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Análise Tática: Guus Hiddink abriu mão de sua covardia e o Chelsea voltou a encantar

Quando o treinador holandês assumiu o Chelsea, em meados de dezembro, a situação do time, principalmente nos vestiários, era das piores possíveis. O time vinha de um aproveitamento pífio na Premier League, ocupando a 16ª colocação, um ponto apenas acima da zona de rebaixamento, e o futebol apresentado em campo chegava a doer os olhos e o coração de qualquer torcedor azul. Portanto, nada mais natural que ele desse uma organizada na casa antes de qualquer outra coisa.

O time vinha perdendo muitos jogos. Haviam sido 16 partidas sob o comando de José Mourinho com nove derrotas e aproveitamento de apenas 25%. E a defesa era um ponto mais do que negativo e que contribuía visivelmente para esse desempenho. Então naturalmente Guus chegou, priorizou e reforçou o sistema defensivo.

Sua principal mudança foi a entrada de John Obi Mikel no time titular (para a vaga de Hazard que havia se machucado) e o time passou a jogar com três volantes: Mikel, Matic e Fàbregas, sendo que o último se adiantou para a posição de armador, mas já ficou mais do que provado que não é a dele. E o jogo contra o Newcastle prova isso, que com espaço jogando mais recuado ele contribui mais.

Os jogos passaram e o Chelsea conseguiu emendar uma boa sequência sem derrotas. O desempenho da equipe passou a ser visivelmente mais equilibrado e o clima dos vestiários também, com declarações neste sentido de vários jogadores. Bom, iniciamos o segundo turno com uma série de três jogos sem derrotas e continuamos assim, sem perder.

Qual seria o passo seguinte? Casa arrumada: é hora de vencer jogos! Porém, não foi o que aconteceu. Guus permaneceu com uma insistência até mesmo irritante, para não dizer covarde, em escalar um time com três volantes. Que era ainda mais ressaltada pela péssima fase vivida por Matic na temporada. Verdade seja dita que ele atuou bem contra o Newcastle, mas durante toda a temporada ele tem sido um dos jogadores com pior desempenho de todo o elenco, talvez até mesmo o que mais caiu de nível desde a última temporada – porque Ivanovic já era ruim na temporada passada, então não mudou muita coisa.

Com Guus são agora nove partidas na Premier League e apenas três vitórias. Claro que é notável que não há nenhuma derrota neste recorde, que somado com a vitória sobre o Sunderland sob comando de Steve Holland, dá ao Chelsea uma série de 10 jogos sem derrota na Premier League. Mas, entretanto, são nove partidas e apenas três vitórias mesmo assim.

E a sensação clara que ficou vendo as partidas do último mês, em que jogamos quatro partidas em casa, é que era possível vencer jogos que empatamos se tivéssemos uma disposição tática mais equilibrada em campo. Não digo nem ousada, apenas equilibrada, menos conservadora, menos defensiva. Jogos como contra o Watford, West Brom e Everton deram a total sensação de que seriam vencíveis se não tivéssemos tão preocupados em não perder.

Nos primeiros jogos era natural este sentimento, até para dar confiança para o time. Mas, no último mês, em que disputamos seis partidas e vencemos apenas duas, a impressão ficou clara de um conservadorismo excessivo por parte de Guus Hiddink. E de que o esquema com as “duas torres” Mikel e Matic não era viável se quiséssemos escalar a tabela. Para terminar ali em décimo com um recorde recheado de empates seria perfeito. Para subir na tabela e terminar em uma posição mais digna, seria e será preciso abrir mão deste sistema de jogo e utilizar uma equipe mais equilibrada e campo, que busque as vitórias mais do que se preocupe em não ser derrotado.

E para provar esta argumentação, veio a ótima partida contra o Newcastle, no último fim de semana. Ao analisar a escalão que foi a campo, a primeira coisa que me chamou atenção foi: “Mikel não está entre os titulares. O time vai a campo com três armadores”. E naquele momento eu tive uma certeza de que o desempenho seria melhor do que no restante do comando de Hiddink. O Chelsea voltou a um 4-2-3-1 mais natural e abandonou o 4-3-3 que na verdade era uma máscara para um 4-3-2-1 bastante sem criatividade e movimentação.

Com uma equipe mais equilibrada, com dois volantes, sendo um marcador e um passador, e com três homens atrás de Diego Costa, o Chelsea desenvolveu um futebol com cara daquele futebol do primeiro turno da temporada passada. Um futebol rápido, eficiente e mais do que isso inteligente. O time soube acelerar o jogo quando preciso, e cadenciar quando foi necessário. Pressionamos a saída de bola em momentos importantes e em outros demos espaço para que o Newcastle subissem suas linhas, para explorarmos os contra-ataques.

Foi uma partida extremamente inteligente do ponto de vista tático, provando que este esquema, que variou em muitos momentos para um 4-1-4-1 com muita naturalidade, é a melhor disposição tática para este time. Não apenas pois deixa um jogo pragmático de lado, mas porque dá mais criatividade do meio para frente, dificultando a marcação dos adversários, que agora tem mais elementos e variações de jogo para se preocupar. Tanto é que Diego Costa brilhou no primeiro tempo, já que a marcação não tinha apenas eles ali na frente para se preocupar.

