Porque Mata perdeu espaço no time de Mourinho

Quando José Mourinho foi confirmado como treinador do Chelsea pela segunda vez, em junho desse ano, muitas expectativas foram criadas e havia quase um consenso entre os torcedores que esse seria o maior reforço do time para a temporada 2013/14. Os fãs só não esperavam que a maior estrela do time dos últimos dois anos iria pagar o preço pela troca de técnico.

The Special One voltou a Stamford Bridge sendo mais cauteloso ao falar com a imprensa, mas mesmo tentando não trazer tanta atenção para si e evitando as usuais polêmicas do passado, Mourinho se viu mais uma vez no centro das atenções, dessa vez não por suas palavras, mas por uma atitude que dificilmente passaria em branco: Juan Mata – eleito pelos fãs o melhor jogador do Chelsea nas últimas duas temporadas – passou de estrela do time para coadjuvante, tendo começado ‘apenas’ 11 partidas da Premier League das 21 partidas que o Chelsea já disputou.

A preferência do português por Eden Hazard e Oscar, levou Mata a disputar a terceira vaga com Willian e André Schürrle no esquema 4-2-3-1, o preferido do treinador. Além da posição de titular, Mata também teve problemas de posicionamento. O meia prefere jogar centralizado, mas Mourinho definiu que Oscar seria o seu camisa #10, ocupando o espaço central do ataque. Com o brasileiro jogando pelo meio, Mata voltou às origens e atuou na maior parte dos jogos pela ala direita – posição onde jogou durante toda sua carreira no Valencia da Espanha e também onde André Villas-Boas o usou nos primeiros meses na Inglaterra.

Porém, nem tudo estava desfavorável para o homem de criação dos Blues. Mourinho acompanhou a tendência de Roberto di Matteo e Rafael Benitez e deu mobilidade aos três meias atrás do atacante, que se intercalam principalmente na ponta direita e no meio (já que Hazard joga quase que fixo pela ponta esquerda). Dessa forma, Mata atuou muitos minutos na sua posição preferida, mas mesmo assim as estatísticas não são nem de perto as de 2012/13. O meia terminou a última edição da Premier League com 12 gols e 12 assistências, nesse ano porém, com mais da metade dos jogos da competição disputados o espanhol ainda não marcou pelo inglês e deu apenas duas assistências. A pergunta que fica é: o que aconteceu com Mata e qual a participação de Mourinho na sua queda de rendimento? Além disso, estaria o Chelsea sentindo falta das contribuições do espanhol?

Um fato que nem todos lembram é que Mata não teve férias integrais nos últimos cinco anos, participando da Copa da Mundo, da Eurocopa, da Copa das Confederações, do Mundial sub-21 e das Olimpíadas, todas competições disputadas entre junho e julho, interferindo diretamente no descanso e na pré-temporada do jogador. Como se não bastasse, ao se apresentar ao elenco dos Blues nessa temporada, o armador se contundiu pela primeira vez na carreira, o que levou Mata a perder a pré-temporada do Chelsea quase inteira. Isso significa que enquanto os outros jogadores estavam ganhando ritmo jogo, Mata ainda estava tentando se recuperar fisicamente.

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O espanhol foi introduzido no time por Mourinho contra o Aston Villa, na segunda partida da equipe pela Premier League e durante os meses de agosto e setembro esteve mais no banco de reservas do que entre os titulares. Apenas em outubro, o meia recebeu mais chances, que gradativamente aumentaram até chegar às onze partidas pela competição nacional que tem hoje. Seria a falta de jogos – e consequentemente a opção de Mourinho – a principal razão da temporada nem de longe empolgante do espanhol? Ou seriam os resultados medianos de Mata em campo que levaram Mourinho a mantê-lo mais fora do time?

Mourinho tem repetido com frequência que foi contratado por Roman Abramovich para deixar um legado no clube e criar uma filosofia de jogo – algo que não acontece em Stamford Bridge desde a primeira passagem do português pelo time da capital inglesa. Mas dessa vez o magnata russo quer algo diferente do estilo defensivo que permaneceu como marca do clube mesmo anos após a última partida de Mourinho durante o seu primeiro trabalho nos Blues. O treinador teve experiências com equipes ofensivas primeiro na Inter de Milão, mas principalmente com o Real Madrid, onde bateu recorde de gols e pontos no campeonato espanhol. Mas a chave do sucesso dos dois últimos trabalhos de Mourinho não está apenas no ataque, mas em como seus jogadores ‘atacam’ a posse de bola adversária.

De forma alguma Inter ou Real Madrid jogaram na retranca, mas a pressão na saída de bola do oponente em seu campo de defesa, aliada com forte marcação das duas linhas de meio-campo e disciplina tática impecável, fizeram dos dois últimos times por onde Mourinho passou equipes extremamente perigosas no contra-ataque, roubando bolas do meio para frente em muitos casos e contando com armadores decisivos como Wesley Sneijder e Mesut Ozil. E é exatamente aí que as coisas complicaram para Mata. Como a maioria dos jogadores da geração campeã da Espanha, o meia está habituado com o tiki taka que consagrou não apenas a seleção, mas também um dos melhores times dos últimos tempos; o Barcelona. Mata gosta de receber a bola e trocar passes até finalmente encontrar a brecha para dar o passe final que deixa seus colegas de time na cara do gol. O esquema de Mourinho não oferece esse tempo ao espanhol, uma vez que assim que a bola é roubada e o ataque é armado, normalmente em velocidade e com certa urgência. Apesar de muitas vezes dominar a estatística de posse de bola, os últimos times montados pelo Special One buscam o ataque objetivamente e na maioria das vezes explorando a velocidade de seus alas.

