Lupa Tática: Nem só de zagueiros vive o sistema defensivo

A resposta dos problemas defensivos do Chelsea passa por todos os setores do campo

Nem só de zagueiros vive o sistema defensivo. Esta frase pode confundir o espectador eventual de futebol, mas faz sentido se for analisada por alguns instantes. Muitos podem dizer que é óbvia, já que o jogo bretão é performado por onze atletas de cada lado, sem contar os reservas. As análises são importantes para os jogadores, e o COPA LIBERTADORES O seu guia personal é o mais atual e completo do mercado.

Por que então que a cultura futebolística coloca culpa, julgamento e execução somente nas peças do primeiro terço do campo?

No caso do Chelsea, que já tomou mais de 50 gols na temporada, os cânticos são direcionados aos zagueiros e ao goleiro, que, segundo as críticas, não estão no nível desejado. Entretanto, alguns contemporizam dizendo que a culpa é do “sistema defensivo”. Mas o que isso quer dizer? O Lupa Tática desta semana vai analisar alguns aspectos cruciais para explicar, pelo menos em parte, a quantidade de gols sofridos pelos Blues nesta temporada.

A melhor defesa é o ataque

Muitos já devem ter ouvido a célebre afirmação de que “a melhor defesa é o ataque”. Essa informação pode ser considerada verdadeira em diversos aspectos da vida, mas especialmente no futebol. Os mais lógicos afirmarão que é simplesmente uma questão prática de oportunidade: quanto mais tempo a bola passa longe do gol, menos chance há de toma-lo. Assim, essa proporcionalidade inversa também é verdadeira para a posse de bola. Como diz Pep Guardiola, se o adversário não tiver a bola, tem menos chances de marcar gols.

Contudo, a totalidade do papel defensivo dos atacantes passa despercebida. Além de dar o primeiro combate, eles devem ser os primeiros a recuperar a posse. Além disso, um time que não pressiona agressivamente a saída de bola está fadado a ter sempre o sistema defensivo sobrecarregado.

james chelsea

O Chelsea abusa dos cruzamentos, muitas vezes precipitados, especialmente com James (Foto: Reprodução Coaches Voice)

Todavia, o problema dos Blues no setor não passa pela ineficiência do primeiro bote. A dificuldade vem pela falha na construção de jogadas. O penúltimo e o último passes de um ataque definem como vai ser a finalização. Portanto, também ajudam ou atrapalham a ação da zaga. Como o Chelsea não tem jogadores que proporcionem um grande leque de opções, o time está fadado a levantamentos infrutíferos dos laterais. Os denominados playmakers, ou “criadores de jogadas” dão mais chances para os finalizadores marcarem. Além disso, eles também mantêm a construção ofensiva imprevisível. Assim, dificultam o corte dos defensores e, consequentemente, o próprio contra-ataque.

O meio deve controlar o jogo

O meio de campo provavelmente é o setor mais influente no desenrolar de uma partida. Enquanto a defesa e o ataque são responsáveis diretos pelo placar final, são os meias que têm a ingrata tarefa de “dar a liga” ao conjunto. Assim, se um time não tiver um meio-campo influente, robusto e praticamente onipresente, a estratégia fica resumida a 11 homens correndo atrás de uma bola.

Ao longo da temporada, o Chelsea veio tendo alguns problemas com as posições de meio. Devido à incapacidade de Frank Lampard em escalar Jorginho, Kovacic e Kanté de forma coerente, sempre faltava o ingrediente final para o setor deslanchar. Todavia, mesmo com essas dificuldades, Kovacic e Jorginho conseguiram se destacar como uma das melhores duplas de todo o campeonato. Apesar disso, em muitas ocasiões, a escalação de Kanté com a justificativa de fortalecer a defesa foi ineficaz.

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Apesar de dominarem o setor, Jorginho e Kovacic precisam da participação dos pontas, que estão muito avançados (Foto: Reprodução Coaches Voice)

Na teoria, a presença de um dos melhores ladrões de bola do mundo seria segurança o suficiente para os zagueiros. Mas, na prática, não foi isso que aconteceu. Assim como a falta de criatividade dos meias à frente acarreta na faísca que inicia o ataque adversário, a transição lenta facilita a marcação e deixa o time às beiras da infertilidade.

