom em quantidade e qualidade. Isso depende apenas de como a diretoria vai administrar a nova política do clube.

Túlio Henrique