O esquema com dois “volantões” obrigava os dois armadores em campo a recuar de mais para compensar a falta de transição e isso afastava demais o setor criativo de Diego Costa, que passou um bom tempo sendo um gladiador solitário do meio pra frente. Willian pera praticamente o único com liberdade para subir ao ataque junto com o camisa 19. Já o esquema de ontem permitiu uma aproximação mais natural de Pedro, Hazard e Willian de Diego Costa. E permitiu ainda espaçar mais a defesa adversária, já que haviam mais jogadores de ataque criativos ocupando melhor os espaços ofensivos.

A transição foi feita por Cesc Fàbregas com ajuda de um dos armadores por vez, deixando ainda outras opções mais adiantadas para trabalhar a bola e chegar ao ataque com igualdade numérica em relação a defesa adversária.

Foi uma partida exemplar do Chelsea, não só pelo empenho, mas pela forma como time se comportou taticamente, como ocupou os espaços e como utilizou todos os setores do ataque para chegar ao gol adversário. Além de utilizar armas das mais variadas, pressão na saída de bola, contra ataque, jogo cadenciado e trabalhado. E isso só é possível quando há uma montagem de equipe em que numericamente hajam jogadores de meio e ataque suficientes e com capacidade de cumprir todas estas funções, que saiam e que voltem.

O esquema preferido de Guus deixa o time sem criatividade pelo meio e sacrifica Oscar; deixando apenas Willian e Diego como reais opções de ataque
O esquema preferido de Guus deixa o time desequilibrado taticamente e sem criatividade pelo meio; sacrifica Oscar, deixando apenas Willian e Diego como reais opções de ataque (Montagem: This11.com)

O time com Mikel e Matic recompunha até bem, mas não conseguia fazer a transição nem trabalhar a bola com qualidade, ficando muito refém de jogadas pessoais e lampejos individuais, senão de jogadas quase de sorte também. Desta vez o Chelsea conseguiu transitar bem, abrir a defesa adversária, pressionar, ocupar espaços. Tanto que a natureza dos cinco gols mostram isso. O primeiro foi possível pois a defesa estava espaçada pela presença de Hazard e Pedro, possibilitando que Willian trabalhasse pelo meio com espaço e servisse Diego.

O segundo gol foi em jogada de pressão na saída adversária, algo também que só é possível quando o time tem peças de ataque no campo adversário. Um time com um volante a mais e um armador amenos teria uma peça a mais na frente da própria área e uma a menos para pressionar a saída adversária. Já o terceiro gol aconteceu com o time chamando o adversário para seu campo e atuando em contra ataque. O time bem disposto defensivamente, com Pedro ajudando na lateral esquerda, possibilitou Azpi sair para dar combate mais ao centro, o que gerou uma bola roubada e lançamento para Costa, que serviu brilhantemente Willian para marcar.  Vale ressaltar que sem um winger e com um volante ao centro. Azpi não teria a cobertura necessária para sair para dar o combate mais ao centro do campo. Isto é um exemplo clássico de um time equilibrado em campo. Além de provar que Fàbregas mais recuado dá a possibilidade de liberdade para um lançamento, como foi o caso para o contra-ataque deste gol.

No quarto gol temos a mesma situação, Fàbregas recuado e com espaço portanto, já que jogando a frente ele tem combate direto com volantes adversários. Mas recuado e assim com espaço para pensar, ele faz um lançamento que primoroso que deixa Pedro livre para marcar seu segundo gol na partida. Nova jogada de contra ataque, novo exemplo de uma melhor disposição defensiva em todos os setores e novamente uma demonstração de que recuar Fàbregas faz com que ele seja um jogador muito mais letal do que próximo da área adversária.

O quinto gol é uma demonstração de uma jogada bem trabalhada, com movimentação, neste caso de Bertrand Traoré, que começa e termina a jogada, e abertura de espaços a partir de jogada pelas laterais. Wingers e laterais trabalhando juntos, com participação de jogadores mais de centro para fazer a triangulação, atrair a marcação e deixar um jogador, no caso Azpi, para fazer um cruzamento livre para o centro da defesa. Traoré merece todos os créditos nesta jogada.

O que esperamos a partir de agora é ver um Chelsea mais próximo deste contra o Newcastle do que do que entrou em campo até aqui na gestão Hiddink. A saída de Mikel do time titular foi fundamental para esta evolução e fica a esperança de que esta escalação se repita. Claro que fica um pé atrás pela natureza conservadora do treinador holandês nesta segunda passagem por Londres, mas ele teria de ser no mínimo displicente de não perceber a evolução que o time demonstrou na última partida em todos os aspectos do jogo. Se Hiddink abrir mão um pouco de sua covardia, talvez tenhamos esperança de terminar em uma posição mais digna na tabela, e até mesmo brigar pela Champions League e pela FA Cup.

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