Na História: A relação do Chelsea com a Guarda de Honra

Como os Blues ajudaram a manter a tradição viva na Inglaterra ao longo dos anos

Hoje o Chelsea Brasil estreia uma nova coluna: Na História. O conteúdo vai relembrar semanalmente algum momento histórico relacionado ao contexto atual dos Blues. Nesta semana conheceremos sobre a participação do time na tradição da Guarda de Honra.

Na última quarta-feira (22) o Chelsea visitou o Liverpool pela penúltima rodada da Premier League. Os Blues acabaram perdendo a partida por 5-3 para os já campeões. Entretanto, além do placar, uma tradição marcou o início do jogo. Trata-se da Guarda de Honra, prática já comum na Inglaterra e em alguns outros países do mundo.

Antes da partida, Frank Lampard confirmou que os seus comandados fariam a Guarda para os jogadores do Liverpool. “Eu fico muito feliz de proporcionar esse momento para times que o merecem”, afirmou o treinador.

Esta temporada marcou também o maior número de vezes em que foi oferecida a honraria a um time, devido à quantidade de rodadas restantes após a confirmação do título. Porém, como essa tradição começou? Qual é o papel dos Blues nela? Confira no texto:

O que é uma guarda de honra?

Guarda de Honra é uma tradição de cunho militar que foi adotada por esportistas. A prática consiste basicamente em estender os cumprimentos ao time vencedor do campeonato. Forma-se um corredor de atletas de ambos os lados para que os homenageados passem recebendo aplausos.

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Os Blues foram recepcionados pelo Newcastle em 2005 (Foto: Getty)

Apesar de não ser compulsória para nenhum time ou atleta, continua sendo uma cerimônia acordada entre os lados previamente. Todavia, alguns jogadores aplaudem de forma relutante o time campeão. Mesmo assim, oficialmente ninguém pode ser forçado a participar. Portanto, pelo menos na Inglaterra, a tradição permanece forte.

O início da tradição

O ano era 1955 e a temporada marcava o jubileu do Chelsea. O clube passava por um processo de remodelação nos anos anteriores. Grande parte dessa mudança veio pelas mãos do famoso treinador Ted Drake, que chegou em 1952. Ele foi um dos primeiros técnicos a implementar um sistema de treino com bola, o que era raro na época.

Entretanto, seus primeiros anos não demonstraram resultados dentro de campo. Apesar disso, o clube o manteve no comando. Assim, na época 1954/55, o time manteve uma consistência nunca vista até então. Por isso, acabou ganhando o título da elite pela primeira vez em sua história. A conquista foi considerada surpresa devido à falta de jogadores de expressão. A única estrela do time era o capitão, artilheiro do campeonato e jogador da seleção inglesa Roy Bentley.

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Em 1955 Matt Busby orientou seus atletas a receberem o Chelsea campeão da liga (Foto: Getty)

No último jogo da temporada o Manchester United recebeu os campeões com a primeira Guarda de Honra da história do futebol inglês. Assim, por iniciativa do lendário treinador Matt Busby, os seus atletas – chamados carinhosamente de Busby Babes – receberam os jogadores do Chelsea com aplausos na entrada em campo. O escocês havia sido jogador convidado do Chelsea durante a Segunda Guerra Mundial. A honraria foi tão bem recebida que vários clubes desde então se prontificaram e, hoje, já é uma prática comum.

O antigo capitão dos Blues relembrou anos depois do tratamento dispensado por Busby com carinho. “Foi um momento maravilhoso e Matt assegurou que tivéssemos o ‘tapete vermelho’ do dia”, contou. Apesar da surpresa, o título não foi um acaso mas sim o resultado do trabalho consistente de Drake nos últimos anos.

A segunda Guarda de Honra

Ironicamente, a segunda Guarda de Honra da história do Chelsea veio exatamente 50 anos depois da primeira, no ano do centenário, contra o mesmo time, na mesma rodada. A primeira conquista da liga na era Premier League coincidiu também com a primeira de Roman Abramovich. Na ocasião, os Blues saíram atrás no placar. Apesar disso viraram a partida para 3-1, com gols de Tiago, Gudjohnsen e Joe Cole. Assim, a conquista marcou o início da Revolução Azul, que semeou a rivalidade entre as duas equipes pelos anos seguintes em busca da supremacia na Inglaterra.

