Mourinho: sim ou não? (Foto-montagem: Luis Felipe Zaguini / Chelsea Brasil)

Dois Lados: Demissão de José Mourinho

Mourinho: sim ou não? (Foto-montagem: Luis Felipe Zaguini / Chelsea Brasil)
Mourinho: sim ou não? (Foto-montagem: Luis Felipe Zaguini / Chelsea Brasil)

Com a demissão de José Mourinho confirmada nesta semana, quinta-feira, 17 de dezembro, após meses de especulações e rumores, o Chelsea Brasil inaugura o quadro Dois Lados. Nele, teremos duas opiniões sobre o assunto do momento. O primeiro tópico, não poderia ser diferente, será a demissão de José Mourinho. De um lado, Rafael França, que acredita que Mourinho não merecia a demissão, e que deveria ter mais tempo para se reerguer com o time. Do outro, teremos Márcio Canedo, favorável a demissão.

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Por que não demitir?

É, ele caiu. A demissão era a atitude mais correta a se tomar? Não. Sim, os resultados eram horríveis, a postura em campo era patética, mas a falta de respaldo da direção em relação ao trabalho dele foi o fator preponderante para sua demissão. Não, eu não estou ficando maluco. Há dois meses, o Chelsea emitiu um comunicado manifestando seu apoio ao treinador José Mourinho. Logo, o que mudou em pouco mais de dois meses –  além dos fracos resultados? A postura da direção foi clara: ela escolheu um lado. E isso não foi o correto.

José Mourinho errou no caso Eva Carneiro? Errou. Foi, talvez, a sua pior atitude, do ponto de vista humano, no clube. Acusou, covardemente, uma profissional. Também errou ao colocar a culpa na arbitragem na maioria dos jogos? Sim. A tática do time era ultrapassada e defasada? Também, mas nada justifica a postura vergonhosa do elenco azul, que apesar dos constantes conflitos com o treinador, não devia jogar para perder. Devia jogar, acima de tudo, pelo clube. É óbvio que existiam conflitos entre o ex-treinador e os atletas, mas será que vale a pena jogar de sacanagem para derrubar um profissional? Sim, é uma especulação, mas alguém acha que o futebol praticado por Hazard e por Fàbregas é o verdadeiro futebol?

É inegável que ocorrem problemas nos vestiários de clubes de futebol, porém, é inconcebível que um profissional remunerado pare de trabalhar ‘só’ para derrubar alguém.

O jogo contra o Sunderland será o grande divisor de águas. Se nós presenciarmos uma atuação excepcional, saberemos que os jogadores do Chelsea Football Club derrubaram seu ex-treinador – o que é vergonhoso. Tirando alguns nomes, como Willian, Terry, Ramires e mais um ou dois, o nível é péssimo. Hazard e Fàbregas irão estrear na temporada? Justamente sem Mourinho? No mínimo, vergonhoso.

O correto era dar um choque de realidade nesse elenco acomodado, mas, como sempre, preferiram roer o elo mais fraco da corda.

A grande verdade é que a demissão caiu muito mal no estômago da torcida. Afinal, ele era um ídolo, o maior treinador da história do Chelsea Football Club. E, para ser sincero, demoraremos muito para nos recuperar.

Rafael França é diretor-geral do Chelsea Brasil

Por que demitir?

Demitir um ídolo nunca é fácil, ainda mais sob as atuais circunstâncias, mas demitir o maior treinador da história do clube, na temporada após vencer a Premier League é mais difícil ainda. Contudo, acredito que a decisão pela liberação de José Mourinho do cargo de treinador do Chelsea tenha sido a mais a acertada, não pela história do treinador, que será sempre respeitado, também não apenas pelo atual momento de resultados do clube, mas por todo o contexto de trabalho que Mou acumulou ao longo dos últimos anos e de sua passagem pelo Chelsea.

Como já havia ressaltado em minha Análise Tática sobre o momento ruim do time na temporada, temos um time que dentro de campo decepciona por aspectos táticos, ponto que sempre foi o diferencial de Mourinho. É possível argumentar má vontade de jogadores, mas analisando a forma como time se dispõe em campo (o padrão tático da equipe, que é definido pelo treinador) vemos um time previsível, que apenas foi treinado para jogar de uma forma, facilitando e muito que os adversários nos derrotassem, já que é muito simples mapear e combater o jogo único que o Chelsea mostra desde a temporada passada.

