Terceiro Tempo: Uma defesa vulnerável

Após a derrota por um a zero para o West Ham em Stamford Bridge, o Chelsea chegou a três jogos seguidos sem vencer em todas as competições. A última vitória dos Blues foi contra o Crystal Palace, no dia nove de Novembro, pela Premier League.

Depois disso, o time perdeu para o Manchester City fora de casa por dois a um, também pela competição nacional, e empatou com o Valência por dois a dois na Espanha, pela Champions League. Dessa forma, o jogo contra o West Ham acabou confirmando a má fase da equipe azul de Londres.

Primeiro Tempo: Muitos gols feitos e sofridos

A derrota para o Manchester City foi a primeira de uma sequência de três jogos sem vitória (Foto: Twitter ChelseaFC)

A recente instabilidade serve para abrir os olhos do treinador Frank Lampard para os principais defeitos da equipe, principalmente os defeitos defensivos.

Durante esse período de três jogos, foram três gols marcados e cinco sofridos. Essa pequena amostra pode ser usada para explicar a temporada de forma mais ampla.

Ficou claro, desde o início da temporada, que Lampard tentaria implantar um esquema de jogo ofensivo, aproveitando o estilo de jogo deixado por Sarri, baseado na posse de bola e na saída de jogo construída de trás. Já no primeiro jogo da Premier League, contra o Manchester United, o time jogou ofensivamente e foi superior na maior parte do tempo. O resultado do jogo? Acabou em quatro a zero para o United.

E esse tem sido o enredo  de muitas derrotas até aqui. Já nas vitórias, ou na maioria delas, o time vence sofrendo muitos gols, o que obriga o ataque a estar absolutamente inspirado para compensar as dificuldades defensivas.

Levando em consideração todas as competições, os números do Chelsea são alarmantes. Em 21 jogos, o ataque marcou 47 gols, o que exemplifica a eficiência e criatividade do setor ofensivo. Vale lembrar que nesses 21 jogos a equipe não marcou ao menos um gol em apenas duas ocasiões, marca importante e significativa.

Por outro lado, a defesa não está acompanhando o ritmo. São 33 gols sofridos na temporada, com somente três clean sheets em todas as 21 partidas. Além disso, o time sofreu mais de um gol em 11 oportunidades.

Na Premier League o time é quarto colocado e já sofreu 20 gols, pior marca entre os nove primeiros da tabela, com a exceção do Tottenham, que é quinto colocado e já sofreu 21, e do Arsenal, que é o nono lugar na tabela e levou os mesmos 21 gols.

O péssimo desempenho defensivo faz com que o saldo de gols do Chelsea seja péssimo quando comparado ao líder Liverpool, com 20 gols de saldo, ao vice-líder Leicester, com 24, ou ao terceiro colocado, Manchester City, que tem 23. Os Blues possuem apenas oito gols de saldo, muito menos do que seus concorrentes brigando nas primeiras posições.

Hoje, os Blues só possuem o quarto maior saldo de gols da Premier League porque times como o Manchester United, o Arsenal e o Tottenham tiveram começos de temporada muito decepcionantes.

Segundo Tempo: O funcionamento da equipe

O papel dos meio campistas tem sido determinante positivamente e negativamente (Foto: Chelsea FC)

Números e estatísticas não mostram exatamente o que vem ocorrendo em campo na temporada, mas ajudam a explicar algumas situações. Por isso, não se pode afirmar que os jogadores de ataque estão em boa forma, enquanto os defensores vivem dias ruins. Esse não é o caso no Chelsea.

O que leva ao time a sofrer muitos gols são a engrenagem e o esquema do time. Lampard tenta atacar com muitos jogadores sempre que possível, visando tirar vantagem da superioridade numérica.

O problema disso, é claro, é a recomposição. Tornou-se comum durante a temporada ver a linha de quatro defensores frente a frente com os atacantes adversários, sem grande proteção dos volantes. Jorginho, Kovacic ou Kanté estão tentando pressionar o oponente quando o time perde a bola, o que é muito produtivo nas roubadas no meio campo, resultando em muitas oportunidades de gol.

Porém, quando os oponentes passam dessa marcação pressionada, os zagueiros e laterais do Chelsea rotineiramente precisam recuar às pressas para defender.

O maior desafio de Lampard no momento é conseguir armar um time mais compacto, capaz de atacar a ter recomposição defensiva. Quando o time perde a bola, não basta que os jogadores mais ofensivos pressionem a defesa adversária para ganhar a bola no campo de ataque. É preciso que o alguns jogadores estejam prontos para recuar na marcação, fechando os espaços que irão surgir em função da marcação alta.

Essa recomposição passa muito pelos pontas da equipe, que estão jogando praticamente como atacantes de lado, pouco ajudando na marcação.

A falta de participação defensiva tem sido constante nas pontas, sejam elas ocupadas por Willian, Christian Pulisic, Pedro, Callum Hudson-Odoi ou até mesmo Mount, que jogou aberto em alguns momentos.

Além dos problemas de recomposição, existem as dificuldades impressionantes de posicionamento nas jogadas de bola parada. Já são muitos erros graves que resultaram em chances de gols ou gols dos adversários. Em praticamente todos os jogos os torcedores sofrem com bolas levantadas na área.

