O final feliz após uma temporada de instabilidade

Após a frustrante temporada 2017/2018 sob o comando de Antonio Conte, quando o Chelsea venceu apenas a FA Cup, os Blues começaram a atual temporada visando alcançar um estilo de futebol mais ofensivo e vistoso.

Além da FA Cup da temporada passada, Conte havia vencido a Premier League na temporada 2016/2017, quando estreou na Inglaterra, armando seu time de forma pragmática e defensiva, utilizando o sistema com três zagueiros e dois alas que, graças a ele, voltou a ser uma febre no futebol mundial.

O problema é que o futebol apresentado não estava mais agradando aos torcedores, principalmente porque os resultados passaram a ser muito negativos. Treinadores pragmáticos precisam de resultados para sustentar suas estratégias reativas.

Porém, a equipe azul de Londres terminou na quinta colocação do campeonato nacional, não se classificando para a Champions League da atual temporada, e sim para a Europa League, competição que viria a vencer.

Com a chegada de Maurizio Sarri, a expectativa dos torcedores era poder assistir a uma equipe ofensiva, que baseia seu jogo na posse de bola e na marcação sob pressão: o “Sarriball”.

É claro que todos torciam por uma temporada cheia de títulos, mas a identidade ofensiva e a estratégia de propor o jogo eram ainda mais importantes naquele momento.

Os torcedores entenderam desde o início da temporada que seria difícil lutar por grandes títulos, principalmente porque poucas contratações foram feitas e o elenco não se mostrava numeroso o suficiente para aguentar diversas competições simultâneas.

Além disso, o torcedor também sabia que Sarri não era um grande conquistador de títulos (não possuía nenhum na carreira), mas sim um ótimo estrategista ofensivo. Sua trajetória no Napoli, tentando alcançar a Juventus na Serie A, foi vista com muitos bons olhos pelos grandes times europeus, tanto que chamou a atenção do Chelsea.

Dessa forma, a esperança dos torcedores era ver um time solto e ofensivo, capaz de brigar na parte de cima da tabela no campeonato nacional e chegar o mais longe possível nas competições de mata-mata. E foi isso que Sarri conseguiu.

Sujeito às duras críticas da imprensa em muitos momentos da temporada, o treinador italiano foi capaz de implantar seu método de jogo e tornar o time mais criativo e menos reativo.

Abaixo temos um resumo das chegadas e saídas no início da atual temporada (valor em euros, de acordo com o transfermarkt.com).

Chegaram ao Chelsea:

  • Kepa Arrizabalaga (Goleiro, €80 milhões).
  • Robert Green (Goleiro, custo zero).
  • Jorginho (Volante, €57 milhões).
  • Mateo Kovacic (Volante, empréstimo).
  • Maurizio Sarri (Técnico).
  • Christian Pulisic (Atacante, €64 milhões, chegando ao time somente na temporada 2019/2020).

Deixaram o Chelsea:

  • Thibaut Courtois (Goleiro, €35 milhões).
  • Kurt Zouma (Zagueiro, empréstimo).
  • Tiemoué Bakayoko (Volante, empréstimo).
  • Michy Batshuayi (Atacante, empréstimo).

Kepa chegou ao Chelsea como o goleiro mais caro da história (Foto: Reprodução)

Um início animador

Apesar de perder a Community Shield para o Manchester City na primeira partida oficial da temporada, o início dos Blues foi avassalador. A primeira metade da temporada foi irretocável.

O primeiro jogo da Premier League foi no dia 11 de Agosto, uma vitória de três a zero contra o Huddersfield Town fora de casa, seguida por uma suada vitória de três a dois sobre o Arsenal em Stamford Bridge, o primeiro jogo marcante da temporada.

Em menos de 20 minutos os Blues já venciam por dois a zero com gols de Pedro e Morata. O empate veio ainda no primeiro tempo após belos gols de Henrikh Mkhitaryan e Alex Iwobi. Foi então que Eden Hazard, que veio do banco, pois voltava de lesão, decidiu a partida em uma jogada individual que terminou com um cruzamento para o gol da vitória, marcado por Marcos Alonso.

O Chelsea só foi perder pelo Campeonato Inglês na décima terceira rodada, contra o Tottenham, fora de casa, por três a um, no dia 24 de Novembro. Antes disso foram 12 jogos invictos pela liga nacional, dentre eles a vitória contra os Gunners, diversas vitórias contra times de menor expressão, e empates com Liverpool e Manchester United.

Pouco tempo depois da derrota para os Spurs, a primeira da temporada, o Chelsea bateu o Manchester City em casa por dois a zero, pela décima sexta rodada, no dia oito de Dezembro, vitória que foi muito comemorada.

Os Blues começavam a se afastar do topo da tabela e por isso a partida era de suma importância. Como Olivier Giroud e Álvaro Morata vinham muito mal, Sarri utilizou Hazard como “falso nove”, estratégia que deu certo em momentos específicos da temporada. Esse jogo foi um deles.