Sir Alex Ferguson fez questão que seus atletas honrassem com a tradição, como relatou em sua autobiografia em 2013. “Eu não tinha intenção nenhuma de me render ao dinheiro de Abramovich nos meses seguintes”, desafiou ele. O Chelsea foi um dos principais adversários da carreira do escocês, mesmo com desafiantes como Blackburn, Arsenal e Newcastle, nos anos 1990.

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O Manchester United estendeu a homenagem novamente em 2005 (Foto: Getty)

Além disso, em 2005 o Manchester United foi o segundo colocado, com 18 pontos de diferença para os campeões. Portanto, a rivalidade seria justificativa mais do que plausível para não haver a Guarda de Honra. Entretanto, Ferguson fez questão que seus atletas “vissem o adversário vir até o seu estádio e ter de aplaudi-los por um título que poderia ter sido seu”. Segundo ele, foi uma tática de motivação para assegurar que não acontecesse novamente.

Portanto, é certo dizer que os jogadores estavam nada menos do que contrariados no momento. Apesar de Roy Keane, capitão no dia, nunca ter se pronunciado a respeito, Gary Neville descreveu que a sensação recentemente. Ele disse que foi como “a esposa te deixar e te pedirem para pendurar as roupas do cara novo no seu guarda-roupa velho”.

A retribuição

Todavia, nem só de homenagens viveu o Chelsea em sua participação na história das Guardas de Honra. Dois anos após o Manchester United receber os Blues em sua casa, foi a vez dos londrinos estenderem a honraria aos Red Devils. Porém, dessa vez nem Mourinho nem Ferguson colocaram força total em campo. Assim, os torcedores puderam ter a visão inusitada de John Terry aplaudindo Kieran Lee, Chris Eagles e Dong Fangzhuo, todos reservas na época.

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Claudio Ranieri foi bem recepcionado pelo ex-clube (Foto: Getty)

Outro time homenageado pelos Blues foi o Leicester City em 2017. Comandados pelo ex-técnico Claudio Ranieri, os Foxes chegaram a um feito inimaginável na história do clube. Além disso, foi o Chelsea, duas semanas antes, que negou os três pontos necessários aos rivais Tottenham quando precisavam manter-se na briga pelo título. O jogo em si foi o menos importante, já que terminou em empate por 1-1.

Os homenageados de hoje já estiveram do outro lado

O Liverpool também já realizou a Guarda de Honra para o Chelsea, assim como os Blues fizeram na atual temporada. Assim, no quarto título nacional dos Blues, os Reds alinharam-se e receberam os jogadores adversários com aplausos. Porém, o momento poderia ter sido estranho. Foi contra os londrinos, no ano anterior, que o escorregão de Steven Gerrard custou o título para seu time.

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O Liverpool teve o gosto amargo de aplaudir o rival (Foto: reprodução Facebook Chelsea FC)

O capitão admitiu em entrevista que não foi bom fazer a Guarda. Apesar disso, a torcida do Chelsea, que provocou o adversário durante todo o jogo, uniu-se aos aplausos da arquibancada no momento da sua substituição no fim do jogo. Até Mourinho considerou a prática “um pouco artificial” na época. Segundo ele, os jogadores só fazem porque “alguém os manda fazer”.

John Terry

Em momento peculiar, os jogadores do Chelsea decidiram conceder uma Guarda de Honra ao capitão John Terry em 2017. O ato aconteceu no jogo final da Premier League, que também seria o último do defensor com a camisa azul. Assim, o zagueiro decidiu encerrar os seus 19 anos de clube com uma substituição no minuto 26 do jogo contra o Sunderland.

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John Terry teve sua despedida com uma Guarda de Honra (Foto: Getty)

O curioso é que a equipe do Sunderland já havia recebido os londrinos com a sua própria Guarda de Honra no começo da partida. Ou seja, mais de 40 mil torcedores puderam ver duas homenagens em uma só partida enquanto o capitão de mais de 700 jogos com a camisa dizia adeus ao clube.

O tratamento à la Lampard

Apesar do treinador querer honrar seus adversários com a Guarda, outro objetivo de Lampard também foi “inspirar” seus atletas, assim como fez Ferguson anos antes. O manager vem da mesma escola inglesa que aprendeu a respeitar os adversários e usar as suas conquistas como motivação. Assim, o técnico “mata dois coelhos com uma cajadada só”, mantendo a tradição e alimentando ainda mais o desejo de vitória de seus jogadores.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.