A altura do time pode estar atrapalhando nesse quesito. Os meio campistas do time que vem jogando com mais regularidade são todos baixos: Jorginho, Kanté, Kovacic e Mount. As laterais também são normalmente formadas por jogadores baixos, principalmente quando os titulares são Azpilicueta e Emerson. No ataque, Willian, Pulisic, Pedro e Hudosn-Odoi medem menos de 1,80cm.

O que resta, de fato, são os zagueiros, altos, fortes e com boa impulsão, e o atacante, seja ele Tammy Abraham, Michy Batshuayi ou Olivier Giroud. Ou seja, são apenas três jogadores de linha com capacidade relevante no jogo aéreo.

Vale lembrar que até mesmo Kepa Arrizabalaga não é tão alto assim para um goleiro, medindo 1,86cm.

Talvez essa incrível quantidade de gols sofridos seja a explicação para as recentes mudanças de Lampard no time titular.

Prorrogação: As peças do tabuleiro

Mount e Tomori não são mais intocáveis no time titular (Reprodução: Chelsea FC)

É importante ressaltar que o meia inglês Mason Mount tem perdido espaço na equipe. Isso ocorre por alguns motivos. Lampard está tentando ter um sistema defensivo mais sólido, o que é mais facilmente alcançável com a presença de três jogadores com características de volantes: Jorginho, Kanté e Kovacic.

O treinador dos Blues não está mais escolhendo dois destes três como dupla de volantes, com Mount mais avançado. Agora ele está colocando os três volantes ao mesmo tempo e sacando Mount da equipe, com o intuito de impedir que a linha de defensores continue sendo muito exposta.

Outra razão para a saída de Mount (que ainda é titular em alguns jogos) é o seu próprio desempenho, que caiu de produção nas últimas semanas. Mas talvez o principal motivo para a escalação dos três volantes seja o momento dos três jogadores.

Jorginho foi mal nos últimos jogos, mas faz uma temporada incrível na organização do time e nos números defensivos.  Kovacic aproveitou o tempo em que Kanté estava lesionado para finalmente ter ótimas atuações com a camisa dos Blues. Ele tem impressionado na transição da defesa para o ataque e tem participado mais da criação ofensiva, marcando até mesmo um gol no empate contra o Valência, seu primeiro pelo Chelsea.

Já Kanté voltou de lesão e está entrando no time aos poucos. Hoje, ele é o jogador de maior status no elenco, além de ser um dos jogadores com maior valor de mercado, mesmo sendo um volante e já estando com 28 anos. Assim, ele deve ser cada vez mais titular, o que indica que os três volantes jogando juntos devem se tornar uma rotina nos próximos jogos.

A lateral esquerda, por sua vez, tem sido um grande problema. Por ali, já jogaram Marcos Alonso, Emerson Palmieri e César Azpilicueta, improvisado. Nenhum deles tomou conta da posição.

Alonso foi bem no Chelsea como ala esquerdo, na época em que os Blues eram dirigidos por Antonio Conte, mas não conseguiu se destacar com Maurizio Sarri ou com Lampard, que jogam com uma linha de quatro na defesa. Antes de chegar a Londres, o espanhol jogava como meio campista aberto pela esquerda na Fiorentina e sempre foi muito melhor no ataque, com bons passes e ótima finalização, do que na defesa, onde falta velocidade e capacidade nos desarmes.

Azpilicueta, por sua vez, aos poucos perde lugar no time. Ele começou a temporada como titular da lateral direita e teve péssimas atuações. Logo se recuperou e voltou a um nível mais regular, mas tem sido ameaçado pelo jovem Reece James, que tem mostrado mais agilidade e força quando é titular.

A solução poderia vir a ser a escalação de Azpilicueta na esquerda, onde jogou muitas vezes na carreira. Todavia, ele parece não estar mais acostumado com a função, além de não estar em alta nem mesmo em sua posição original, a lateral direita.

Dentro dessa perspectiva, Emerson tem sido a opção mais segura. Mesmo sem ser brilhante ofensivamente ou defensivamente, ele é o jogador mais equilibrado dentre os disponíveis. Ele foi titular nas últimas partidas e deve manter o posto nas próximas.

Alguns outros jogadores estão mostrando certa instabilidade, como é o caso do jovem zagueiro inglês Fikayo Tomori. Ele e Kurt Zouma têm sido a dupla de zaga mais repetida da temporada. Eles começaram muito bem, principalmente em termos de velocidade, força e explosão. Mas, com o passar do tempo, Tomori tem se mostrando nervoso em alguns jogos, cometendo erros bobos, causados pela falta de experiência. Andreas Christensen substituiu o jovem inglês no empate em dois a dois contra o Valência, mas não conseguiu mostrar que deve ser o titular.

O dinamarquês estava claramente fora de ritmo, se movimentando errado na linha de defesa e cometendo erros ainda piores do que os de Tomori. Assim, não se sabe ainda qual a melhor solução para Lampard no centro da defesa.

A esperança dos torcedores é que Antonio Rüdiger volte logo após longo tempo afastado por lesão. Ele pode jogar ao lado de Zouma ou até ao lado do próprio Tomori, visto que é um zagueiro experiente que tem a capacidade de melhorar as performances do jovem inglês.

Bruno Pizarro