david luiz e alonso

Análise Tática: O que Conte ganhou com as chegadas do Deadline Day?

O Chelsea de Antonio Conte vem empolgando os torcedores nas primeiras partidas da nossa temporada. Não tanto pela beleza do futebol apresentado, mas pela entrega e dedicação dos jogadores em campo. Pela visível mentalidade e comportamento diferente em relação ao que (sofremos) vimos na temporada passada. Contudo, como todo início de trabalho, coisas ainda precisam ser acertadas, e uma delas é a compactação e movimentação do sistema defensivo. O time tomou alguns gols que uma zaga digna de Antonio Conte normalmente não sofrem, mas que é totalmente compreensível pelo contexto do elenco que ele tinha em mãos até o momento.

Conte tinha em mãos poucas peças para o setor e trocando em miúdos ele estava “se virando com o que tinha”. Não que nomes como Gary Cahill, John Terry e Branislav Ivanovic sejam péssimos ou inadequados para o Chelsea, por mais que o primeiro e o ultimo sejam bastante questionáveis. A questão central é a falta de opção a eles. Não haviam alternativas no elenco que dessem a Conte a possibilidade de variar o sistema defensivo.

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Por exemplo, a linha de quatro defensores com Ivanovic, Cahill, Terry e Azpilicueta era basicamente estática. Não havia mesmo opções para substituí-los. Isso se dá por um mal planejamento da gestão anterior dos Blues, que focou em confiar em um número pequeno de jogadores e repetir a titularidade a eles, isto acabou fazendo do nosso elenco um elenco limitado; e a única opção defensiva mais confiável, o francês Kurt Zouma, ainda machucado, não estava disponível.

Então se fosse preciso tirar Iva do time, quem entrava? Quem era o lateral direito reserva? Azpilicueta, claro! Mas ele é o titular da esquerda. Então se eu retirá-lo de lá, quem cobre a esquerda? Aina! Mas ele e ainda muito jovem e inexperiente! Então mantemos Azpi na esquerda. Quem entra no lugar de Iva? Aina! Mas ele e ainda muito jovem e inexperiente! E para a vaga de Cahill e Terry? Quem entraria? Ivanovic! Mas com isso quem iria para a direita? Aina! Mas ele e ainda muito jovem e inexperiente!

Chelsea recheou o sistema defensivo no Deadline Day (Fotos: Chelsea FC)
Chelsea recheou o sistema defensivo no Deadline Day (Fotos: Chelsea FC)

Percebem a falta de opções no elenco? E neste sentido, dar uma mentalidade ao elenco azul não era a única tarefa de Conte. Corrigir a falta de profundidade do grupo também era papel central na construção do trabalho do italiano. E como base o treinador tinha três titulares acima dos 30 anos, um lateral versátil e consolidado, que joga em ambos lados e outro lateral que cumpre seu papel na direita e na esquerda, porém ainda muito jovem para ser uma alternativa regular, em que se possa confiar uma titularidade. Entretanto, são opções interessantes para se começar um trabalho, pois três dos cinco nomes disponíveis jogam em mais de uma posição.

Iva é lateral direito e zagueiro. Azpi e Aina são laterais nas duas. Mas ainda assim era preciso profundidade, era preciso dar opções, era preciso enriquecer o elenco azul. E isto foi feito. É claro que muitos esperavam nomes diferentes, é o que muitos dos torcedores sonharam durante toda a janela de transferências. Nomes como Bonucci, Chiellini, Marquinhos e Koulibaly surgiram para a zaga e Ricardo Rodriguez para a lateral. Contudo, as adições de David Luiz e Marcos Alonso não devem ser lamentadas, apesar de não serem nomes do calibre dos especulados.

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Não devem ser lamentadas apenas pelo aspecto técnico específico de cada um deles, mas também porque eles se juntam ao grupo de jogadores versáteis do nosso sistema defensivo. E assim, com essas duas contratações, podemos dizer que a defesa do Chelsea tem boas e muitas alternativas. A construção de um bom elenco passa também por perceber as possibilidades táticas de cada jogador.

Primeiro, Marcos Alonso: Lateral-esquerdo de ofício, o jogador tem boa capacidade defensiva, principalmente em desarmes e jogadas pelo alto, além de ser uma peça que se envolve bastante nas construções ofensivas do time. E pelo histórico dele na Fiorentina, principalmente, ter um atleta como ele no elenco é muito interessante. No Sunderland, se mostrou um bom lateral-esquerdo, mas foi na Viola que não apenas se aprimorou na posição, mas aprendeu também a atuar em outros setores do campo, se preciso, e com também com eficiência.

Além de lateral pela esquerda, Alonso jogou em vários momentos como ala pelo setor, incorporando o meio de campo, em um sistema com três zagueiros. Mas não apenas isto, em jogos em que a Viola precisava de um esquema mais ofensivo, mais ousado, Alonso foi recuado para a última linha de três defensores e passou a ser um zagueiro pela esquerda, tanto pela sua capacidade defensiva quanto para melhorar a saída de bola da equipe. Em ambos os papéis, foi muito bem.