O City dominou o jogo com posse de bola, mas o belga deu a assistência para N’golo Kanté abrir o placar, fazendo com que o Chelsea crescesse no jogo e marcasse outro logo depois após cabeçada de David Luiz.

O brasileiro fez o segundo dos Blues na vitória contra o City em Dezembro (Foto: The Independent)

Nas outras competições, os Blues também estavam se dando bem, avançando para as fases finais da Copa da Liga Inglesa e liderando com folga seu grupo na UEFA Europa League, com cinco vitórias e um empate em seis jogos.

A queda de rendimento

Foi em Janeiro e Fevereiro que a situação mudou drasticamente. A derrota de dois a zero contra o Arsenal no dia dezenove de Janeiro iniciou uma crise que seria dificílima para Sarri e seus comandados.

Aquele jogo escancarou a dificuldade de adaptação em alguns setores da equipe. A utilização de Marcos Alonso e César Azpilicueta em posições diferentes da temporada anterior claramente não estava dando certo. Sob o comando de Conte, Alonso era um ala pela esquerda, com muita liberdade para subir para o ataque e obrigações defensivas menores. Com Sarri, ele se tornou um lateral de ofício, o que começava a mostrar sua fragilidade como defensor.

Já Azpilicueta jogava como zagueiro pela direita com Conte, e agora teria de se acostumar a jogar como lateral direito, o que evidenciava sua falta de velocidade no ataque.

Na frente o Chelsea também não se encontrava. Giroud vinha bem na Europa League, marcando gols com regularidade, mas se tratando de Premier League, nem ele nem Morata conseguiam entregar gols. O resultado foi o empréstimo de Morata para o Atlético de Madrid e a vinda de Gonzalo Higuaín, emprestado pela Juventus após passagem apagada pelo Milan. O argentino era uma esperança de gols, mas não viria a vingar nos seis meses com a camisa azul.

Victor Moses e Cesc Fábregas também deixaram o clube por não apresentarem boas atuações e por não conseguirem ficar ao menos no banco da equipe em muitas oportunidades.

Logo após a derrota para o Arsenal, o Chelsea também perdeu de quatro a zero para o Bournemouth e de seis a zero para o Manchester City. A derrota para os Citizens no dia dez de Fevereiro deixou Sarri em uma situação complicadíssima, muito próximo de uma demissão. Não só pela sequência de derrotas humilhantes, mas também pelo comportamento do time em campo, displicente e desinteressado.

Não parecia haver nenhuma saída para o treinador ou para os jogadores. Em coletiva de imprensa, Sarri chegou a afirmar que seus comandados formavam um grupo “difícil de motivar”, o que pegou mal na mídia, que logo caiu em cima do italiano.

Para piorar, Fevereiro ainda iria trazer duras eliminações. A primeira na quinta rodada da FA Cup, após derrota por dois a zero para a Manchester United no dia 18, que tirou o Chelsea da competição. A segunda foi a derrota na disputa de pênaltis para o Manchester City após o zero a zero na final da Copa da Liga Inlgesa, no dia 24, 14 dias após a derrota de seis a zero para o mesmo adversário.

Perder a final nos pênaltis foi decepcionante, mas mostrou que a equipe poderia atuar muito melhor caso fosse mais precavida, principalmente enfrentando os times mais poderosos.

Vale lembrar que a campanha do Chelsea foi consistente na Copa da Liga. Os principais momentos foram a vitória contra o Liverpool por 2 a 1, jogo em que Hazard fez um lindo gol, e o triunfo na emocionante semifinal contra o Tottenham, decidida apenas nos pênaltis.

Entrando nos eixos

Em Fevereiro os Blues conseguiram ao menos avançar na UEFA Europa League, batendo o Malmo por cinco a um no agregado na rodada de 32 avos de final e abrindo vantagem de três a zero sobre o Dínamo de Kiev no primeiro jogo do confronto na rodada de 16 avos de final.

Na Premier League, entre o final de Fevereiro e o início de Março as coisas começaram a mudar. Após a humilhante derrota para o City, os Blues engataram uma sequência de sete jogos com cinco vitórias, um empate e uma derrota, vencendo o Tottenham, Fulham, Cardiff, Brighton e West Ham, empatando com o Wolverhampton e perdendo para o Everton.

Foi o suficiente para segurar Sarri por mais algum tempo, já que na competição continental o Chelsea dominava. O confronto com o Dínamo terminou oito a zero no agregado e o confronto contra o Slavia Praga pelas quartas de final terminou cinco a três no agregado para a equipe azul de Londres.

O mês de Março mostrava que a equipe começava a entrar no eixo, mas não era o suficiente. Taticamente, alguns jogadores começaram a apresentar mais.

Na defesa, David Luiz e Antonio Rüdiger evoluíram com o decorrer da temporada, alcançando ótimos níveis de atuação e mantendo Andreas Christensen quase sempre no banco. Além disso, Gary Cahill ficou fora dos relacionados em praticamente todos os jogos.