Leia também: Análise Tática – Aprenderam a jogar contra o Chelsea, mas o Chelsea não aprendeu a jogar de outra forma

Devemos ser honestos, ele esboçou um time que jogava de maneira arrojada na temporada passada, mas o bom futebol durou só cinco meses, tempo para os adversários aprenderem a nos marcar, e a partir disso já temos 12 meses com um futebol novamente pragmático, previsível e medíocre, do ponto de vista tático.

Mourinho pecou também na falta de rodagem do elenco. Todos sabemos o quão fundamental é girar o grupo, dar chance aos reservas, descansar titulares, variar o time que entra em campo. É um dos pilares de qualquer grande clube hoje. Por exemplo: Bayern de Munique de Pep Guardiola teve 22 jogadores de linha com mais de dez aparições como titular na temporada passada. O Barcelona teve 17. O Real Madrid 21. Sabe quantos jogadores de linha do Chelsea tiveram mais de dez jogos como titular na temporada passada? Dez! Exatamente. Usamos o mesmo time titular em praticamente todos os jogos. Todos os grandes clubes trabalham com “elenco com 18, 20 titulares” mas o Chelsea de Mourinho tinha apenas um elenco de 11 titulares.

Porém, com um time vivendo uma fase terrível como está, era de se imaginar que ele mudaria seus métodos, daria mais chances aos jovens (outro ponto negativo de sua passagem), rodaria mais o elenco, tentaria novas variações táticas e planos de jogo…Mas não, mesmo vivendo uma fase ruim, com os adversários marcando e anulando o Chelsea como em brincadeira, ele não mudou o time, insistiu na mesma tática batida e pragmática e é esse o principal motivo, a meu ver, para defender sua demissão: o fato de que ele não pareceu disposto a mudar, a trazer algo novo, a buscar alternativas táticas e técnicas (que era seu trabalho) para tirar o time da situação.

Outro ponto fraco da segunda passagem de Mou por Stamford Bridge foi a dispensa desnecessária de jogadores baseadas sempre em autoritarismo (Kevin de Bruyne, Lukaku, Bertrand, Filipe Luis, Mata), a ponto de o português ter dito q não precisava dar chance para eles se provarem, porque ele tinha a capacidade de avaliar um jogador apenas vendo ele treinar por 5 minutos (perceba aqui um exemplo da recorrente arrogância do Special One) No caso do De Bruyne, por exemplo, o Chelsea queria colocar, por motivos claros, cláusula de recompra para o jogador, mas Mou exigiu que não fosse colocada, pois não trabalharia mais com o jovem. Deu no que deu. Fora que Mourinho não se manifestou sobre a venda do jogador, dizendo que não falava de jogadores que não eram mais do Chelsea, mas foi só belga estourar de vez na Alemanha que Mou passou a praticamente semanalmente acusar De Bruyne de “chorão”, “descompromissado”, “preguiçoso”, em clara tentativa de justificar a venda, chegando a dizer inclusive que o belga teria ido a sua sala aos prantos pedindo uma transferência, sendo que o discurso de todos os jogadores que deixaram o Chelsea, inclusive De Bruyne, é que Mourinho nunca teve uma conversa particular com eles.

Além disso, também devemos destacar os métodos de trabalhos ultrapassados e desgastantes utilizados por ele, baseados no atrito com atletas, na motivação negativa, criticando jogadores através da imprensa, o que claramente não faz bem a elenco algum. Isso a ponto de Mou ter sugerido que os jogadores atuais do Chelsea são “ruins” e que só foram campeões na temporada passada porque ele, José Mourinho, fez eles atuarem melhores do que são capazes. Curioso é que ele foi ainda contraditório em suas decisões, pois criticou repetidamente jogadores nesta fase ruim mas escalava-os, os mesmos criticados, todos os jogos, em um sinal de teimosia tremendo (vide Ivanovic e sua péssima fase).

Vale lembrar aqui que o português tentou impedir convocações de jogadores por suas seleções e até mesmo colocou no banco de reservas (e até dispensou Schürlle por isso em grande parte) jogadores que se manifestaram favoráveis a defender suas seleções mesmo contra a manifesta vontade do treinador.

Temos também o caso da Dra. Eva Carneiro, que foi horrível, absurdo e antiético (espero inclusive que agora ela volte ao clube), e que sabe lá por que cargas d’águas o treinador não foi punido esportivamente (processo ainda corre na Justiça inglesa contra ele e o clube). Sou a favor da demissão dele com uma dor no coração e vou torcer pra se erguer novamente pois é o maior treinador da nossa história. É muito triste ter que passar por isso…

Márcio Canedo é redator do Chelsea Brasil

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