Por que o goleiro do Chelsea não usa aquele capacete?

Chelsea e Arsenal se enfrentaram neste domingo, e o placar de 0 a 0 foi garantido em grandes atuações dos dois goleiros, o que reacendeu a discussão da escolha do Chelsea em preterir Petr Cech. Mas, afinal, por que o Chelsea escolheu o goleiro sem capacete? 

Que torcedor em sã consciência hesitaria em aceitar um jogador de classe mundial no seu clube de coração? Provavelmente nenhum. E quando esse jogador chega a custo zero? Em dias de mercado inflacionado, isso é quase como ganhar na loteria. Mas isso aconteceu com o goleiro Thibaut Courtois em 2014. Na época, o jovem belga de apenas 22 anos tinha feito a melhor temporada de sua carreira (pelo menos até então), jogando emprestado pelo Atlético de Madrid, quando ajudou a equipe a atingir o vice campeonato da UEFA Champions League, inclusive superando o próprio clube detentor de seu passe.

Mas, a torcida do Chelsea sabia que apenas ele ou o ídolo Petr Cech poderiam jogar, e coube ao treinador José Mourinho tomar uma difícil decisão. A necessidade de segurar Courtois era óbvia: um goleiro de altíssimo nível com pelo menos 10 anos a mais de estrada a percorrer do que Cech. Afinal, por que a equipe londrina optou por deixar o ídolo do capacete de lado?

Vice-campeão da UEFA Champions League e quase semifinalista da Copa do Mundo: Courtois chegou ao Chelsea com moral (Foto: Julian Finney)

Para a surpresa de muitos, ambos ficaram no clube na temporada 2014-2015. E para surpresa de muitos mais, Courtois assumiu a titularidade logo de cara. No entanto, o belga enfrentou muitas dificuldades em sua primeira temporada, sendo a desconfiança uma das maiores. O arqueiro passava longe de jogar mal, mas também não parecia fazer a diferença em momentos decisivos, como no duelo contra o Paris Saint-Germain pela UEFA Champions League ou no clássico contra o Tottenham no segundo turno da Premier League.

Para complicar ainda mais sua situação, Cech ainda passava mais segurança quando tinha oportunidade de atuar, e parecia ter uma enorme facilidade para manter clean sheets (uma estatística que pode enganar bastante, mas ainda é essencial).

Enquanto disputavam posição Courtois era o favorito do treinador, mas o veterano parecia passar mais confiança (Foto: The Independent)

Na temporada seguinte, a transferência de Cech para o rival Arsenal deixou clara a intenção do Chelsea de confiar em Courtois como dono definitivo da meta. A princípio, a escolha pareceu ter sido um tiro saído pela culatra, uma vez que Cech demonstrou o bom nível de sempre no lado vermelho de Londres, enquanto Courtois caiu de rendimento, assim como toda a equipe do Chelsea, que viveu uma temporada desastrosa.

Algumas declarações de Courtois também deixaram a torcida irada, como quando afirmou publicamente que se sentia mais confortável jogando pela seleção da Bélgica do que pelo Chelsea, o que acabou gerando uma certa polêmica e levantando a possibilidade de uma possível transferência para outro clube.

Apesar do sentimento de que o management da equipe havia tomado uma decisão precipitada, a temporada 2016-2017 também foi a redenção de Thibaut. Demonstrando um bom nível e com uma defesa mais organizada, o arqueiro passou a ser importante em inúmeras oportunidades, e finalmente mostrou poder de decisão.

Enquanto o treinador Antonio Conte ainda estava se adaptando ao futebol inglês, muitas vitórias eram suadas e garantidas pelas mãos de Courtois. O padrão de segurança foi se desenvolvendo ao longo da temporada, e ao final da mesma foi coroado com o título da Premier League e o troféu Golden Glove, prêmio dado ao goleiro com mais clean sheets na temporada (volta a afirmar que clean sheet é uma estatística que pode mentir). Naturalmente, todo o sistema defensivo organizado por Antonio Conte tem méritos nas conquistas de Courtois, mas é inegável os méritos que fizeram o belga de 1,99m crescer ainda mais e conquistar uma confiança quase que incontestável da torcida e da equipe.