Foi também nessa fase da temporada que dois jovens ingleses ganharam destaque: Callum Hudson-Odoi e Ruben Loftus-Cheek. Odoi se aproveitou da fraca temporada que Willian e Pedro vinham fazendo para cavar seu lugar no time titular em jogos importantes.

Já Loftus-Cheek entrou no time titular após Sarri cansar de utilizar Ross Barkley e Mateo Kovacic no meio campo ao lado dos titulares Jorginho e Kanté. Tanto Barkley quanto Kovacic tiveram oportunidades e tiveram alguns bons jogos, mas o impacto de Loftus-Cheek foi claro.

Em 17 jogos como titular e 23 como reserva, o inglês fez dez gols. Barkley, por sua vez, fez 30 jogos como titular e 18 como reserva, chegando a cinco gols.

Loftus-Cheek foi um dos destaques da temporada (Foto: talkSPORT)

Enquanto isso, Kovacic, que para muitos foi a maior decepção da temporada, jogou 36 vezes como titular e 15 vindo do banco, marcando uma expressiva marca de zero gols com a camisa do Chelsea. O sérvio nunca foi um grande finalizador, mas sua falta de criatividade e participação no ataque dos Blues acabou o custando a titularidade na reta final da temporada.

O final feliz e a triste despedida

Os meses de Abril e Maio foram mais tranquilos para os Blues, mesma após a derrota de dois a zero contra o Liverpool pela Premier League. O jogo, que ocorreu em Abril, evidenciou a diferença entre as equipes. Enquanto os Reds jogavam com intensidade, os Blues eram lentos e sem criatividade. O destaque da partida foi o golaço de Salah, ele chutou de fora da área e acertou o ângulo do goleiro Kepa.

Porém, com os seguidos tropeços do Arsenal e do Manchester United, a vaga na Champions League da próxima temporada foi garantida após a vitória de três a zero do Chelsea contra o Watford, na penúltima rodada. Com a terceira colocação da Premier League, toda a pressão da final da UEFA Europa League foi para o Arsenal, que precisaria vencer para conseguir a classificação para maior competição de clubes do planeta.

Nesse ponto do ano, a paciência com Sarri já era mais clara por parte da torcida, que se contentava com a vaga na Champions e via a Europa League como uma possível “cereja do bolo”.

O confronto com o Arsenal na final do torneio ocorreu em Baku, no Azerbaijão, no dia 29 de Maio, e foi o final perfeito para uma temporada de tantas turbulências.

A partida estava equilibrada e empatada em zero a zero até os 49 minutos do segundo tempo, quando Giroud fez o primeiro do Chelsea após cruzamento de Emerson Palmieri, que ganhou a posição de Marcos Alonso na lateral esquerda na reta final da temporada.

Pedro marcou na sequência, seguido por Hazard, de pênalti, que botou o 3 a 0 no placar. Os Gunners ainda diminuíram com Iwobi, mas Hazard marcou mais um aos 72 minutos para sacramentar o título.

O triunfo na Europa League foi uma despedida honrosa para Hazard, que está prestes a ser anunciado oficialmente pelo Real Madrid. O belga foi disparadamente o melhor jogador do Chelsea na temporada, marcando 21 gols e dando 17 assistências.

Hazard já se tornou um dos melhores jogadores da história do Chelsea (Foto: Getty Images)

Ele já é um dos maiores jogadores da história do clube, ao lado de Frank Lampard, John Terry, Didier Drogba, Michael Essien, Petr Cech, Gianfranco Zola e outros. O camisa 10 escreveu seu nome em sua trajetória no Chelsea vencendo duas vezes a Europa League (2013 e 2019), duas vezes a Premier League (2015 e 2017), uma vez a Copa da Inglaterra (2018) e uma vez aCopa da Liga Inglesa (2015).

Para Sarri, o fim de temporada acabou sendo muito positivo, não só porque conseguiu uma classificação para a Champions e um título de Europa League, mas também pelo padrão de jogo ofensivo e moderno que instaurou na equipe. Agora, está tão valorizado que está sendo sondado pela poderosa Juventus. Ainda não se sabe se ele irá permanecer ou não na equipe londrina.

Estatísticas e prêmios individuais

Desempenho do time:

  • Premier League – 3º colocado, 72 pontos.
  • FA Cup – Eliminado na quinta rodada para o Manchester United.
  • EFL Cup – Vice-campeão (perdeu para o Manchester City).
  • Champions League – Não se classificou na temporada anterior.
  • Europa League – Campeão.
  • FA Community Shield – Vice-campeão (perdeu para o Manchester City).

Artilheiros da temporada:

  1. Eden Hazard – 21 gols.
  2. Olivier Giroud – 13 gols.
  3. Pedro – 13 gols.

Prêmios individuais:

  • Melhor Jogador da temporada eleito pelos jogadores: Hazard.
  • Jogador jovem da temporada: Odoi.
  • Gol da temporada: Hazard vs. Liverpool (Carabao Cup).

Bruno Pizarro