Mata não está acostumado a receber a bola em velocidade, preferindo recebê-la parado, ou pelo menos colocá-la no chão, olhar, calcular e fazer quantos passes forem necessários até achar espaço. Os times de Mourinho criam espaço com a posse da bola e diminuem as brechas sem ela, jogando de forma bem compacta. Com jogadores de movimentação constante, o português espera que seu time seja dinâmico, objetivo e letal nas suas investidas, justamente porque não abusa da posse de bola para cansar o adversário. O treinador esgota fisicamente seus oponentes quando o seu time não tem a bola e os persegue incansavelmente até retomá-la. E aqui Mata encontra mais uma dificuldade. O espanhol até que consegue roubar algumas bolas durante a partida (mas com maior dificuldade e menor precisão que seu companheiros de time – principalmente Oscar que foi líder dessa estatística na Copa das Confederações e é um dos líderes do Chelsea no mesmo critério, atrás apenas de Ramires, volante de ofício), mas o espanhol de porte físico modesto, não tem a força física nem a energia necessários para pressionar o adversário na saída de bola e na organização das jogadas.

Números do espanhol (Foto-montagem: Barbara Soares Cavalcanti / Chelsea Brasil)

Para se ter uma ideia da ineficiência de Mata nesse aspecto o espanhol conseguiu roubar apenas quatro bolas no campo de defesa do adversário enquanto Oscar roubou 16, Hazard 13, Willian oito e Schürrle sete. No geral (em todas as zonas do campo) os números também são desfavoráveis ao #10 do time. Ele teve 15 roubadas enquanto Oscar teve 51, Hazard os mesmos 15, Willian e Schürrle 19 cada. Muitos defenderão que um jogador da criatividade de Mata não deveria ter tantas responsabilidades defensivas, mas não se pode contestar que o Chelsea de José Mourinho está melhor posicionado na Champions League e na Premier League do que nas última temporadas quando Mata atuou com liberdade. Em 2012, o time encerrou o ano 11 pontos atrás do então líder Manchester United, nessa temporada, o time terminou o ano apenas dois pontos atrás do líder Arsenal. Na edição anterior, a equipe saiu do torneio principal da UEFA na fase de grupos, enquanto que esse ano se classificou em primeiro lugar do seu grupo. Mata jogou com muita ou quase total isenção de responsabilidades defensivas e contribuiu com as estatísticas ofensivas do time, mas também colaborou efetivamente com a perda do meio-campo do Chelsea para seus adversários. Com uma dupla de volantes considerada leve (Ramires e Lampard ou Ramires e Mikel), que sobe com frequência e cujo único jogador de marcação forte (primeiro volante) é John Obi Mikel, a liberdade dada a Mata oferecia muito espaço entre os volantes e os meias e quando a equipe adversária roubava a bola do Chelsea, havia muita liberdade para avançarem no ataque, porque além da leveza de Ramires e Lampard, o recordista de gols do Chelsea e Mikel são lentos na recomposição do meio-campo, oferecendo muito espaço para os oponentes organizarem ataques e contra-ataques.

O esquema de Mourinho que alia objetividade e forte marcação tem se mostrado eficiente e o time mostra sinais de maturidade entrando em 2014, tendo vencido os cinco últimos jogos, levando apenas um gol e marcando dez. Resta agora a Mata mostrar que além do talento inestimável, da grande visão de jogo, das assistências precisas e inteligência notável, que também tem versatilidade. Mourinho provou que seu sistema é melhor do que os usados pelos últimos treinadores que passaram pelo time do oeste de Londres e que é melhor limitar o espaço oferecido por Mata no meio-campo, mesmo que isso afete sua contribuição do ataque, do que contar com os números impressionantes do espanhol às custas de expor a defesa e os volantes. O #10 dos Blues jogou muitos minutos a menos que Hazard e tem uma diferença considerável abaixo de Oscar, mas atuou mais do que Willian e Schürrle e a essa altura do campeonato já não vale mais dizer que Mata não recebeu chances suficientes para cravar o seu lugar no time. O meia recebeu inúmeras oportunidades, mas diante de um esquema diferente do que estava habituado e de responsabilidades que nunca teve, o espanhol simplesmente ainda não achou o seu jogo e Mourinho não abrirá mão do seu esquema em favor do atleta que levou o prêmio de Jogador do Ano nas últimas duas temporadas, a não ser que Mata comece a mostrar no tempo presente que conseguirá se adaptar às exigências do comandante. Os números estão a favor do treinador nesse caso e é difícil argumentar contra eles.

As palavras contidas nessa reportagem condizem à opinião do autor, não tendo qualquer relação com o Chelsea Brasil.

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