Passagem de Alonso na Viola foi marcada por regularidade e polivalencia (Foto: Getty Images)
Passagem de Alonso na Viola foi marcada por regularidade e polivalência (Foto: Getty Images)

Ou seja, estamos contratando não apenas um lateral-esquerdo. Estamos trazendo junto alguém que pode jogar tanto no meio quanto na zaga quando necessário, com igual eficiência. E isso tem vantagens não apenas para escalar um time, mas também no desenrolar de uma partida. Se Conte precisar mudar o esquema tático durante o jogo, ter uma peça que pode jogar em mais de uma opção e que pode se adaptar rapidamente a uma outra função dentro da partida, permite ao italiano promover a mudança tática que ele deseja sem necessariamente gastar as três alterações que a ele são dadas. Ele pode simplesmente recuar Alonso para uma linha de três defensores e trocar o outro lateral por um atacante ou meio campista, sem necessariamente ter que trazer do banco junto com a substituição ofensiva um zagueiro para compor a defesa.

E nesta mesma linha David Luiz se encaixa. O jogador tem toda uma historia com os Blues, claro, que torna sua contratação um grande evento (seja positivo ou negativo), mas do ponto de vista tático ele soma não só a experiência de um zagueiro de 29 anos e acostumado ao clube e à Premier League, mas também um jogador que pode ocupar, assim como Alonso, mais de um setor do campo.

Resguardadas todas as críticas a seu desempenho defensivo em vários momentos (algo que pode ser corrigido também por Conte e que o zagueiro já vem demonstrando evolução em seus anos de PSG), David Luiz trás alternativas táticas interessantes: ele joga nas duas posições de zagueiro, tanto pela direita, quanto pela esquerda, no próprio Chelsea ele atuou nas duas, o que permite a ele ser titular (ou substituto) ao lado de qualquer outro zagueiro do elenco, sem precisar que alguém esteja jogando mais ou menos deslocado.

Outra alternativa, em que David atuou bastante em sua última temporada em Stamford Bridge, é na posição de volante, mais especificamente na posição de primeiro volante. Atualmente, o elenco conta com Kanté, Matic e Mikel para o setor, mas ter uma alternativa a mais no elenco, como dito, faz toda a diferença, principalmente por ser um jogador que pode flutuar ao longo da partida para a zaga ou para o meio dependendo do momento da peleja. Mikel e Matic até fazem isso em vários momentos, integrando a defesa, mas sem a mesma eficiência por estarem fora de posição. David Luiz, por outro lado, pode bem se encaixar nas duas funções dentro de um mesmo jogo. E com isso, Conte ganha novamente possibilidades de mudar a formação do time sem necessariamente fazer substituições.

Fora isso, Luiz é um zagueiro rápido e de bom passe, o que o torna uma alternativa interessante, também, caso o treinador queira, durante ou para iniciar uma partida, adotar um esquema com três zagueiros, já que Iva, Terry e Cahill, por serem mais lentos e pesados, impossibilitam o Chelsea a jogar com confiança em um esquema assim.

Além destas opções temos ainda o jovem Nathaniel Chalobah, que reveza entre a base e o elenco principal, e que pode ser utilizado em momentos que forem necessários ou em partidas menores para ganhar experiência. E a promessa azul já vem sendo moldado para este padrão de versatilidade, uma vez que joga como zagueiro, volante e também como lateral direito. Entretanto, é menos provável vê-lo em campo que seus companheiros.

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Então, analisando bem, no Deadline Day Conte não ganhou apenas um lateral e um zagueiro. Ele ganhou dois zagueiros, um lateral e dois meio-campistas. E mais que isso, ele ganhou profundidade na defesa para fazer as mais variáveis mudanças táticas sem grandes improvisações, o que dá solidez e garantia para o italiano adaptar seu time aos jogos, como ele costuma fazer, mexendo pouco no time. E com a volta do ótimo Zouma (que já chegou a atuar de lateral direito e volante, apesar de não ter ido bem em nenhuma das funções), o time passa a ter varias opções para todas as posições da linha de defesa, o que nos da também a esperança de que a evolução que Conte tem construído no elenco vai se estender cada vez mais as últimas linhas e com isso teremos um time mais equilibrado e pronto para devolver o Chelsea para o posto que ele merece.

Time titular com as contrataçoes. Depois o mesmo time com outro sistema. Nas duas ultimas o mesmo time com uma substituiçao. Na terceira Batshuayi no lugar de Azpi e na ultima Zouma no lugar de Matic
Time titular com as contratações. Depois o mesmo time com outro sistema. Nas duas últimas, o mesmo time com uma substituição. Na terceira, Batshuayi no lugar de Azpi e na última Zouma no lugar de Matic; ou seja, poucas alterações, varias variações de jogo

Então para terminar e ilustrar, com os vários jogadores polivalentes que agora temos, ficamos assim para as posições defensivas:

Lateral Direita:  Azpilicueta, Ivanovic, Aina, Chalobah                                           

Zaga: Ivanoic, Cahill, Terry, Zouma, David Luiz, Alonso, Chalobah 

Lateral Esquerda: Azpilicueta, Alonso, Aina

Primeiro Volante: Matic, Mikel, Kante, David Luiz, Alonso e Cholobah.

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