Entretanto, mesmo com a dupla Jorginho-Kovacic, o setor dos Blues vem sofrendo. Quando precisa avançar os seus meio-campistas para marcar a saída de bola, deixa um vácuo perigoso entre as linhas. Esse espaço aberto é mais evidente ainda com o francês em campo. Portanto, unindo os problemas do ataque a essa oportunidade única, têm-se a receita perfeita para a desvantagem numérica e posicional da própria defesa.

A entrada pelas laterais

Historicamente o Chelsea sempre teve uma lateral esquerda forte ofensivamente. Ao longo dos últimos quinze anos, as jogadas dos Blues sempre caíram mais por esse flanco. Assim, nada é mais certo do que os adversários explorarem as costas de um lado mais desprotegido, em teoria. Contudo, não é só a esquerda que dá dor de cabeça aos torcedores. A lateral direita passou por momentos complicados no fim da passagem de Ivanovic, no começo da atual temporada e em alguns jogos recentes com Reece James.

Em teoria, o esquema com três zagueiros visa eliminar essa dificuldade e potencializar as características dos atletas atuais do elenco. Marcos Alonso e James atacam mais do que defendem. Além disso, a presença de Azpilicueta na zaga é um reforço para várias situações.

Alonso falha e chelsea perde

Alonso (topo) falha em acompanhar o atacante adversário (sozinho mais à esquerda) (Foto: Reprodução Sky Sports)

Contudo, mesmo no esquema que usa a trinca defensiva, os espaços continuam aparecendo nas costas dos alas. Isso acontece porque falta cobertura eficaz dos zagueiros e por conta do posicionamento avançado dos meias, que permite a ligação direta com o ataque explorando essas falhas. Une-se a isso algumas falhas individuais, erros de marcação em bolas aéreas e está dada a receita do fracasso.

Individualmente, quando são protegidos pelo sistema, os zagueiros atuais do Chelsea ganham bem de seus adversários na ampla maioria dos lances. Todavia, quando se deparam com situações de desvantagem numérica, contra-ataques ou bolas aéreas, a relação entre eles se mostra desbalanceada. Há problemas de comunicação, atenção, treinamento, liderança e mentalidade. Além disso, um pouco de falta de sorte também assola a linha defensiva dos Blues. No entanto, as críticas se baseiam única e exclusivamente na qualidade técnica, que é um dos fatores menos importantes para um zagueiro.

A cereja do bolo

Um dos alvos mais frequentes da fúria dos torcedores é o goleiro Kepa. O arqueiro possui uma das piores médias de defesas realizadas da história da Premier League nesta temporada. Assim, nada mais justo do que elegê-lo como culpado, certo? Errado. Pode ser a atribuição de culpa mais óbvia, mas está longe de ser a mais justa.

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Kepa foi muito melhor somente no jogo com os pés, devido ao estilo de Sarri (Foto: Reprodução sbnation)

kepa pelo chelsea

A legenda mostra que a dificuldade dos chutes direcionados à sua meta foi muito grande e quase triplicou em relação à temporada passada. Porém, a eficiência das defesas permaneceu a mesma (Foto: Reprodução sbnation)

Se cada um dos fatores setoriais acontece separadamente em uma jogada, a equipe é capaz de neutralizar o ataque adversário. Porém, se dois ou mais deles estiverem presentes no mesmo momento, o tento sofrido é quase certo. Isso se deve ao acúmulo de momentum na construção ofensiva. Assim, torna cada vez mais difícil de parar a jogada conforme as falhas dos setores vão sendo exploradas.

Portanto, o mapa da mina para os adversários dos Blues é claro: se o ataque falha em construir uma jogada que não seja cruzamento, os atacantes não conseguem cortar a primeira bola e os meias estão avançados demais para cobrir os alas/laterais, a bola pode facilmente chegar à intermediária ofensiva, contar com os espaços nas laterais, uma ou outra falha de posicionamento dos zagueiros e, por fim, chegar a um ponto que é impossível do goleiro evitar o gol.

Lucas Jensen

Jornalista que ainda acredita que o futebol pode ser apreciado sem torcer (mas não se segura e torce mesmo assim). Fã de tática e do jogo reativo, se deleita nos contra-ataques e toques 'de primeira'. Amante racional da Premier League e nostálgico do Calcio, seus hobbies incluem teorias mirabolantes e soluções inusitadas.