Medalha de campeão e troféu Golden Glove: a volta por cima sendo coroada (Foto: Premier League)

No entanto, ainda há um certo abismo entre a confiança em Courtois e em Petr Cech em seus tempos áureos. O que de certa forma é compreensível: Cech tem uma grande identificação com o Chelsea, seu capacete virou símbolo do clube por muito tempo, e é merecedor de todas as honrarias que empilhou em seus mais de 10 anos de Chelsea, entre elas o reconhecimento como melhor goleiro da história da Premier League (conferido pelo site oficial da Premier League em 2014), superando lendas como Peter Schmeichel e David Seaman e a participação direta em diversos títulos – e é justamente esse ponto que mais difere Courtois de Cech. Há de se reconhecer a diferença de qualidade entre as equipes do Chelsea de Cech e de Courtois.

Antes de 2014, a administração dos azuis de Londres era mais propensa a gastar grandes quantias de dinheiro para montar equipes capazes de disputar qualquer título, e com isso, Cech tinha a chance de mostrar sua qualidade e poder de decisão em muitas oportunidades importantes contra times de grande expressão, principalmente na UEFA Champions League, onde se consagrou diversas vezes. Courtois disputou apenas três temporadas completas pelo Chelsea, sendo uma delas desastrosa para a equipe como um todo e outra em que sequer jogou competições europeias (como punição pela citada anteriormente).

Dura missão: Courtois ainda luta para sair da sombra do antecessor e construir seu próprio legado

Hoje, Courtois tem uma grande oportunidade, e uma missão maior ainda. O Chelsea está de volta à UEFA Champions League, e embora não tenha um elenco estrelado como os que estava acostumado a ter na década passada, tem condições de fazer bonito na competição mais charmosa de todas. Antonio Conte conseguiu dar uma solidez aos Blues em pouco mais de um ano de trabalho, baseado em táticas eficientes e muita garra para conseguir superar suas próprias limitações.

Mas, a equipe ainda sente a falta de um grande diferencial para passar a figurar entre os principais candidatos ao título europeu – e Courtois pode ser esse diferencial. Se todo time começa por um grande goleiro, hoje o Chelsea está bem servido. E esse grande goleiro também pode fazer a diferença numa competição de mata-mata, onde pênaltis, erros defensivos e poder de decisão são frequentes e podem consagrar um jogador… Ou então custar muito caro. Pode ser a grande chance do belga provar seu valor, afastar de vez a desconfiança da torcida e ajudar o Chelsea a conquistar seus objetivos, e ele certamente vai lutar para não deixar essa oportunidade passar.

Não deixar passar tem sido a especialidade de Thibaut: foram 16 jogos sem sofrer gol na última edição da Premier League (Foto: Metro)

Na última temporada, Courtois já obteve números melhores que Cech. E apesar do impacto causado pelo tcheco em sua chegada no Arsenal, o tempo chega para todos, e uma leve queda em seu rendimento já pode ser notada, enquanto Courtois cresce e parece se aproximar cada vez mais do auge de sua forma.

As comparações são inevitáveis, mas antes de tudo, Courtois não é Cech, tampouco tem obrigação de ser. São goleiros diferentes, com características diferentes e missões diferentes. A nostalgia certamente pesa, e olhar para a meta do Chelsea e não ver o homem que durante tantos anos salvou a pele dos azuis de Londres ainda causa uma sensação estranha. Mas o arqueiro belga já demonstrou ser digno de muita confiança, e pode continuar o legado de guarda-metas do Chelsea com a qualidade que um clube com grandes pretensões exige.

Leonardo Freitas